Crítica: "Ilha do Medo", de Martin Scorsese
segunda-feira, 22 de março de 2010 - 0 Comentários
Aos interessados em assistir a Ilha do Medo, em cartaz nos cinemas brasileiros, é importante contextualizar a coisa.
Mark Ruffalo e Leo DiCaprio se apresentam para desvendar o mistério. BLOGIE simplifica as coisas.
Martin Scorsese é gênio. Ao lado de outros colegas barbudos e desleixados (Coppola, Spielberg, DePalma, George Lucas, Altman), mudou a cara do cinema americano durante a década de 70. Dirigiu Taxi Driver, Touro Indomável, O Rei da Comédia, A Cor do Dinheiro, A Última Tentação de Cristo, Os Bons Companheiros, Cabo do Medo, A Época da Inocência, Cassino. Conhecedor e amante do bom rock'n'roll, deu ao mundo Bob Dylan: No Direction Home e o genial documentário The Last Waltz , com a despedida da fiel escudeira de Dylan, The Band. Produziu uma série sobre blues sensacional. Dirigiu o video-clipe de Bad, do Michael Jackson. Enfim, sempre foi muito mais do que o "diretor por excelência de filmes de mafiosos", como é geralmente reduzido (ainda que em tom elogioso).
Embora a violência seja um de seus grandes temas, o outro - indissociável - é a sensação de isolamento, de abandono, de falta de conexão com o mundo. Todos os filmes citados acima - incluindo os inúmeros DeNiros, o Jesus Cristo fictício de William Dafoe e mesmo o Bob Dylan real em documentário - têm seus protagonistas enfrentando a falta de conexão com o mundo ou sofrendo o abandono de sua comunidade. A violência é mera conseqüência. Mesmo as últimas obras de Scorsese, como Gangues de Nova Iorque, O Aviador e especialmente Os Infiltrados, tratam da relação entre essas duas questões.
Por tudo isso, este blogueiro vê com muito mais naturalidade o encaixe do novo Ilha do Medo na filmografia de Scorsese. Muitos críticos têm tratado o filme como uma espécie de exercício vazio de estilo do diretor, mas a verdade é que este thriller meio noir, meio terror, meio alucinações à David Lynch, apesar de todo o arsenal de referências cinematográficas, é um exemplar muito coerente na sua obra.
Anos 50. Leonardo DiCaprio (ótimo, um cara que merece seu lugar junto a DeNiro, Joe Pesci e Harvey Keitel na turma de atores-fetiche de Scorsese) é um detetive do FBI enviado para uma ilha que abriga um manicômio/hospital para sociopatas. Ele e seu novo parceiro, vivido pelo sempre competente Mark Ruffalo, têm a missão de desvendar a fuga de uma das pacientes/detentas.
Primeiro truque: a pinta de filme noir é atropelada por Scorsese, cujo roteiro trata de, logo na chegada à ilha, tomar das mãos dos detetives suas armas e distintivos. Agora, estamos no terreno do terror psicológico.
Dentro da ilha, o que se verá é um clima pra lá de sinistro, acontecimentos cada vez mais estranhos e uma turminha suspeita, começando pelos psiquiatras titulares do lugar, vividos sem nenhuma vontade de agradar por Ben Kingsley e Max Von Sidow. Da metade para a frente - segundo truque de roteiro -, as coisas estranhas vão tomando forma de alucinação e, pouco antes do final, o espectador já terá entendido que não pode acreditar em NADA do que aparece na tela. Duas horas e meia de uma angústia crescente que só terá fim com os créditos.
Uma breve olhada no trailer é suficiente para entender que Scorsese é mesmo um monstro.
Tanta tortura se paga pela construção do personagem de DiCaprio - aliás, a rigor, o detetive vivido por ele é o único personagem construído ao longo do filme. Todos os outros - os "pacientes", os psiquiatras, os guardas, seu parceiro - são meros observadores do desenvolvimento desse personagem. E esse personagem, mais do que qualquer outro da filmografia de Scorsese (talvez só lhe faça frente Travis Bickle, de Taxi Driver), sofre com o isolamento. Está absolutamente sozinho em sua jornada, lamentando reiteradamente a perda da esposa. É assombrado pela perda de humanidade que sofrera ao ter participado da 2a. Grande Guerra. Não se sente devidamente acompanhado pelo seu novo parceiro. Que ligações todas essas coisas podem ter, um David Lynch teria prazer em embaralhá-las para nós, mas Martin Scorsese o faz com maior classe - e tem a decência de colocar as coisas em ordem (na ordem possível, que fique claro - não há espaço para acomodação) no final.
Mais, é impossível falar. O fato é que Ilha do Medo é um cinzento, frio, solitário retrato do isolamento humano. Um homem abandonado em sua própria existência só terá os remorsos a se multiplicarem na cabeça, e seus próprios julgamentos serão mais impiedosos do que os tratamentos receitados pelos psiquiatras malucos de uma ilha que se propõe a dar fim aos conflitos de cada um.
Marcadores: cinema, estreias, Ilha do Medo, Leonardo DiCaprio, Scorsese
Assinar
Postagens [Atom]
