Blogie - Cinema na VIP

Estreia: "Tudo Pode Dar Certo", de Woody Allen

sexta-feira, 30 de abril de 2010 - 6 Comentários

Há momentos na vida em que se deve abraçar seus valores. Há a coisa certa a ser feita e a coisa que lhe dá mais prazer. E não dá pra ignorar o valor de fazer o que lhe dá prazer. É por isso que, nesta sexta-feira em que estreia Homem de Ferro 2, com Robert Downey Jr., Scarlett Johansson e Gwyneth Paltrow (e com trilha todinha do AC/DC!), BLOGIE escolhe falar de outra estreia: Tudo Pode Dar Certo, novo filme de Woody Allen.


















Jamais subestime um novo Woody Allen - meu mandamento número 1 da cinefilia.


(Não que eu veja problemas no Homem de Ferro 2 - pretendo conferir o longa ainda neste final-de-semana, e terei prazer em dividir minhas impressões com o leitor.)

Tudo Pode Dar Certo, pra começar, é mais um caso de título mal adaptado para o português. O título original, Whatever Works, é a base da filosofia de vida do protagonista, Boris, um acadêmico brilhante e absolutatmente infeliz com o funcionamento do Planeta dado pela humanidade. Boris acredita que o ser humano estraga tudo, e suas aspirações e expectativas jamais serão atendidas plenamente. Casamento, carreira, dinheiro, sexo, amigos, arte - nada é capaz de trazer a felicidade. Então, cada um que se agarre àquilo que funcione na sua vida (whatever works, ou "qualquer coisa que funcione"). A tradução traz consigo um otimismo que não existe no filme.

Aliás, otimismo é tudo a que este novo Woody Allen se opõe: Boris é o cético definitivo. Não acredita em nada; abandonou sua carreira de físico indicado ao prêmio Nobel; pulou fora do casamento com uma mulher linda, inteligente e rica; tentou se matar e deu errado; impaciente, ganha a vida dando aulas de xadrez para crianças; passa os dias xingando seus amigos de imbecis e cretinos, enquanto desfila seu amargo discurso pelas ruas de Nova Iorque (sim, Woody volta a Manhattan). O negativismo não é incomum na obra de Allen; a diferença é que, ao invés do baixinho atrapalhado, gago e terno que normalmente dá voz às palavras do autor, o protagonista é vivido por Larry David, o criador da série Seinfeld e protagonista da série Curb Your Enthusiasm. David faz de Boris um cara francamente desagradável e agressivo.

A coisa é tão incômoda que, após dez minutos de Boris discursando suas ideias diretamente para a câmera, imaginei gente se levantando e deixando a sala (ele é tão onisciente que sabe estar em um filme, e provoca o público, avisando que, se o espectador espera um daqueles filminhos pra "se sentir bem", que deixe a sala e vá procurar massagem nos pés). Mas ninguém saiu.

O povo pagou pra ver e foi recompensado com a entrada em cena sempre agradável de Evan Rachel Wood (de Across the Universe e Correndo com Tesouras). Ela é Melody Celestine, uma tapada caipira que chega a Nova Iorque com uma mão na frente e outra atrás. Melody é acolhida - não sem alguma resistência inicial - por Boris em seu apartamentinho nojento. O choque entre uma "mente privilegiada" e a garota simplória rende muitas piadas engraçadíssimas - como o suposto passado de Boris como jogador do NY Yankees -, mas o mais importante é notar a gradual conversão de Melody em uma esnobe sub-intelectual.

O fenômeno da transformação de gente comum em socialites intragáveis ou intelectuais afetados é um fato não incomum nos filmes de Allen - por exemplo, a cozinheira de biscoitos que fica milionária em Trapaceiros, ou o professor de tênis em Match Point. Mas aqui a coisa é muito mais pesada: não só Melody, como seus pais - que chegam a NY para buscar a filha - passam por uma rápida e absurda transformação, passando de republicanos religiosos da "Deep America" a artistas, gays, maluquetes liberais.

As piadas que polvilham esse processo são sensacionais - Woody Allen em grande forma, coisa digna dos seus melhores filmes dos anos 70 -, mas o sentido por trás de tudo é bem mais interessante, porque corrobora a tese de Boris: cada um constata sua incapacidade para amar e ser feliz (aliás, a cidade grande e sua pluralidade garantem essa insatisfação constante), e acaba buscando algumas variações no menu de alternativas para a felicidade. Qualquer coisa que funcione.


Veja o trailer, com legendas em português (português de Portugal, mas funciona!)...


Li por aí críticas dizendo que se trata de tema requentado dos velhos filmes de Allen, ou que o filme é uma fábula sem moral da história, ou que Larry David estraga tudo com sua raiva e misoginia. Tudo bobagem. Tudo Pode Dar Certo é uma comédia rasgada e inteligente, Woody Allen no 220 desencapado, verborragia liberada e microfone aberto, para diversão daqueles que prezam um bom texto, personagens intrigantes e uma baita direção de elenco. E há um sentido central: quanto mais o ser humano submerge na cultura cosmopolita, cheia de conhecimentos acadêmicos e artísticos, mais toma ciência da sua incapacidade de ser feliz. E é por isso que a cidade grande se torna essa Torre de Babel maluca, com gente tentando de tudo pra driblar a falta de graça na vida. Vale tudo.

Está em cartaz, não perca. Aproveite essa oferta divina dada aos pobres mortais: um filme do Woody Allen por ano. Tão certo quanto o especial de fim de ano do Roberto Carlos, só que imprevisível.

PS: como complementos a este texto, sugiro que o leitor procure as críticas da Veja (Isabela Boscov, que idolatra Allen, desceu a lenha) e da Folha de São Paulo (Inácio Araújo, que não costuma elogiar os filmes do baixinho, elegeu Tudo Pode Dar Certo como o melhor trabalho de Allen nesta década). São dois ótimos textos!

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Crítica: "Ilha do Medo", de Martin Scorsese

segunda-feira, 22 de março de 2010 - 0 Comentários

Aos interessados em assistir a Ilha do Medo, em cartaz nos cinemas brasileiros, é importante contextualizar a coisa.















Mark Ruffalo e Leo DiCaprio se apresentam para desvendar o mistério. BLOGIE simplifica as coisas.


Martin Scorsese é gênio. Ao lado de outros colegas barbudos e desleixados (Coppola, Spielberg, DePalma, George Lucas, Altman), mudou a cara do cinema americano durante a década de 70. Dirigiu Taxi Driver, Touro Indomável, O Rei da Comédia, A Cor do Dinheiro, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros, Cabo do Medo, A Época da Inocência, Cassino. Conhecedor e amante do bom rock'n'roll, deu ao mundo Bob Dylan: No Direction Home e o genial documentário The Last Waltz , com a despedida da fiel escudeira de Dylan, The Band. Produziu uma série sobre blues sensacional. Dirigiu o video-clipe de Bad, do Michael Jackson. Enfim, sempre foi muito mais do que o "diretor por excelência de filmes de mafiosos", como é geralmente reduzido (ainda que em tom elogioso).

Embora a violência seja um de seus grandes temas, o outro - indissociável - é a sensação de isolamento, de abandono, de falta de conexão com o mundo. Todos os filmes citados acima - incluindo os inúmeros DeNiros, o Jesus Cristo fictício de William Dafoe e mesmo o Bob Dylan real em documentário - têm seus protagonistas enfrentando a falta de conexão com o mundo ou sofrendo o abandono de sua comunidade. A violência é mera conseqüência. Mesmo as últimas obras de Scorsese, como Gangues de Nova Iorque,  O Aviador e especialmente Os Infiltrados, tratam da relação entre essas duas questões.

Por tudo isso, este blogueiro vê com muito mais naturalidade o encaixe do novo Ilha do Medo  na filmografia de Scorsese. Muitos críticos têm tratado o filme como uma espécie de exercício vazio de estilo do diretor, mas a verdade é que este thriller meio noir, meio terror, meio alucinações à David Lynch, apesar de todo o arsenal de referências cinematográficas, é um exemplar muito coerente na sua obra.

Anos 50. Leonardo DiCaprio (ótimo, um cara que merece seu lugar junto a DeNiro, Joe Pesci e Harvey Keitel na turma de atores-fetiche de Scorsese) é um detetive do FBI enviado para uma ilha que abriga um manicômio/hospital para sociopatas. Ele e seu novo parceiro, vivido pelo sempre competente Mark Ruffalo, têm a missão de desvendar a fuga de uma das pacientes/detentas.

Primeiro truque: a pinta de filme noir é atropelada por Scorsese, cujo roteiro trata de, logo na chegada à ilha, tomar das mãos dos detetives suas armas e distintivos. Agora, estamos no terreno do terror psicológico.
Dentro da ilha, o que se verá é um clima pra lá de sinistro, acontecimentos cada vez mais estranhos e uma turminha suspeita, começando pelos psiquiatras titulares do lugar, vividos sem nenhuma vontade de agradar por Ben Kingsley e Max Von Sidow. Da metade para a frente - segundo truque de roteiro -, as coisas estranhas vão tomando forma de alucinação e, pouco antes do final, o espectador já terá entendido que não pode acreditar em NADA do que aparece na tela. Duas horas e meia de uma angústia crescente que só terá fim com os créditos.


Uma breve olhada no trailer é suficiente para entender que Scorsese é mesmo um monstro.

Tanta tortura se paga pela construção do personagem de DiCaprio - aliás, a rigor, o detetive vivido por ele é o único personagem construído ao longo do filme. Todos os outros - os "pacientes", os psiquiatras, os guardas, seu parceiro - são meros observadores do desenvolvimento desse personagem. E esse personagem, mais do que qualquer outro da filmografia de Scorsese (talvez só lhe faça frente Travis Bickle, de Taxi Driver), sofre com o isolamento. Está absolutamente sozinho em sua jornada, lamentando reiteradamente a perda da esposa. É assombrado pela perda de humanidade que sofrera ao ter participado da 2a. Grande Guerra. Não se sente devidamente acompanhado pelo seu novo parceiro. Que ligações todas essas coisas podem ter, um David Lynch teria prazer em embaralhá-las para nós, mas Martin Scorsese o faz com maior classe - e tem a decência de colocar as coisas em ordem (na ordem possível, que fique claro - não há espaço para acomodação) no final.

Mais, é impossível falar. O fato é que Ilha do Medo é um cinzento, frio, solitário retrato do isolamento humano. Um homem abandonado em sua própria existência só terá os remorsos a se multiplicarem na cabeça, e seus próprios julgamentos serão mais impiedosos do que os tratamentos receitados pelos psiquiatras malucos de uma ilha que se propõe a dar fim aos conflitos de cada um.

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Estreia: "Coração Louco", com Jeff Bridges

quarta-feira, 3 de março de 2010 - 2 Comentários

Todos já vimos filmes sobre velhos cantores country enfrentando seus demônios deixados como herança de uma vida de excessos, ao mesmo tempo em que buscam sua dolorida e agridoce redenção. São histórias de gente ficítica, como o Honkytonk Man de Clint Eastwood (1982), ou gente real, como o Johnny Cash de Joaquin Phoenix em Johnny & June (2005). O filme é mais ou menos o mesmo, variando a classe do diretor e o carisma do ator principal.

Talvez por esse desgaste do tema, Coração Louco, filme de estreia do diretor Scott Cooper (que também é ator), tenha sido ignorado nas indicações às principais categorias do Oscar. A saga de Bad Blake, cantor country que teve melhores dias, e que hoje se arrasta tocando em espeluncas, enquanto assiste à ascensão de um ex-pupilo ao estrelato, é aquela coisa de sempre - a degustação do fracasso, uma garota que o motiva a se limpar, a luta contra o vício... tudo aquilo que já transformou o enredo em um sub-gênero de Hollywood.

Mas uma coisa ninguém, nem a Academia, pode ignorar: o desempenho de Jeff Bridges como Bad Blake. Bridges, virando os sessenta anos, encarna o fracasso de uma maneira realmente dolorida. Seu corpo, seu cabelo, sua voz, seus maneirismos, tudo é mais crível do que todas as tentativas anteriores, incluindo o Cash de Phoenix e até o Ray Charles de Jamie Foxx. De quebra, Bridges toca e canta de verdade no filme, mostrando que tem talento como músico também. Indicação garantida para todos os prêmios e favoritismo total para o Oscar de melhor ator. Ninguém vai dizer que não foi merecido.





















Jeff Bridges canta, toca, bebe e arrebenta como Bad Blake.


Outro ótimo trabalho é o de Maggie Gillenhaal, como a jovem jornalista que é fã de Blake e que, a partir de uma entrevista, cai nos "encantos" do veterano (barrigudo, com uma garrafa de uísque a tira-colo, derramado numa poltrona caindo aos pedaços). Ela consegue excluir tudo o que vem de brinde no pacote, restringindo-se ao essencial: o talento de Blake como compositor. Em uma cena particularmente tocante, ela se emociona ao assistir ao velho compondo dois versos da canção que, mais tarde, já fora da tela, se tornará uma indicada ao Oscar: The Weary Kind, que traz em seus versos a expressão que dá nome ao filme.

As músicas - especialmente The Weary Kind - são uma atração à parte. Obra de T-Bone Burnett, devidamente reconhecida com indicações e prêmios.

E ainda há um certo fascínio pelo universo do lado B da música pop: a música country americana movimenta um mercado muito maior do que aquele que muitas vezes, nas metrópoles, elegemos como mainstream. Isso é exibido com orgulho caipira pela câmera de Cooper, que elege o rosto adequado de Colin Farrel como uma estrela country capaz de fazer turnês gigantes pelos EUA. É ele o pupilo de Blake que ultrapassou em muito a fama do mentor - e com quem haverá algumas contas a acertar.

De resto, bela fotografia, seja de ambientes externos de deixar qualquer um boquiaberto - como a do concerto ao ar livre na cena final -, seja em ambientes internos escuros e tristes, como o da casa de Bad Blake ou o velho bar do seu camarada, vivido por Robert Duvall (um gênio numa atuação pequena e marcante).

OK, fui mudando de opinião ao longo deste post. Descubro junto com o leitor que gostei demais de Coração Louco. Veja o trailer e cheque se é sem motivo:


Infelizmente, o cara que está cantando no trailer não é o Jeff Bridges. Já no filme é ele que canta, numa interpretação muito mais pungente.

Somado tudo, temos um ótimo filme, com elenco excepcional e uma atmosfera terna, confortável como uma calça velha e uma bota amaciada. E um desempenho antológico de Jeff Bridges, que provavelmente ganhará seu primeiro Oscar depois de cinco indicações (a primeira, mal saído da adolescência, foi em 1971, por A Última Sessão de Cinema).

Coração Louco entra em cartaz na sexta-feira, dia 05, e merece ser visto ainda antes do Oscar. Corra!

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Estreia: "Um Homem Sério", dos irmãos Coen

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010 - 6 Comentários

O mais ousado dos concorrentes ao Oscar de melhor filme entra em cartaz nesta sexta-feira: Um Homem Sério, de Joel e Ethan Coen - os irmãos por trás de uma penca de filmes estranhos e inteligentes, como Fargo, Arizona Nunca Mais, O Grande Lebowski, E aí, Meu Irmão, Cadê Você?, Onde os Fracos Não Têm Vez e Queime Depois de Ler (só pra ficar em meia dúzia).

Indo direto ao ponto: o filme foi indicado ao Oscar porque, apesar da estranheza e do desconforto (fique claro que se trata de um daqueles filmes pouco acessíveis e que deixam o espectador com cara de ponto de interrogação no final), consegue ser absurdamente humano e engraçado, ao mesmo tempo em que enfilera desgraças, colocando em xeque a religião judaica, a fé em qualquer outro tipo de justiça, a estrutura familiar, o racionalismo, o fatalismo...















Um homem sério: provando por A mais B que não se pode entender nada da vida.



Senão, vejamos: estamos em 1967, num subúrbio qualquer do Meio-Oeste americano. O protagonista, Larry Gopnik (vivido pelo desconhecido Michael Stuhlbarg), é um pai de família, judeu, professor universitário - um cara de retidão inquestionável e de vida pacata. À medida que se aproxima o bar mitzvah do seu filho - um maconheiro que passa as aulas na escola judaica ouvindo Jefferson Airplane e Jimi Hendrix -, problemas começam a cair como chuva de canivetes na sua cabeça. Um aluno coreano tenta suborná-lo para obter aprovação, passando depois para a chantagem; sua mulher o troca por um "amigo de família" muito chato; o amante da mulher morre, e as contas do seu funeral sobram para o corno de plantão; o irmão, um cara cheio de vícios e dado a práticas ilícitas, mora em sua sala; e, pra terminar, seus filhos só tomam conhecimento do pai como assistência técnica da antena de TV e como uma carteira para roubar uns trocados. Suas horas vagas são passadas entre o advogado que tratará da separação, especulações sobre a comissão que decidirá sua aprovação como catedrático e visitas a rabinos a quem recorre para entender o que diabos se passa com ele.

Infernal, a vida desse tal de Gopnik, não?

O roteiro dessa farsa divide-se em três atos, cada um deles mostrando o que acontece com a vida de Gopnik após seguir os conselhos de um rabino (ele vai do "rabino júnior" ao mestre dos magos da comunidade local). Fazendo das tripas coração para se provar um "homem sério", o cara não escapa da espiral descendente em que se meteu.

E é só no final que volta à nossa cabeça o estranho preâmbulo do filme, uma cena descolada de toda a história, que mostra um casal judeu em algum canto da Europa, em algum momento do século 19, contraindo uma terrível maldição que assolará sua família para sempre.


Veja o trailer de Um Homem Sério - repare na trilha, com Jefferson Airplane!

A leitura que os irmãos Coen, judeus que cresceram durante a década de 60 no Meio-Oeste, fazem das vidas daqueles que o cercavam é mais ou menos a seguinte: cada um cria sua própria maldição, ao duvidar dos fatos corriqueiros da vida e imaginá-los manifestações de um destino terrível. É o que fizeram os antepassados de Gopnik sob um clima de Crime e Castigo; é o que faz o próprio Gopnik, ao se empolgar com suas aulas sobre a teoria da incerteza e ao capitular nas possibilidades de vencer cada problema (clima de Woody Allen em Hannah e Suas Irmãs e Crimes e Pecados); e é o que faz o seu filho, entupido de maconha no próprio bar mitzvah, devedor de uma graninha para o traficante da escola - um rapaz que prefere esperar o furacão passar para enfrentar suas questões de homenzinho.

No mais, um clima irresistível de anos 60 - séries televisivas, acid rock, choque de gerações e uma certa homenagem à Mrs. Robinson de A Primeira Noite de um Homem. Diversão no contexto para aliviar o cerne pesado.

Um Homem Sério certamente não ganhará um Oscar no próximo dia 7 de março - weirdo demais pra isso -, mas podemos afirmar com segurança que nenhum filme deste ano foi tão longe. Não é necessário ir a Pandora ou projetar-se em três dimensões para deixar o espectador desnorteado.

É a melhor opção para um sessão de Cinema (com C maiúsculo) no final-de-semana. Se quiser optar por puro entretenimento, vá de Educação (já resenhado aqui no BLOGIE), que é cinema honesto, inteligente e divertido.

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Estreia: "Educação", com roteiro de Nick Hornby

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

Já é tradição recente do Oscar a inclusão de uma produção independente inglesa na lista dos finalistas para melhor filme. São filmes classudos, pequenos, cheios de fleuma e sotaque britânicos - uma concessão agradável, que só foi possível depois que a Working Title, produtora das comédias românticas do Hugh Grant e de produções de época como Orgulho e Preconceito, deslanchou no meio dos anos 90. O humor britânico já deu as caras com Ou Tudo ou Nada. Nos últimos anos, A Rainha e Desejo e Reparação ocuparam o posto.

Neste ano, a vaga inglesa na lista dos indicados a melhor filme é Educação, de Lone Scherfig. Os atrativos começam no roteiro: Nick Hornby, autor de romances como Alta Fidelidade, Um Grande Garoto e Febre de Bola, assina a adaptação da história real de uma moça de 16 anos que, no início da década de 60, viu-se na encruzilhada entre dar sequência à sua educação formal e rígida - que poderia levá-la a Oxford - e abraçar um romance com um homem mais velho, nada estudado, mas dado a "curtir as coisas boas da vida".
























O roteiro de Hornby (devidamente indicado ao Oscar) é elegante e afetuoso, projetando o espectador para dentro da cabeça e do coração de uma adolescente deslumbrada com a vida refinada a que ela nunca teve acesso. A moça, Jenny, vive os anos pré-Beatles, e está engajada em se tornar francesa: escuta só o creme da chanson, manda um papo existencialista aqui e ali, fuma com afetação calculada e despeja toneladas de expressões francesas misturadas ao seu inglês suburbano. É compreensível que, ao conhecer David, o bon vivant que lhe oferece uma carona, Jenny se entregue ao pacote oferecido pelo cara: restaurantes, concertos, vinhos, apartamentos decorados com obras de arte e viagens a Paris.

Se as atrações vêm num crescente contínuo, os senões pingam aos poucos: os menos ingênuos perceberão logo que se trata de um roleiro profissional. Seu ganha-pão é misterioso; seu nível cultural e intelectual não são compatíveis com o estilo de vida. Algo não fecha. Todos vemos isso, mas Jenny - que é uma moça inteligentíssima e perspicaz - prefere empurrar com a barriga, vivendo o sonho enquanto ele for possível.

O elenco é sensacional, a começar por Carey Mulligan, a revelação do ano. A jovem atriz inglesa (que tem 24 anos) está indicada ao Oscar de melhor atriz, e tem sido saudada como "a nova Audrey Hepburn" e outros devaneios. A verdade é que Carey - que está longe de ter a beleza de Hepburn - tem personalidade própria e talento para fazer uma grande carreira. Versátil, escapará da armadilha que lhe tentam armar - a da garota sempre elegante - e poderá arriscar bastante. Em Educação, ela convence como uma adolescente quase muito mais madura do que sua idade permitira... de certa forma, é uma versão anos 60 de Juno - uma versão menos liberada, muito mais pressionada, com opções restritas e muito mais a perder.

Peter Sasgaard - um desses atores ótimos cujos nomes ignoramos - faz grande trabalho como o malandro David. Há algo de culpado e incomodado em toda sua atuação. Uma indicação da Academia para ator coadjuvante lhe faria justiça.

Por fim, Alfred Molina, como o pai de Jenny, está sensacional. Um cara difícil, impositivo, mas ao mesmo tempo fácil de ser tapeado - pois, no fundo, tem os pés mais fora do chão do que sua filhinha. É um recalcado, um deslumbrado, alguém que adiou seus planos de ascensão social, delegando-os para a herdeira.


Veja o trailer de Educação!


Como resultado, temos um estudo do difícil fim da adolescência, com suas indecisões, armadilhas e inevitáveis frustrações. Ao final, Jenny dirá, "sinto-me mais velha, mas não mais sábia" - uma auto-avaliação que casa muito bem com os personagens de Hornby. Segundo o próprio autor, Educação faz bom par com seu primeiro romance, Febre de Bola, pois ambos tratam de adolescentes entediados que sonham em se livrar das limitações suburbanas e abraçarem um mundo muito mais cool. Em Febre de Bola, é o próprio autor que foge para Londres, abrigando-se no meio dos torcedores do Arsenal e em lojas de discos. Em Educação, é uma versão feminina, apostando todas suas fichas num passeio à beira do Sena.

Um filme agradável, inteligente e delicado. Não chega a ser nenhuma obra-prima, mas terá sempre o mérito de ter lançado Carey Mulligan para o estrelato. E, por que não?, bem que poderia render uma estatueta para Nick Hornby, herói pop e um dos escritores favoritos de BLOGIE.

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Crítica: "Invictus", de Clint Eastwood

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

Clint Eastwood chega aos 80 anos vivendo o auge da sua carreira. Hoje, é considerado um dos grandes cineastas em atividade, alguém no nível de Scorsese, Allen, Spielberg. Durante os últimos dez anos, Eastwood enfileirou Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Cartas de Iwo Jima, A Troca, Gran Torino. Dramas que buscam o que há lá no fundo de pessoas que passam por situações muito além do insuportável.

Comparado a essa série, seu filme atual, Invictus (em cartaz nos cinemas brasileiros), pode ser considerado leve e revigorante: seus personagens não enfrentam questões de vida ou morte; são pessoas em pleno domínio de suas competências e cujo maior desafio é como fazer o melhor uso delas. É um filme sobre esporte, sobre política, sobre amizade e liderança. Mas, no fundo, inspiração é o assunto central da história de como Nelson Mandela, o primeiro presidente sul-africano depois do fim do apartheid, enxergou na seleção sul-africana de rugby - os Springbocks, uma instituição nacional, pelo menos da parte branca que endossava o racismo oficial - uma promissora bandeira de integração nacional.



















Clint Eastwood dirige Morgan Freeman e Matt Damon em Invictus



Morgan Freeeman empresta seu carisma e sua simpatia natural a um personagem contemporâneo e ainda mais carismático e simpático. O resultado, apesar da indicação ao Oscar, não arrebata: é solene, contido, respeitoso demais. Mais interessante é notar o olhar humano e astuto de Mandela/Freeman/Eastwood, enxergando em cada atitude do presidente a possibilidade de mandar o recado certo, exato. Nada do que o personagem faz (certamente, há uma boa correspondência ao Mandela real) é espontâneo ou egoísta - tudo serve a um propósito maior.

O grande "projeto" de Mandela no filme - provavelmente, em meio a dezenas de outras grandes sacadas concomitantes - é arregimentar o capitão dos Springbocks para sua causa. Inspira o rapaz, bota responsabilidade sobre seus ombros fortes e insufla nele a ânsia de liderar e inspirar outras pessoas. O capitão, vivido com grande competência por Matt Damon (indicado ao Oscar de ator coadjuvante), se enche de motivação a partir do magnetismo pessoal do presidente e, aos poucos, vai transformando o bando de brutamontes (talvez ingenuamente) racistas em pessoas tolerantes e integradoras.

Um ano separa a sacada de Mandela da Copa do Mundo de rugby, que seria sediada na própria África do Sul. Ao saber, por um assessor, que a final da Copa seria assistida na TV por mais de 1 bilhão de pessoas, Mandela tem uma visão e se põe a tocar o projeto de transformar o medíocre time nacional em um futuro campeão. Isso dá trabalho, muito trabalho, mas mais difícil é fazer a enorme e paupérrima massa de negros adotar o esporte e sua seleção - um exercício de perdão, de inclusão, de unificação. Trabalho para um grande líder.


Veja o trailer de Invictus!

O clímax do filme, claro, vem na final da Copa do Mundo, jogo a que os Springbocks se qualificam após uma campanha irretocável e suada. Os oponentes são os All-Blacks - a seleção da Nova Zelândia, um ícone do esporte mundial, o equivalente ao que é a seleção brasileira no mundo do futebol -, uma máquina de furar muralhas de marmanjos e de botar a bola oval no chão adversário. A câmera de Eastwood faz um trabalho fantástico, no nível do que Oliver Stone fez com o futebol americano em Um Domingo Qualquer - e muito melhor do que tudo que já foi feito com o nosso futebol. Os jogos são vistos de dentro, acompanhamos cada músculo se retesando, cada arranhão acontecendo, cada ombrada explode no nosso peito. Que Avatar, que nada: isso é que é ação.

De resto, fica a forte impressão que causa a direção calma, equilibrada, elegante de Clint Eastwood. Fica a qualidade que ele arranca de todo o seu elenco. A música delicada que recheia os silêncios de um roteiro competente e de fluência contínua. Uma aula de como se faz um filme convencional, mas que, nas mãos de alguém genial, resulta sempre em algo único.

E fica a inspiração, pois bons filmes esportivos - Carruagens de Fogo, Um Homem Fora de Série, Um Domingo Qualquer, Lendas da Vida... - são sempre inspiradores. Esse é o golpe final de Eastwood, pois seu filme procura justamente o que inspira as pessoas. Nelson Mandela, durante os muitos anos em que ficou preso, buscou inspiração na poesia Invictus, do poeta inglês William Ernest Henley ("sou dono e senhor do meu destino / sou comandante da minha alma"); sua trajetória inspirou o capitão dos Springbocks; e estes, misturando suas velhas cores a um novo hino, acabaram inspirando um país a começar a vencer - sabemos que o processo será lento e dolorido - seus tabus e seus ressentimentos.

A nossa crença na capacidade humana de se reinventar se renova pelas mãos octagenárias de Clint. Mãos que já mataram índios e caubóis, que já deram cabo de delinquentes de toda espécie, mas que foram se amaciando com os anos e que, hoje, só moldam singelas obras-de-arte.

P.S.: pra quem já viu o filme, vale dar uma olhada nas imagens reais da final da Copa do Mundo de rugby de 1995. Demais!


(Como era possível viver antes do You Tube?)

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Crítica: "Amor Sem Escalas" de Jason Reitman

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 - 11 Comentários

Algumas obras são grandiosas, inovadoras, fazem barulho e empurram o cinema pra frente. O Mágico de Oz, E o Vento Levou, Star Wars, Titanic e o recente Avatar são exemplos claros. São filmes que entram para a história e que arrebatam pela novidade. Não é por acaso que eles aparecem nas listas de maiores bilheterias de todos os tempos.

Mas há outro tipo de filme bem menor, mais convencional, apoiado acima de tudo em um bom roteiro, cuja maior preocupação técnica é mater a câmera próxima, íntima dos personagens. São filmes que não querem mudar o curso da história, nem ficar na história - querem apenas dissecar seus personagens e contar suas histórias.

Alguns desses filmes - poucos, na verdade - conseguem retratar melhor do que ninguém o espírito de uma época: tensões sociais, desdobramentos causados por um contexto maior na vida privada, relacionamentos... diga se há maior exemplo do que era o final da década de 60 do que A Primeira Noite de um Homem. Ou se há algo que retrate melhor o yuppismo da década de 80 do que Uma Secretária de Futuro. Ou se alguém conseguiu escancarar com igual sucesso a fragilidade dos relacionamentos adultos numa época em que naõ bastam instituições como casamento do que Closer - Perto Demais, de 2004.

Os três filmes acima citados são cria, veja só, de um único diretor, o genial Mike Nichols, um cara especialista em retratar o que há de mais relevante no seu tempo. Ele pode não ser o "rei do mundo" nem fazer discursos de agradecimento na língua dos Na'Vi, mas imagino que ele não tenha inveja do James Cameron. Ele opera em outra frequência, joga em outra liga.

O mesmo pode ser dito de Cameron Crowe, diretor de Vida de Solteiro, obra-prima da solteirice engajada dos anos 90 na Seattle sob o contexto do grunge, de Jerry Maguire e de Quase Famosos. Um diretor que valoriza seus diálogos, que cria personagens marcantes e que ajuda o espectador mais sensível a se entender melhor.

Robert Altman (Short Cuts), Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse), Robert Redford (Gente como a Gente) e Fraçois Truffaut (Beijos Roubados) são outros representantes ilustres dessa estirpe de cineastas.

O mais novo integrante do clube é Jason Reitman, diretor de 32 anos com apenas três filmes lançados. Sua estreia, Obrigado Por Fumar, botou ponto final na era do politicamente correto, mostrando que imbecilidade não tem partido. No segundo filme, Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro, mostrou a adolescência sob ótica nova, distante dos rebeldes sem causa dos anos 50, dos sonhadores de 68, da turma "popular x excluídos" da high school dos anos 80. Uma adolescência enfadada, consciente da sua imaturidade, um tanto cínica (característica até então exclusiva dos adultos). Com seu terceiro filme, Amor Sem Escalas, Reitman atinge um novo grau de representatividade.

Amor Sem Escalas é muito mais do que o filme sobre a crise econômica nos EUA, como se fala por aí. É um filme que usa o contexto da crise para falar sobre a auto-suficiência das pessoas numa era em que nada lhes falta: smart-phones, salas VIP, malas com rodinhas, festas em qualquer lugar. Acesso irrestrito ao mundo, é só chegar e aproveitar, esta é a promessa dos nossos tempos. Nada pode nos segurar: há termos como "sabático" que nos ajudam a justificar um ano de vadiagem nas praias da Austrália; há carreiras que devem progredir, dando pretexto para adiar a formação de uma família (casamento ou filhos ou cachorro ou empregada)...
























George Clooney é um herói desta era: vive de avião em avião, conta com - literalmente - milhões de milhas acumuladas, participa de todos os programas de milhagem existentes e desfila pelos EUA com muito charme, ternos de caimento perfeito, malas irretocáveis - e nenhuma raiz. Perdeu contato com suas irmãs, não tem nenhum relacionamento fixo e tem como endereço um porcaria de apartamento vazio e triste.

O peso dessa opção de vida vai caindo aos poucos - à proporção inversa da maneira que ele, como palestrante motivacional, propõe à sua audiência que imagine o alívio que seria remover das costas o peso de mulher, filhos, prestações da casa própria, carro e tudo mais. E duas mulheres fazem a ficha cair: primeiro, a novata caxias (Anna Kendrick, de Juno) que entra na empresa e propõe uma mexida radical no modus operandi do cara: ao invés de viagens pelos EUA para demitir pessoas às pencas (é aí que está o contexto da crise), os cortes poderiam ser promovidos pela Internet. Confronto e aproximação se seguirão, abrindo a guarda de Clooney. Então entra a segunda mulher (Vera Farmiga, de Os Infiltrados), outro tubarão corporativo que se define como uma versão de Clooney portadora de vagina. Por trás do descompromisso e das agendas atribuladas, um laço vai se formando, e mudanças acontecerão. (Acontecerão?)

Entre as várias cenas geniais do filme, a melhor é uma conversa entre os três personagens principais, a novata de um lado, Clooney e sua fuck buddy do outro. Um choque de gerações explícito como há muito, muito tempo não se vê no cinema (pensei novamente em Mike Nichols e A Primeira Noite de um Homem).

Há um parentensco claro entre Amor Sem Escalas e outro filme sobre o vazio da existência moderna em um mundo de viagens, hotéis e tecnologia que disfarçam muito mal a solidão: Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, filme que revelou Scarlett Johansson. Bill Murray, o ator decadente daquele filme, poderia se sentar e conversar longamente com o George Clooney do filme de Reitman. O único problema é que a Scarlett Johansson largaria o velho comediante na hora.

Brincadeiras à parte, a verdade é que Amor Sem Escalas é um filme raro, capaz de dizer tudo e mais um pouco sobre nós - não sobre o que somos ou de onde viemos (discutir a natureza humana de maneira atemporal é coisa para Woody Allen, Stanley Kubrick e Clint Eastwood), mas sobre aquilo em que estamos nos tornando. Ser o termômetro de seu tempo é o talento de Jason Reitman, e ele tem aproveitado bem o dom, em uma carreira até aqui irrepreensível e cada vez mais promissora.


Veja o trailer de Amor Sem Escalas!

Não que ele vá sair carregado de Oscars do Kodak Theater no próximo dia 07 de março; mas pelo menos receberá uma meia dúzia de indicações, e isso será o suficiente para dar uma alavancada na audiência - e para transformá-lo no pequeno filme de estimação dos não deslumbrados com novas tecnologias.

BLOGIE, se tivesse direito a voto em alguma premiação, daria a Amor Sem Escalas a sua preferência.

P.S.: aliás, que tradução bizarra. O título original, Up in the Air, é muito feliz ao classificar a vida do personagem de Clooney como algo "em suspenso", etérea, sem base sólida. Caso parecido com o primo Encontros e Desencontros, nome preguiçoso que deram para Lost in Translation, "perdido na tradução", um filme sobre tudo aquilo que não é falado, que está entalado, uma angústia à qual não se dá vazão. Pelo menos, estão bem acompanhados.

P.S. 2: OK, talvez eu ficasse em dúvida entre Amor Sem Escalas e a obra-prima de Quentin Tarantino, o inacreditável Bastardos Inglórios... são filmes bem diferentes, mas ambos levam nota 10.

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O novo Woody Allen vem aí...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010 - 4 Comentários

... Com o habitual atraso, mas vem.

O filme traz Larry David, criador das séries Seinfeld e Segura a Onda (nesta, também é o protagonista), e também a bela atriz Evan Rachel Wood. Em Nova Iorque, para dar um tempo na fase europeia de Allen.

Este é o cartaz do filme, para os cinemas brasileiros (sempre me divirto em ver o esforço da distribuidora em tentar vender os filmes do Woody Allen como algo mais popular do que realmente é... Em Match Point, por exemplo, optaram por simplesmente omitir o nome do diretor, servidos que estavam com uma imagem gigante e sexy da Scarlett Johansson; em Vicky Cristina Barcelona, o time estava reforçado com Penélope Cruz, então os problemas foram menores - deu até pra citar o baixinho... Já neste Tudo Pode Dar Certo, com um protagonista careca e de cabelos brancos, a dificuldade aumentou, então botaram "depois de Vicky Cristina Barcelona" - só faltou colocar, em letras maiores do que as do próprio filme, "aquele filme com a Scarlett Johansson e a Penélope Cruz!").

























A estreia, no entanto, é só em março, fellows. Sorry.

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Estreia: "Avatar", de James Cameron

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 - 6 Comentários

O grande evento cinematográfico do ano já foi eleito: trata-se de Avatar, o novo filme de James Cameron (sua última empreitada foi Titanic, há doze anos!). O filme, que estreia nesta sexta-feira, está sendo lançado com enorme alvoroço e amparado por uma campanha gigantesca, que inclui jogos de realidade aumentada, lançamento de celulares equipados com conteúdo exclusivo do filme e bonequinhos do Mc Lanche Feliz.

Tanto barulho se justifica: Cameron, megalomaníaco assumido e incorrigível, já foi de Alien a Exterminador do Futuro a O Segredo do Abismo a Titanic, aumentado o orçamento dos seus filmes de 100 em 100 milhões de dólares... e conseguindo sucesso em todos. Em Titanic, tornou-se oficialmente "rei do mundo" e passou a investir em seu novo brinquedinho: uma saga inteiramente filmada em 3D, com atores reais sobrepostos por imagens digitais (aquela tecnologia conhecida como "realidade digital"). O projeto se chama Avatar, e seu longo período de gestação passou pelo desenvolvimento de novas câmeras, novos monitores, novas técnicas de animação... enfim, lembra aquele papo do George Lucas quando do lançamento de Star Wars - Episódio I - "só agora há a tecnologia necessária para a realização de algo deste porte" -, só que agora é sério.



















James Cameron volta a atacar - agora com artilharia pesada.

Tive a oportunidade de assistir a Avatar em uma das duas cópias para I-Max no Brasil: tela gigante, 3D envolvente, som de show de heavy metal. E posso atestar que, de fato, o filme tem potencial de se tornar um grande marco na história da evolução do cinema - da mesma maneira que O Cantor de Jazz causou furor nos anos 20 por inaugurar a era do cinema falado, ou que O Mágico de Oz encantou no final da década de 30, ao imprimir cores ao filme, Avatar sinaliza o caminho que o cinema do futuro vai percorrer, enterrando a "velha" tecnologia do filme "chapado", tão facilmente reproduzida nas salas de TV da classe média.

No entanto, devo ponderar que, assim como O Cantor de Jazz - e ao contrário de O Mágico de Oz -, os méritos de Avatar param por aí. Não se trata de um filme que vá além dos méritos técnicos. Em diversos momentos, fica claro que seu realizador está mais preocupado em tirar vantagem das possibilidades do 3D do que em tocar a história pra frente. É um tanto incômodo, passando uma impressão daqueles filminhos promocionais que passam nas TVs de última geração expostas nas Fast Shops da vida. 

O roteiro do filme é uma cópia não muito inspirada de O Retorno de Jedi - um jovem soldado mais curioso do que inteligente é o "escolhido" pela misteriosa força da natureza que rege um mundo exótico, habitado por criaturas perigosas e esquisitas; ele se envolve com a turma do bem e com a turma do mal, opta pelo lado do bem e, com a ajuda das criaturas da floresta, acabará evitando que o exército do mal cause um enorme estrago no mundinho em questão. Desculpem por resumir a coisa dessa maneira, mas não é nada que não se perceba logo nos primeiros dez minutos de filme.

As pequenas diferenças: o jovem soldado, Jake Sully, é paraplégico. Por uma coincidência - seu irmão gêmeo, morto há pouco tempo, era um cientista renomado, e o fato de terem DNAs idênticos o habilita a ser escalado para a missão do irmão -, vai parar no planeta Pandora, um ambiente pra lá de inóspito, dada suas condições não adequadas para a respiração de humanos e sua fauna um tanto dada à violência.

O projeto do qual Jake fará parte é muito louco: ele se deita em uma câmara parecida com aquelas de bronzeamento artificial, e seu ser é totalmente transferido para o corpo gestado em laboratório de um "avatar" de aparência compatível com os nativos Na'vi - uns caras azuis de três metros de altura, com rabo e nariz achatado de boxeador. A aparência dos Na'vi motivou os mais maldosos a compararem Avatar com "a reunião de família do Jar Jar Binks", do já citado Episódio 1 da série Star Wars.
















Não compare os Na'vi com Jar Jar Binks, que eles ficam bravos.

As motivações do protagonista - entender a "Força", lutar pelo bem de um povo mais fraco, amar sua nativa azul - são um tanto previsíveis. Os episódios que ele vive não são mais inusitados. E assim, com poucas surpresas - e com a tradicional mão pesada de Cameron nos diálogos -, seguindo o esquema convencional de aventura das matinês do George Lucas, Avatar avança suas mais de duas horas de duração e chega ao final.


Veja o trailer de Avatar!

Cabe aqui uma observação sobre meu estado físico ao longo da sessão: um enjoo, daqueles que se sentem em barcos balançando no mar, bateu forte no meio do filme e tive que passar alguns minutos sem os óculos gigantes, respirando fundo e de olhos fechados. Essa sensação, após mitigada, deixou como herança uma dor de cabeça que ainda lateja na cabeça deste blogueiro. Posto que não se trata de falta de hábito na sala de cinema (só faltava essa), divido a culpa entre James Cameron, com seu competente 3D, e a sala I-Max, com seu gigantismo sufocante. Depois de uma hora enfiado nos desfiladeiros de Pandora, ou pulando de árvore em árvore, parecia que era eu quem tinha sido transferido para o enorme corpo azul do avatar de Jake Sully. Acho que James Cameron ficaria feliz com essa observação.

Mas eu, cá no meu canto, já recomposto por dois Neosaldinas e um Dramin, respiro aliviado e aguardo ansioso pelo próximo filme "convencional", quem sabe o novo Woody Allen.

Resumo da ópera: Avatar é um evento incontornável, é a História acontecendo na nossa cara. Deve ser visto, deve ser admirado, renderá uma baita grana para seu criador talentoso e excêntrico, ganhará até uns Oscars nas categorias técnicas. Mas dificilmente será seu filme preferido.

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Estreia: "Aconteceu em Woodstock", de Ang Lee

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009 - 2 Comentários

Dica rápida para a sexta-feira: a estreia da semana é Aconteceu em Woodstock, de Ang Lee. O cara já dirigiu Brokeback Mountain e Desejo e Perigo, e não para de fazer coisas diferentes.

Desta vez, resolveu mostrar a história real - e surreal - dos jovens que "organizaram", há 40 anos, o festival mais famoso de todos os tempos: Woodstock.

Veja o trailer:



O elenco é ótimo e traz sacadas como a escolha de Demetri Martin (um premiado comediante stand-up nova-iorquino, estreante na tela grande) como o protagonista. Martin demonstra carisma suficiente para segurar o filme, com um personagem que tem seu grande dilema: sair ou não sair do armário.
















Assumir ou não assumir?, eis a grande dúvida de um dos viabilizadores de Woodstock.


De quebra, para garantir a juventude necessária ao projeto, Ang Lee escala Emile Hirsch e Paul Dano, dupla de brothers nerds da comédia adolescente Show de Vizinha, e Eugene Levy, a esta altura uma lenda para a geração que adolesceu nos anos 90, graças ao seu eterno papel de pai do Jim, de American Pie.

Mas a grande sacada de Ang Lee é ter entendido que Woodstock, o festival, foi feito não por Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Who e Creedence, mas pelos mais de 300 mil jovens gente-fina (também chamados, à época, de hippies, vagabundos, mendigos, drogados...) que tomaram a fazenda literalmente de assalto, entrando sem pagar, tirando a roupa, copulando livremente, rolando na lama e pouco se importando com a falta de condições básicas para a sobrevivência (saneamento, comida, água).

Por isso mesmo, Aconteceu em Woodstock não mostra um só segundo dos shows que se tornaram lendários do festival (para isso,  nada superará o documentário Woodstock - 3 Dias de Paz, Amor e Música, já devidamente comentado por aqui), mas mostra tudo o que antecedeu o evento e tudo que aconteceu em volta dos shows.

Há vários outros aspectos que merecem ser discutidos - por exemplo, a suposta "pureza" de propósitos do festival em oposição à real atuação de homens de negócios por trás de tudo; ou ainda a atuação soberba do personagem principal como intermediador entre a moçada hippie e os habitantes conservadores da cidadezinha. Vou tentar aprofundar em outro post.

Por ora, vamos ao cinema!

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Estreias no cinema: de Paulo Miklos a Penélope Cruz

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009 - 4 Comentários

Enfim, uma sexta-feira com algumas estreias interessantes.

De um lado, temos É Proibido Fumar, filme da sempre interessante diretora Anna Muylaert, que tem especial habilidade em retratar a classe média descendo a ladeira do poder aquisitivo rumo à pobreza (Durval Discos é o melhor exemplo). Aqui, ela mostra Glória Pires como a professora de violão às voltas com aluguel, nada pra fazer, TV e cigarros. E Paulo Miklos, o novo vizinho com quem ela acabará engatando um relacionamento. Veja o trailer e decida se a coisa é pra você:



Já na linha "cinemão", daqueles de lavar a alma, cheio de cores e mulheres bonitas, Pedro Almodóvar nunca nos deixa na mão e entrega Abraços Partidos, com Penélope Cruz linda como nunca e brilhando como sempre. A recepção foi fraca por parte da crítica, mas os filmes do espanhol são sempre melhores do que todo o resto que ocupa as salas vizinhas.

























Meus comentários, publico no início da semana que vem. Mas o amigo do BLOGIE não precisa de dica de crítico pra saber que tem que ver o novo Almodóvar... façamos o seguinte: veja o filme no final de semana, e conversamos sobre ele na segunda-feira.

Bom fim-de-semana a todos!

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Estreia: "500 Dias com Ela"

sexta-feira, 6 de novembro de 2009 - 6 Comentários

Já falei tanto sobre a expectativa da estreia de 500 Dias com Ela, que é até bobagem falar mais.

De qualquer forma, pra quem não sabe do que se trata: 500 Dias com Ela é uma comédia romântica com ar de cinema independente e pop (Juno, Encontros e Desencontros, etc), que arrebatou o verão nos EUA. Fez de Zooey Deschanel a estrela do momento (ver post desta semana) e revelou Joseph Gordon-Levitt, até então um ator secundário, aqui se mostrando um cara versátil, talentoso e carismático.

O filme foge do esquema comum das comédias românticas "de mulherzinha". O foco é no homem, ele está perdidamente apaixonado por Summer (Zooey), uma mulher que o faz de gato e sapato - e que deixa isso claro logo na saída. Quer dizer, bem diferente do que vemos no cinema e bem mais próximo do que realmente acontece na vida.



No recheio, muitas cenas sensacionais (Gordon-Levitt cantando Here Comes Your Man, dos Pixies, no karaoke), alguns diálogos antológicos ("meu gato foi batizado em homenagem ao Springsteen...") e um show de carisma de Zooey Deschanel, com olhos que, não importa a distância e a posição no enquadramento, são sempre o centro das atenções. Trata-se de um filme muito criativo, com recursos variados de fotografia, edição, animação, o diabo... sob esse aspecto, lembrou-me Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, do Woody Allen - e não consigo pensar num elogio melhor do que este.

Só um teaser para o leitor de BLOGIE: em determinada cena, o cara consegue finalmente levar Summer pra cama. Este é ele deixando o apartamento na manhã seguinte:



O som é soul-pop descartável dos anos 80, da dupla Hall & Oates. A cena que antecede (a da transa) cita A Primeira Noite de um Homem (referência recorrente no filme) e Beijos Roubados. De resto, é música pop de primeira qualidade, referências à mitologia do cinema e do rock... tudo de primeira.

Boa ida ao cinema!

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Crítica: "O Desinformante!", de Steven Soderbergh

segunda-feira, 19 de outubro de 2009 - 2 Comentários

Steven Soderbergh é um desses caras que apresentam um primeiro filme muito promissor e que, na sequência da carreira, são sempre tratados como "autor", mesmo que seus filmes não tragam nada de autoral ou interessante.

De fato, ele teve um começo de carreira bem interessante com Sexo, Mentiras e Video-Tape, e causou grande impacto em 2000, ao enfiar dois filmes na lista dos principais indicados ao Oscar (Erin Brokovitch e Traffic). Mas a partir daí sua carreira ficou oscilando entre competentes e carismáticos filmes-pipoca (Onze Homens e um Segredo) e bombas pretensiosas que ele pensa vender como "pequenos filmes independentes" (Full Frontal, Confissões de uma Garota de Programa). É no primeiro banquinho dessa gangorra que se senta seu mais novo filme, O Desinformante!, que estreou nos cinemas na última sexta-feira.

















Matt Damon dá tilt no detector de mentiras...

A história, baseada em fatos reais, trata de Mark Whitacre, vice-presidente de uma grande empresa agrícola que mentiu. Mentiu uma vez, para seus patrões, e a mentira foi crescendo, a ponto de ele ter que inventar outra mentira para encobrir a primeira. E depois outra. E depois mais outra. Daqui a pouco, o executivo será um informante do FBI infiltrado dentro da tal empresa, prestando valiosas informações sobre a formação de cartel na qual ele teria se envolvido a mando dos chefes.

Matt Damon engordou bastante e ostentou um bigode horrível para encarar o papel, e o defendeu de uma maneira um tanto confusa, que até agora não entendi se é habilidade do ator e parte do personagem, ou se é apenas uma atuação limitada. De qualquer modo, o jeito esquisito de Damon e sua fala mansa acabam confundindo o espectador. Há quem goste disso, e há quem se irrite. O crítico Inácio Araújo, da Folha de São Paulo, considera uma trapaça a maneira como Soderbergh nos enrola, deixando uma sensação de que assim não dá pra jogar...

Já eu gostei; acho que iludir o público através de uma falsa trama é um artifício lícito nas mãos de cineastas espertos. Hitchcock tinha até nome pra isso: MacGuffin. Mas Hitchcock usava MacGuffins com parcimônia, enquanto Soderbergh se lambuza nas mentiras do executivo - e esconde demais a "verdade", ao não dar nenhum indício desse tipo de motivador no mitômano Whitacre.


Veja o trailer de O Desinformante!

De qualquer modo, vale dizer que O Desinformante! é um filme inteligente, com boa trama, integralmente conduzido por diálogos e classudo. Desde seus créditos iniciais, vemos que se trata de um filme que remete às décadas de 50 e 60, época em que Hitchcock e seus thrillers assombravam as sessões de cinema. É um filme que proporciona duas horas bem agradáveis e que adiciona mais um tijolinho na obra que, aos trancos e barrancos, Soderbergh vai construindo. Tramas emboladas, mentiras e conspirações corporativas são seus temas preferidos.

Quando isso é colocado a serviço da diversão, todos saem ganhando. Boa sessão!

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5 Motivos para ver "Bastardos Inglórios"

sexta-feira, 9 de outubro de 2009 - 3 Comentários

Estreia hoje, repleto de expectativas, o sétimo filme de Quentin Tarantino: Bastardos Inglórios. O filme fez enorme sucesso nos EUA, já se pagou (feito merecedor de destaque hoje em dia) e vai levar bastante gente aos cinemas brasileiros.

Se você é daqueles que, como este blogueiro, aguardou por esta data como se espera por uma final de Copa do Mundo, não é necessário dizer mais nada.


















Tarantino e elenco: eles matam nazistas no cinema. Uma tradição americana.

Mas se você é da turma que ainda está à procura de boas razões para escolher este filme entre os outros doze do multiplex mais próximo, este post foi feito pra você. Aqui estão as 5 principais razões para ver Bastardos Inglórios:


1- Cães de Aluguel, Pulp Fiction, Jackie Brown, Kill Bill, Kill Bill Vol. 2

A obra de Tarantino vai se construindo com calma (ele não é dos diretores mais profícuos), muitas idiossincrasias e nenhuma acomodação. Cada filme do homem é recheado com suas manias, ideias malucas e diálogos de efeito. Na série Kill Bill, ele mostrou grande evolução nos aspectos artísticos - fotografia, direção de arte, etc. Ele ainda não chegou no auge, e Bastardos está dando mais um passo nessa direção.

2- Prova de Morte

O último filme de Tarantino nem chegou a ser lançado no Brasil! Também pudera: o diretor chutou o balde ao fazer esse "meio-filme" para ser lançado em conjunto com o Planeta Terror de Robert Rodriguez. Cortes que emulam um filme mal montado, sujeira proposital e uma história bizarra... Prova de Morte, mesmo com seu caráter de brincadeira, deixou um cheiro de derrapada no currículo de Tarantino, e ele quis limpar a barra em grande estilo com Bastardos.

3- Os Bastardos

















Brad Pitt ensina a grande arte de escalpelar nazistas...

Quantos filmes de Segunda Grande Guerra ainda merecem ser feitos? Tarantino responde: o dele, pois ele faz diferente de tudo que veio antes. Em seu novo filme, ele inverte a História e dá vida aos Bastardos, uma milícia de judeus americanos que mata nazistas com requintes de crueldade (escalpo é a marca registrada). A trama se passa na França ocupada pelos alemães, e Brad Pitt lidera a trupe, com um plano ambicioso de virar a guerra na marra.

No mais, como todo Tarantino, toneladas de citações pop: música de primeira, apropriação de códigos do western, dos filmes de guerra e de diretores clássicos, brincadeiras com a mitologia americana...

4- Mélanie Laurent e Diane Kruger












Enfeitam a milícia dos Bastardos duas moças inacreditavelmente bonitas: a alemã Diane Kruger - que já foi a Helena de Troia e que estava à procura de uma chance para virar atriz de verdade - e a francesa Mélanie Laurent - que pôde ser vista recentemente em Paris, no qual atormenta um professor universitário de meia-idade. Mélanie, que é a verdadeira protagonista do longa, é uma atriz de recursos mais vistosos e de beleza menos convencional - e mais marcante.

5. O Trailer:




Dizer mais o quê? Escolha uma sala com tela bem grande e som ensurdecedor e boa sessão!

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Estreia: "Terror na Antártida" (ou Só Kate Beckinsale Salva)

sexta-feira, 2 de outubro de 2009 - 2 Comentários

Entre as estrieas dessa sexta-feira, temos o brasileiro Salve Geral (que faz aquela embolada sócio-ideológica pró-ladrão em cima do dia em que o PCC parou São Paulo) e mais umas coisinhas... e tem Terror na Antártida, filme de suspense policial que só tem levado pau da crítica, e que não deve arrebatar lá muito público.

Sinceramente, não sei muito sobre o filme, mas garanto que vou assisti-lo. A razão é uma só, e suficiente: Kate Beckinsale.

























Kate Beckinsale, uma inglesinha linda, já fez a esposinha pra lá de interessante de Adam Sandler na comédia familiar Click. Já foi a enfermeira sexy que causou briga entre os amigos Josh Hartnet e Ben Afleck na bomba Pearl Harbor. Já foi heroína de filme de ação. E já fez o papel de Ava Gardner, a mulher que Billy Wilder definiu como "o animal mais belo que já existiu", em O Aviador, do Martin Scorsese.

Resumindo: é uma gata. E tem talento, pois enfeita qualquer tipo de filme.

Ela traz aquela qualidade que é sempre bem-vinda em atrizes tão privilegiadas pela natureza: não tem medo de tirar a roupa.

Diz que, logo na primeira cena de Terror na Antártida, a moça já aparece pelada. Bom, muito bom. Ela também tira a roupa em Laurel Canyon (2003) e em dois filmes inéditos ou "secretos" por aqui:  Uncovered e Haunted.



Mas o meu momento preferido de Kate Beckinsale é mais comportado: a comédia romântica Escrito nas Estrelas, em que ela faz par com John Cusack, é uma das coisas mais agradáveis de se assistir dos últimos anos.


















Eles se conhecem em Nova Iorque, em uma cena muito interessante. Eles patinam no Rockefeller Center, enquanto conversam rapidamente sobre preferências. O filme preferido dele: Rebeldia Indomável, com Paul Newman. Palavra preferida dela: "serendipity" (que é o nome original do filme). E por aí vai. Daí entra num lance de ela fugir do cara, acreditando que o destino vai fazer seu trabalho, enquanto ele corre contra o relógio (tem casamento marcado com uma zinha sem graça) para reencontrar Kate.

Enfim, aquele filme de mulherzinha regular. Mas, juro, não faz mal nenhum passar duas horas assistindo Kate Beckinsale sorrindo, falando, chorando, se atrapalhando. É até reconfortante.

Veja se estou mentindo:


Algumas cenas de Escrito nas Estrelas, com Kate Beckinsale e John Cusack.

Agradável, não?

Por essas e outras, lá vamos nós encarar mais uma estreia no cinema.

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Crítica: "Up! - Altas Aventuras"

terça-feira, 15 de setembro de 2009 - 14 Comentários

A temporada de filmes "sérios" de Hollywood está só começando (é depois do verão nos EUA que os postulantes ao Oscar programam os lançamentos), mas já dou por encerrada a briga pelo posto de filme do ano.

O filme do ano é uma animação: Up! - Altas Aventuras, da Pixar. Faz tempo que as animações vêm se mostrando tão boas quanto os melhores "filmes de verdade" - e, a despeito de terem como público a criançada, demonstram personagens mais desenvolvidos e mais sensibilidade que quase toda a produção americana. Depois da série Shrek, de Procurando Nemo, de Monstros S.A., de Os Incríveis, do ousado Wall-E, de tanta coisa, chegou a hora de dizer: um desenho animado é o melhor filme do ano.

Isso não acontece pelos seus óbvios méritos técnicos: pra falar a verdade, não ligo para a definição da imagem (que é ótima), para as cores (que são incríveis), para o realismo (que é desnecessário) ou para o 3-D (prefiro até 2D, pra não desviar atenção). Ligo mesmo para a história, para os personagens, para o cinema.
















E Up! começa com a melhor sequência de cinema dos últimos tempos: evocando outra época, através do cinejornal (da mesma maneira que começa Cidadão Kane), o filme mostra um menino no cinema, sonhando com as grandes aventuras de um explorador famoso. Depois ele brinca na rua e conhece uma menina doidinha, esperta e com o mesmo fascínio pelas aventuras do tal explorador. São só quatro minutos de filme.

E então, sem que uma palavra seja dita, um vídeo-clipe de cinco minutos conta a vida de Carl e Ellie, agora crescidos, que se casam, que trabalham no mesmo zoológico (ela, como zoóloga; ele, como vendedor de balões), que sempre adiam o grande plano - explorar um paraíso tropical na Venezuela - devido a gastos mais urgentes, que acumulam frustração sobre frustração... mas que se tornam um adorável casal de velhinhos, até que Ellie morre e Carl fica sozinho, na casa que construíram juntos, rodeado das lembranças da sua mulher esperta.

Repito: é a melhor sequência do cinema em muito tempo. Não importa se você é macho, muito macho, novo, velho, mulher, indeciso... você vai chorar.
















Apresentados os personagens, sabemos que Carl tem uma dívida com sua finada esposinha: concretizar sua GRANDE AVENTURA. As circunstâncias - a iminência da mudança para um asilo - o fazem bolar o plano. E aí entra a fantasia genial da Pixar: o vendedor de balões enche centenas de bexigas, ergue sua casa do chão e se põe a buscar o paraíso perdido da América do Sul.

Por acaso, um escoteiro gordinho - Russel -, que está focado em completar a tarefa de ajudar um velhinho, está na varanda no momento em que a casa alçava voo. Será ele o companheiro de Carl na sua aventura, e será ele o responsável por dar bons motivos para Carl continuar vivendo sua própria vida.


Veja o trailer de UP - Altas Aventuras!

Como em qualquer desenho animado, personagens secundários engraçados - bichos falantes, desengonçados e exóticos - vão popular a tela e dar aquele tom cômico. A criançada se amarra, mas todos vão rir. A sensibilidade com que hábitos de dia-a-dia são expostos - especialmente a relação entre homens e cães - é tocante. A sacada do cão falar com um dispositivo digital, que verbaliza o pensamento do bicho, é genial: por exemplo, após levar um esporro do velhinho e de dar uma sumida, o cachorro está na porta. O velhinho abre e fica supreso - e o cachorro explica, abanando o rabo: "é que eu te amo, então fiquei escondido embaixo do balcão da varanda..."

Ao longo do filme, Carl terá que lidar, entre outras coisas, com a limitação da sua "nave": os balões cheios de hélio não durarão muito, e é uma metáfora muito bonita a maneira como eles vão murchando e anunciando o tempo de vida que Carl vai perdendo na sua expiação da perda de Ellie. E é de dar um nó na garganta (de novo) a maneira como ele consegue buscar um gás novo para sua vida: tirando o peso de dentro da casa (o que significa se livrar da tralha que lhe traz tantas lembranças). Ele finalmente se desapega e pode abrir seu novo livro de aventuras.

Inspirador, sensível, observador, genial... e infantil. Lidemos com a verdade: ninguém neste século consegue fazer cinema com a qualidade da Pixar. Up! para o Oscar de melhor filme!

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Três estreias, dos normais ao bizarro absoluto

sexta-feira, 28 de agosto de 2009 - 6 Comentários

Entre as estreias do final-de-semana, nada de (500) Dias Com Ela ou Bastardos Inglórios, que bombam nos EUA e que só estrearão aqui em outubro. O que temos são exemplares da safra mais despretensiosa (e bem-vinda) do cinema brasileiro, ao lado de mostras do que há de pior e mais arrogante no cinema europeu. Na dúvida entre um e outro, sugiro ir no bom e velho filme americano médio, boy meets girl, de classe média, em Nova Iorque. Explico.

O filme brasileiro despretensioso é Os Normais 2 - A Noite Mais Maluca de Todas. A coisa é simples, você conhece: Rui e Vani eram noivos há seis anos quando a série começou. A série era ótima, fez muito sucesso, ficou anos e anos em cartaz e rendeu um filme. E agora outro. Passado tanto tempo, é estranho reconhecer no casal com idade um tanto avançada algum indício "normal" de que se trata de um jovem casal de classe média sem filhos. Fim de temporada de sucesso é assim mesmo: também era estranho reconhecer nos seis milionários quarentões de Friends algo que lembrasse amigos solteiros dividindo apês em NYC. E foi bizarro presenciar as pra lá de balzaquianas amigas da Carrie agindo feito menininhas atrás do príncipe encantado em Sex and the City - O Filme (que cuspiu na cara do espírito da série). Enfim, Os Normais teve seu tempo, e, se você já tiver visto tudo no cinema e não houver mais opção, OK, vale para uma noite de domingo.

















Rui e Vani abraçam a nova geração...

O filme europeu metido a besta é O Anticristo, do Lars Von Trier, o diretor dinamarquês petulante que faz filmes com o único propósito de chocar e desconcertar a audiência. Esse não me pega. Não estou nem aí para a polêmica em torno do filme, que, "pessoal", trata de um casal se reconstruindo após a perda de um filho. No caminho, a coisa se torna um filme de terror, com cenas de sexo explícito, muito sofrimento, mutilação genital (depois que descobri que rolava isso no filme, não consigo ler uma linha sobre ele sem pensar "mutilação genital", com cara de nojo)... pra piorar a atriz, Charlotte Gainsbourg, ganhou prêmio em Cannes pela exposição. Minha opinião: um pouco de desconforto vai bem, mas não precisamos fazer parte do mundo bizarro de Von Trier, acredite.















Charlotte, a mocinha ingênua que deposita sua carreira nas mãos de um diretor maluco, e Von Trier, o diretor maluco. Pelo menos eles se divertiram com O Anticristo...

Como opção entre o mais normal e o mais bizarro, vamos de coluna do meio: Amantes, de James Gray, traz Joaquin Phoenix se dividindo entre Gwynethe Paltrow e Vanessa Shaw, numa crônica elegante em Nova York. Apartamentos bacanas, questões filosóficas comezinhas (bem mais amenas do que as do chato Von Trier) tratadas como centrais na vida (como acontece nas melhores casas), invernão pesado lá fora e um homem parado na encruzilhada da vida... é pra isso que o cinema existe. Isso é o que interessa. Esta é minha dica para o final-de-semana. Veja o trailer:




O que me chama a atenção - além da beleza de Gwyneth - é o talento de Joaquin Phoenix. Ele é um dos grandes atores surgidos nos últimos vinte anos, tem um carisma do tipo Marlon Brando. É um perturbado, claro. Em Amantes, é a nossa chance de conhecer o último trabalho de Phoenix antes de ele ter pirado, anunciado que encerrou sua carreira e ter se tornado uma sósia zumbi do Jim Morrison barbudo e gordo antes da morte. É impressionante, o cara está mal. Ele foi promover o filme no David Letterman e deu nisso:

(Eu juro, você TEM que dar uma olhada nisso!)



Depois dessa performance - merecedora de Oscar, Palma de Ouro, Kikito e muito mais -, você não vai assistir a Amantes?

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