Blogie - Cinema na VIP

Filme VIP da semana: "Jerry Maguire", de Cameron Crowe

quinta-feira, 22 de abril de 2010 - 2 Comentários

Antes que o leitor calcule ter caído no lugar errado, esclareço: não, aqui não é o site da Claudia ou da Nova. Aqui é o espaço de cinema no site da VIP, mesmo.

Esclarecimento feito, peço ao leitor que baixe a guarda e reconheça: Jerry Maguire, aquele filme que sua namorada/esposa adora, é um baita filme de macho, e todo homem tem muito a aprender com ele.

A aura de "filme de mulherzinha" (chick flick, nos EUA) foi conferida pela presença de Tom Cruise, entre mil sorrisos e aquelas falas que foram incorporadas no imaginário feminino ("você me completa", "você me ganhou no 'oi'', "isso não é um vestido; é um filme da Audrey Hepburn!"...). Mas isso é só a superfície.














Tom Cruise vai suar a camisa pra mostrar a grana pra você.


 Era só uma declaração de intenções!


Jerry Maguire é um agente esportivo - aquele cara que, no Brasil dos boleiros paupérrimos e recrutados nas peneiras mais toscas da vida, é um malandro barrigudo e aproveitador chamado toscamente de "empresário". Na versão americana, o agente esportivo é um cara altamente profissionalizado, de fino trato, de habilidade verbal imbatível e aparência irretocável. Defende jogadores milionários e inteligentes, gerenciando suas carreiras, entre renovações de contratos, aparições em campanhas publicitárias e, eventualmente, enfrentamento de crises. E o rei dos agentes esportivos é Jerry Maguire, o auto-intitulado "rei da sala de estar".


Acontece que a ficha de Maguire caiu. E bateu pesado. Sua vida de voos em classe executiva, quartos de hotel, coletivas de imprensa e mulheres maravilhosas finalmente lhe pareceu vazia. Profissionalmente, sumiu a graça em arrancar até a última gota de suor dos seus clientes - gladiadores modernos que literalmente se matam para ganhar cada bônus, para aproveitar cada momento e garantir o pé de meia. Maguire entende que está explorando os esportistas, e que falta humanidade no negócio. Febril, insone, se põe a escrever o que lhe vem à cabeça.


Na manhã seguinte, cada funcionário da empresa onde trabalha recebe uma cópia da brochura "Coisa que Pensamos e que Não Falamos". Um memorando? Um manifesto? "Uma declaração de intenções", esclarece o agente. O conteúdo da brochura pregava a reinvenção do negócio de gerenciamento da carreira de esportistas, com atendimento mais do que personalizado: humano. Interesse nas pessoas. Menos clientes por agente. Menos dinheiro. Recuperar aquele sentimento de quando se iniciou a carreira. Coisas que pensamos e que, por constrangimento de parecer ingênuos demais ou simplesmente idiotas, evitamos falar.


Esta é o detonador do grande conflito do filme. Enquanto Maguire esteve por cima, vencedor de peito estufado, todos o admiravam. Sua bela noiva (Kelly Preston) era uma máquina de sexo. Seus amigos o amavam. A partir do momento em que sua pequena crise pessoal veio à tona - através da sua "declaração de intenções" -, tudo desmorona. A noiva lhe dá o fora (depois de aplicar-lhe um nocaute e de chamá-lo de "loser"), os amigos somem e o emprego, bem, o que você poderia esperar depois de ele pregar o fim do modus operandi que deixou a empresa rica? Maguire foi pra rua.


O Jardim Secreto

A partir daí, cresce no filme a adorável figura de Reneé Zellweger (então, uma loirinha novinha e linda, bem diferente da estranha mulher que encheu as bochechas de botox até ficar idêntica à sua estátua de cera no museu Madame Tusseau). Ela é Dorothy Boyd, contadora da empresa secretamente apaixonada por Maguire. Dorothy cai na lábia desesperada e levemente desastrada de Maguire na sua despedida, e se torna sua primeira - e única - funcionária na nova empreitada do agente. Ele tem um único e não tão fiel cliente - Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., no papel que lhe valeu o Oscar de melhor ator coadjuvante), um jogador de futebol americano mediano, de bom potencial e péssima atitude. Nada muito promissor.


















Frases de efeito, escadas cômicas eficientes uma câmera amiga: o casal perfeito da comédia romântica


Maguire, finalmente despido de todo o glamour e aparato, terá que aprender a desenvolver relacionamentos de verdade - com seu cliente (e futuro amigo) e com sua funcionária (e futura namorada). Sua dificuldade em criar intimidade é o xis da questão, e uma descida ao fundo do poço pode ser a solução.

No meio do caminho, mil situações engraçadíssimas, saídas do vasto repertório de piadas de Cameron Crowe, fiel seguidor de Billy Wilder (acredito, inclusive, que as rápidas cenas em que aparece um velhinho tido como mentor de Maguire, são inspiradas na série de entrevistas que Crowe conduziu com o velho mestre: Wilder era mestre em frases de efeito e mandamentos para a obtenção do roteiro perfeito).

E o afeto que vai sendo criado entre Maguire e Dorothy (e seu filho engraçadinho, um pirralho de quatro ou cinco anos em atuação inspirada) é realmente tocante, porque é construído sobre erros, movimentos equivocados e bases frágeis. Uma transada antes da hora, uma evolução do relacionamento meio fora de controle, um casamento um tanto prematuro - e uma crise mais melancólica do que apimentada. No entanto, é justamente enquanto tudo dá errado que a força da companhia de Dorothy cresce em Maguire. A trilha sonora perfeita para essa afeição crescente é a canção Secret Garden, do Bruce Springsteen. A melodia, a letra e o solo de sax vão envolvendo o espectador de tal maneira que, após quatro minutos, somos Jerry Maguire. Não dá pra explicar. É um estado de espírito.

Talvez o vídeo abaixo, que traz cenas do filme e a letra de Secret Garden, faça melhor o trabalho:



O final, com sua redenção esportiva e seu final feliz romântico, é perfeitamente adequado para as pretensões comerciais de um filme desse porte. O texto de Crowe, no entanto, nunca cede ao brega e à solução mais fácil. É um dos roteiros mais classudos do cinema contemporâneo.

O filme fez um sucesso estrondoso, foi indicado para uma penca de Oscars e, até hoje, é considerado a melhor atuação de Tom Cruise. Cameron Crowe ganhou carta branca para fazer o que lhe desse na telha (e daí resultaram Quase Famosos, com o qual ganhou Globos de Ouro e um Oscar, o estranho e genial Vanilla Sky e, mais recentemente, Elizabethtowm, que gastou um pouco seu crédito).

Se algum dia a encruzilhada profissional te pegou de jeito, ou se um relacionamento evoluiu de uma maneira não exatamente planejada por você - e se você já se sentiu sufocado por uma vida que escapou à sua idealização bem intencionada -, este é um filme a que você precisa assistir.

Se não sofreu nada disso, sofrerá um dia. E Jerry Maguire lhe será uma ótima companhia.

P.S.: e há, claro, a cena do "show me the money!", que valeu o Oscar pro Gooding Jr. E há aquele uso especial de clássicos do rock como Magic Bus, do Who, Free Fallin, do Tom Petty, e Bitch, dos Stones

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Bolsa de apostas do Oscar

terça-feira, 9 de março de 2010 - 4 Comentários

Que fique registrado que este blogueiro acertou 79% dos vencedores dos Oscars.

O que BLOGIE acertou na mosca: melhor filme, direção e roteiro original para Guerra ao Terror, todos os prêmios de atores (Jeff Bridges, Sandra Bullock, Christoph Waltz e Mo'Nique), uns prêmios técnicos para Avatar (fotografia, direção de arte, maquiagem e efeitos visuais), o reconhecimento óbvio a UP! (melhor animação e aquela trilha sonora maravilhosa) e, acima de tudo, a supresa que foi a premiação argentina no filme de melhor língua estrangeira. Reproduzo abaixo o texto do palpite postado na manhã de domingo:

Melhor Filme em Língua Estrangeira:

- Quem ganha: OK, vou fazer uma aposta arriscada... O Segredo dos Seus Olhos.
- Quem deveria ganhar: o próprio. O filme de Campanella é maravilhoso, mas comete o pecado capital de ser comezinho - trata de pessoas comuns. Geralmente, a Academia privilegia filmes estrangeiros que tratam de "grandes questões" (holocausto, criancinhas sofrendo com a pobreza, etc). Mas seria muito bom que se ativessem a premiar o melhor filme do ano, que é o argentino.


Agora, os erros de previsão:
 
1- Resolveram transformar Guerra ao Terror no grande premiado da noite... - e aí roubaram alguns Oscars técnicos que deveriam ser de Avatar (edição de som e mixagem de som). Também deram o Oscar de melhor edição para Guerra ao Terror, mas este foi merecidíssimo (eu achei que dariam-no para Avatar, mas, neste caso, ainda bem que errei).
 
2- Cometeram a palhaçada de darem o Oscar de melhor roteiro adaptado para Preciosa - desbancando os trabalhos excepcionais de Jason Reitman em Amor Sem Escalas (que era minha aposta) e Nick Hornby em Educação (que era meu desejo).
 
OK, quatro erros em dezenove palpites. Não é mal desempenho. Mas todo ano fico nessa casa entre 75% e 80%. Oscar é igual loteria esportiva. Sempre tem um Juventus da Moóca pra ganhar do Corinthians.
 
Agora, voltemos aos cinemas, pois ainda vem muito filme bom pros próximos dois meses. Daqui a pouco estreia Alice, do Tim Burton (candidato a sucesso do ano), e o novo Woody Allen (Whatever Works, que merecia pelo menos uma indicação para roteiro original).

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Oscar 2010: passando a régua

segunda-feira, 8 de março de 2010 - 9 Comentários

Bem, há coisa de um mês atrás havia uma certeza: Avatar salvara o cinema e seria devidamente reconhecido no Oscar, levando mais prêmios do que E o Vento Levou, Ben Hur e Titanic.

Daí, Guerra ao Terror foi chegando, o barulho foi aumentando, os prêmios foram vindo... e chegamos ao Oscar com um filme independente mais barato do que uns capítulos da novela das oito disputando o Oscar pau a pau com a maior super-produção da história. De tão polarizado, falava-se até em uma possível vitória de um azarão, que seria Bastardos Inglórios, do Tarantino.

O resultado final foi, em primeiro lugar, a confirmação de que a indústria do cinema americano privilegia, acima de tudo, a boa ideia, o filme autoral, em detrimento do blockbuster. Ao mesmo tempo, finalmente a questão da atuação americana no Oriente Médio ganhou a simpatia da classe (antes de ganhar a simpatia do público; este deve ir atrás só agora, depois da premiação). Guerra ao Terror é o grande vencedor do Oscar 2010.


















O filme de Kathryn Bigelow (a mesma de Caçadores de Emoção e outros filmes de ação) levou os prêmios de melhor filme, direção, roteiro original, edição, edição de som e mixagem de som. Seis prêmios, contra quatro de Avatar, todos técnicos.

Eu não considero Guerra ao Terror o melhor filme do ano, nem de longe, mas entendo o frisson em torno dele. Se Avatar remete a Star Wars e sua escola de filmes-evento, e se Amor Sem Escalas remete a Billy Wilder e o cinema mais classudo, Guerra ao Terror afilia-se ao cinema dos anos 70, nervoso, inconformado, criativo e de câmera viva, vivíssima.

Penso em O Franco Atirador, em Apocalipse Now. Penso em A Conversação e Operação: França. Filmes que, em algum grau, têm parentesco com a obra de Bigelow. Penso nas tentativas recentes de Ridley Scott, Brian DePalma, Robert Redford e Mike Nichols em abordar a questão da atuação americana no Oriente Médio. Todos foram mal sucedidos, mais por bad timing do que por deficiências artísticas. Eles também são premiados hoje, por terem gritado num momento em que seu país não queria ouvir.

Agora, o que eu queria mesmo era ver aquela turminha formada pelo Apache, pelo Urso Judeu e por Shosanna saindo triunfante do Kodak Theatre. Os Bastardos de Tarantino não tiveram a premiação que mereciam. Mas, fazer o quê?, a vida é assim.

E não vou ficar chateando o leitor com discursos sobre o absurdo de testemunharmos a Sandra Bullock ganhando um Oscar. Pra falar a verdade, nada mais natural. A mulher enche cinemas há mais de quinze anos. Entregou uma performance acima da média, era um ano sem muitos concorrentes fortes, premiaram a estrela. Isto é Hollywood, e dá pra conviver com isso.

E vamos dormir, porque a semana promete. Fico devendo uma análise mais detalhada de Guerra ao Terror.

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Oscar: arrastando-se noite adentro

OK, temos um novo marco do constrangimento alheio: o que foi aquela coreografia de street dance acompanhando as trilhas sonoras indicadas?

Menos embaraçosa foi a homenagem póstuma para a galera que perdeu a vida durante o último ano. James Taylor tocou In My Life, dos Beatles, enquanto imagens de David Carradine, Patrick Swayze,  Britanny Murphy, Jean Simmons e um monte de gente mais importante e menos famosa (entre eles, o roteirista de Sindicato de Ladrões!) eram exibidas.Singelo.

Os prêmios mais justos e previsíveis da noite saíram: trilha sonora para UP! e efeitos visuais para Avatar.

De resto, Guerra ao Terror desponta como o favorito da Academia, ao surrupiar o Oscar de roteiro que deveria ter ido para Tarantino e os Oscars de edição e mixagem de som, que eram dados como barbada para Avatar.

De tanta mulher bonita e embrulhada para sair em todos os jornais, sites e revistas do mundo, a mais bela, a mais impressionante, a mais gostosa é...

... Demi Moore.

Isso que é tradição.

Agora, vamos continuar assistindo, embora sem muito tesão, porque já ficou claro que Bastardos Inglórios não terá chances para roubar o Oscar de melhor filme ou direção. E, mais triste, é ponto pacífico que Amor Sem Escalas veio ao Oscar só pra passear. Paciência.

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Oscar - uma volta no tempo

domingo, 7 de março de 2010 - 1 Comentários

O Oscar começou com clima de musical da Metro dos anos 30. Cenários que evocam filmes do Fred Astaire e um número musical cafona até a medula (um tanto de ironia, sem dúvida). O primeiro bloco deixou claro que a intenção é recuperar o glamour e a tradição, tentando puxar o recall no Planeta Terra de que o Oscar é o máximo.
O número de entrada dos apresentadores, Alec Baldwin e Steve Martin, foi elegante. Nada de video-clips, nada de música ou dança: eles falaram, fizeram piadas, desfilaram classe.

E aí entra Penélope Cruz, linda, e apresenta o primeiro prêmio da noite: melhor ator coadjuvante.

Abre o envelope e fala a frase que havia sido aposentada há décadas: "and the winner is..."

E o vencedor é Christoph Waltz, o genial Cel. Landa de Bastardos Inglórios.

Começou bem, este Oscar.

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Oscar 2010: palpites e apostas

Cinéfilos de todo o mundo, é hoje.

















Como mostra o pôster oficial do Oscar, teremos como mestres de cerimônia Steve Martin e Alec Baldwin, a dupla de veteranos que disputam a Meryl Streep em Simplesmente Complicado. Os apresentadores de prêmios serão variados, incluindo artistas consagrados como Pedro Almodóvar a estrelas teen, como a molecada da série Crepúsculo. As canções ao vivo estão banidas da cerimônia (tudo bem, afinal vai longe o tempo em que tínhamos Paul McCartney, Madonna, Bruce Springsteen ou Elton John concorrendo ao Oscar com canções de sucesso). E os prêmios...

Ora, os prêmios. Ficar palpitando quem deve ganhar ou deveria ganhar é o esporte mais praticado dos EUA neste final-de-semana. Jornais e revistas só tratam disso. Na segunda-feira, a polêmica reinará, qualquer que seja o resultado.

Pra dar o clima, dê só uma olhada na capa da última edição da revista New Yorker:
























BLOGIE não quer ficar de fora dessa confusão. E crava abaixo suas preferências e seus palpites sobre quem levará a melhor hoje, no Kodak Theatre. Confira e comente, proteste, faça seu ponto!

Melhor Filme:
- Quem ganha: Guerra ao Terror, que conseguiu sobreviver à falta de crédito das distribuidoras, ao limitado apetite do público por filmes de guerra e ao fenômeno pop Avatar. Chegou na reta final como favorito.
- Quem deveria ganhar: Bastardos Inglórios. Há quinze anos, Quentin Tarantino chegou para mudar o cinema de vez. Pulp Fiction é o filme mais influente dos últimos vinte anos. Dono de uma linguagem própria, estilo de sobra e uma saudável loucura, Tarantino fez sua obra-prima ao seu modo -sem ceder ao sentimentalismo, à grandiosidade, às convenções. Zoou a História e merece ter seu Oscar. Se perder, torço para a Shosanna aparecer e fazer seu show no teatro.

Melhor Diretor:
- Quem ganha: Kathryn Bigelow, de Guerra ao Terror
- Quem deveria ganhar: a própria. Será a primeira mulher a vencer o prêmio de melhor direção (Sofia Coppola poderia ter sido a pioneira, se tivessem feito justiça a Encontros e Desencontros, em 2003), e será merecido. Guerra ao Terror é um fenômeno de direção, muito mais do que roteiro ou recursos técnicos ou elenco. A câmera de Kathryn é combativa, bisbilhoteira, inteligente e abundante - está sempre no lugar certo, e sem maneirismos bobos. E que ritmo! Tarantino é um bom concorrente, mas seu Bastardos tira proveito de mil outros trunfos - o principal é o roteiro, claro.

Melhor Ator:
- Quem ganha: Jeff Bridges, por Coração Louco
- Quem deveria ganhar: Jeff Bridges. Ele é demais. Ele fez um papel coadjuvante sensacional em A Última Sessão de Cinema, de 1971, pelo qual recebeu sua primeira indicação. Ganhou outras três indicações, sem nunca levar o prêmio. Esta é a vez dele, é o papel de uma vida e não tem pra ninguém. Além do mais, lembremos que ele é The Dude (O Grande Lebowski).

Melhor Atriz:
- Quem ganha: Sandra Bullock (60% de chances) ou Meryl Streep (40% de chances)
- Quem deveria ganhar: Carey Mulligan, por Educação. Entendo que Sandra Bullock é uma pessoa legal, uma mulher simpática e uma grande estrela. Mas sua atuação em Um Sonho Possível ainda não é algo que a qualifique como uma grande atriz. Já Mery Streep faz de qualquer papel um grande trabalho, e sua Julia Child em Julie & Julia não foi diferente. No entanto, não é um papel que me empolga (qualquer um dos seus desempenhos nos últimos anos foi superior, incluindo O Diabo Veste Prada, Mamma Mia! e Simplesmente Complicado). Por isso, minha preferência vai para a novata Carey Mulligan, cativante e carismática em Educação. Uma atuação brilhante que anuncia uma nova estrela.

Melhor Ator Coadjuvante:
- Quem ganha: Christoph Waltz, por Bastardos Inglórios
- Quem deveria ganhar: não há nem o que discutir. Waltz é o dono do prêmio. Seu Cel. Landa é um dos personagens mais marcantes da década. É histórico, vai entrar para a mitologia do cinema.

Melhor Atriz Coadjuvante:
- Quem ganha: Mo'nique, por Preciosa
- Quem deveria ganhar: Maggie Gylenhaal, por Coração Louco. Nunca fui muito fã de Maggie, pois a acho meio sem sal, pouco atraente e nada impactante. Mas seu personagem em Coração Louco vai cozinhando em banho-maria, você não entende qual é a dela, ela parece ser esperta, interesseira - e acaba se revelando uma coisinha doce. Fez uma interpretação forte, sutil e muito interessante. É a minha preferida. E, sim, finalmente reconheço: a moça é atraente.

Melhor Filme em Língua Estrangeira:
- Quem ganha: OK, vou fazer uma aposta arriscada... O Segredo dos Seus Olhos.
- Quem deveria ganhar: o próprio. O filme de Campanella é maravilhoso, mas comete o pecado capital de ser comezinho - trata de pessoas comuns. Geralmente, a Academia privilegia filmes estrangeiros que tratam de "grandes questões" (holocausto, criancinhas sofrendo com a pobreza, etc). Mas seria muito bom que se ativessem a premiar o melhor filme do ano, que é o argentino.

Melhor Fotografia:
- Quem ganha: Avatar
- Quem deveria ganhar: Bastardos Inglórios. Pra mim, Avatar é video-game, é desenho animado. Cinema é outra parada, e essa parada é dominada por dois minutos de Bastardos - só aquela primeira tomada do campo, à Sergio Leone, ganha o Oscar sozinha. A cena do cinema... que coisa, que filme.

Melhor Roteiro Original:
- Quem ganha: Guerra ao Terror
- Quem deveria ganhar: Bastardos Inglórios. Não há nem o que discutir: o melhor roteiro é o de Tarantino. Acredito que Guerra ao Terror leve o prêmio por uma questão de galvanização das intenções, mas seu roteiro é, pra usar os melhores elogios à mão, preciso e tenso. O de Bastardos choca, deslumbra, arrebenta.

Melhor Roteiro Adaptado:
- Quem ganha: Amor Sem Escalas
- Quem deveria ganhar: Amor Sem Escalas. Jason Reitman é da escola do Billy Wilder, a estirpe mais nobre de Hollywood: a dos diretores que escrevem seus filmes, e que escrevem os melhores roteiros, com os melhores diálogos, que criam as frases que entram para a história. É novo, tem apenas 32 anos, só fez três filmes e este Oscar de melhor roteiro é só o começo de uma linda amizade.

Prêmios Técnicos:
Edição, Edição de Som, Mixagem de Som, Direção de Arte, Maquiagem, Efeitos Visuais: a de Avatar o que é de Avatar.

Melhor Canção: não tem pra ninguém. The Weary Kind, de T-Bone Burnett, tema central de Coração Louco, é a melhor canção do ano.

Melhor trilha sonora: se você não chorou com a trilha de UP! Altas Aventuras, és um insensível. Aposta segura.

Melhor Animação: é claro que UP! Altas Aventuras, um dos melhores filmes do ano (seria uma boa opção até para roteiro original!), ganhará o prêmio de melhor animação.

É isso. Agora é acompanhar o Oscar, se divertir e aproveitar um almoço de segunda-feira na firma com um assunto mais interessante do que o Big Brother.

Acompanhe os comentários ao longo da cerimônia pelo Twitter (@rgarrido75)!

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Oscar 2010: ainda dá tempo de ver os principais filmes!

sábado, 6 de março de 2010 - 3 Comentários

Caro amigo de BLOGIE,

Você já viu todos os principais indicados ao Oscar?

Isso é o que interessa, no momento. Portanto, dedico este post a montar uma lista do que é realmente essencial ver entre hoje e amanhã. Certamente, todos já viram Avatar (leia a crítica de "Avatar" aqui), então é menos um. Vou listar o que realmente é necessário.

Guerra ao Terror: principal concorrente de Avatar para melhor filme, é o primeiro filme de guerra dos anos 2000 a ganhar a simpatia da classe. É a obra que fecha o caixão da Era Bush. Mostra a guerra do Iraque, urbana, complicada, tediosa, nada heroica, à maneira de Nascido para Matar, Platoon e Apocalipse Now - como um negócio que vicia e enlouquece o cidadão. Grande direção de Kathryn Biggelow (de Caçadores de Emoção, lembra?), que deve ser premiada como melhor diretora.

Coração Louco: traz Jeff Bridges como um cantor country fracassado. Ele ganhará o prêmio de melhor ator, posso afirmar com 95% de segurança. Um belo filme. (leia a crítica de "Coração Louco" aqui)

Amor Sem Escalas: aposto minhas ficha no filme de Jason Reitman para melhor roteiro adaptado. Capta o espírito do seu tempo, arrancou o melhor desempenho de George Clooney e apresentou duas novas estrelas, Vera Farmiga e Anna Kendrick - todos indicados ao Oscar. (leia a crítica de "Amor Sem Escalas" aqui)

Educação: com roteiro de Nick Hornby (autor de Alta Fidelidade e Um Grande Garoto - aliás, um bom concorrente ao Oscar de roteiro adaptado), este filme classudo revela Carey Mulligan, indicada ao Oscar de melhor atriz e dona de um futuro bem promissor. Na semana que vem, quando um colega do trabalho te perguntar se você viu o filme com a Sandra Bullock, que terá vencido o prêmio de melhor atriz, responda orgulhoso: "não, mas vi Educação, que é dez vezes melhor e que traz uma menina que DEVERIA ter ganhado o Oscar no lugar da Sandra Bullock". (leia a crítica de "Educação" aqui)

Bastardos Inglórios: num mundo mais louco e menos ponderado, seria o vencedor absoluto da noite. O épico de guerra desvairado e delirante de Tarantino mudou o fim da Segunda Guerra, fez sucesso e pode levar o prêmio de melhor roteiro original (deveria, pelo menos). Além do mais, é a maior homenagem ao cinema em muito, muito tempo. Eu diria que é a maior homenagem ao cinema desde A Noite Americana, do Truffaut, que é de 1973! (leia a piração do blogueiro ao comentar "Bastardos Inglórios", logo após a sessão!)

O Segredo dos Seus Olhos: filmaço argentino de Juan José Campanella, mesmo diretor de O Filho da Noiva. Ele traz seu eterno parceiro Ricardo Darín como o burocrata que tem dificuldades em superar o insucesso da investigação de um caso de estupro, vinte e poucos anos antes. Tocante, engraçado, de tirar o fôlego, um filme completo e que merece o Oscar de filme em língua estrangeira (embora eu ache que A Fita Branca tem mais chances). (leia a crítica de "O Segredo dos Seus Olhos" aqui)

Acho que é isso. Que me perdoem Um Homem Sério, Preciosa, Um Sonho Possível, Distrito 9, Nine, A Fita Branca. Me dói não recomendar Invictus, do grande e velho Clint, e UP!, a animação do ano (e que você já deve ter visto). Mas o que interessa mesmo neste ano são os seis filmes acima recomendados. Se eu tivesse que escolher um, vejamos... escolha você: se for pra não se sentir por fora da festa, eu iria de Guerra ao Terror; se for pra adotar a linha do "sou mais eu", eu iria de Bastardos Inglórios; e, se o seu vibe for "vou falar do filme que ninguém viu e fazer sucesso", aposte no argentino.

Amanhã, antes do Oscar, confira aqui no BLOGIE os palpites e preferências da casa. E confira a cobertura em real-time pelo Twitter (@rgarrido75)!

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Oscar 2010: uma declaração de amor ao cinema

A partir das 22:00 de domingo, 07 de março, vai ao ar o Oscar, aquele evento cafona com tapete vermelho que dispara uma semana de discussão sobre vestidos e cabelos, tamanho dos discursos e audiência em franca queda. É sempre a mesma coisa. Então, qual o interesse em avançar a madrugada de segunda-feira vendo uma sequência interminável de discursos e piadas de gosto questionável (que perdem metade do significado com as traduções simultâneas que a TV brasileira nos impõe)?

Minha resposta: porque ainda é melhor celebração de cinema para o espectador comum (que é aquele, como eu e você, que não vai a Cannes todo ano passar uma semana dos sonhos). É uma festa feita para TV, na qual é reunido o maior número possível de astros de Hollywood, todos comprometidos em fazer a coisa à moda antiga: grandiosa, emocionada, respeitosa com a História da própria "indústria" (como eles gostam de se chamar, e têm razão - são uma indústria, um setor relevante da economia americana). É uma premiação que não privilegia filmes de arte, e sim filmes comerciais - lógico, não é o MTV Movie Awards, francamente teen e trash; o Oscar vai no meio-termo, no filme comercial que apresenta méritos especiais. Essa é a proposta, e ela pode acolher um enorme sucesso comercial (E o Vento Levou, Titanic... e Avatar?) ou um pequeno grande filme que crescerá em reputação com um Oscar na prateleira (Casablanca, Se Meu Apartamento Falasse... e Amor Sem Escalas?). Vez por outra - ou quase sempre - uma injustiça que alimenta a polêmica (Hithcock e Kubrick nunca agraciados? Rocky ter vencido Taxi Driver?). E é nisso que reside a graça do Oscar.

O Oscar cria seus próprios mitos, heróis e vilões. Jack Nicholson é a personificação do evento: ele está lá todo ano, na primeira fila, de óculos escuros, sorrindo de orelha a orelha, rindo das piadas do apresentador, aplaudindo cada discurso. Woody Allen foi devidamente reconhecido pelo seu primeiro filme "sério" (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), não apareceu em L.A. para buscar seus Oscars e deu início a décadas de descaso da Academia e eventuais indicações por roteiro ignoradas por Allen. Sua única aparição na festa foi em 2002, numa homenagem a Nova Iorque pós 11/setembro.

Outras figuras clássicas: Billy Cristal, que é um ator de segundo escalão, consagrou-se no papel de mestre de cerimônias do Oscar; já David Letterman, comandando com segurança e acidez seu talk-show há décadas, foi um furo n'água em sua única tentativa. Mas saber rir de si mesmo é uma das melhores qualidades de Hollywood: no ano seguinte, lá estava Billy Cristal de novo, fazendo a abertura do evento em um número musical, fechado com um ataque aéreo (!) perpetrado por Letterman sobre a cabeça do substituto. Com isso, eram citados O Paciente Inglês, que seria o principal vencedor daquela noite, e também Intriga Internacional, do Hitchcock.

Este é o resumo de Hollywood: relembrar seu passado, requentá-lo, chamar a atenção para seus novos ídolos, rir de si mesmo e se auto-promover em escala industrial.

E no meio disso tudo, ainda há espaço para qualidade. Dizem que o Oscar premia mal. Se olharmos os maiores vencedores do Oscar, veremos Walt Disney, John Williams, Jack Nicholson, Katherine Hepburn, Meryl Streep, Billy Wilder... não é má companhia, concorda?

Pronto, já estou preparado para fazer minhas previsões sobre o Oscar. Aguarde o próximo post.

Em tempo: o Oscar vai ao ar às 22:00 na globo e na TNT. A transmissão da TNT é melhor (tapete vermelho a partir das 21:00), mas a Globo tem alta definição...

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Crítica: "Um Olhar do Paraíso", de Peter Jackson

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários

(Indicado ao Oscar de ator coadjuvante)

Tinha tudo pra dar certo: um diretor de mega-produções (série O Senhor dos Anéis, King Kong), um livro de muito sucesso e um elenco de primeira linha (Mark Whalbergh, Rachel Weiz, Stanley Tucci e Saoirse Ronan, a menininha de Desejo e Reparação). A história, estrelada pela talentosa Saoirse, trata de Susie Salmon, uma menina de 14 anos que é assassinada por um maníaco e que, do limbo particular em que ela aguarda pelo ingresso para o Paraíso, tenta intervir nas vidas de seus pais, daquele que seria seu primeiro namorado e do seu assassino. Eventuais toques de Ghost aqui e ali. Mas não deu certo.

A verdade é que Um Olhar do Paraíso, empreitada muito pessoal de Peter Jackson (que ficou muito impressionado ao ler o livro logo após a perda dos seus pais), é uma pequena bomba embrulhada em uma linda caixa de presentes, com lacinho e tudo. De tão fofinho e sutil, o filme cansa.















Saoirse Ronan como Susan: pra quem teve um fim de vida tão infernal, um limbo fofinho e surrealista.


Pra começar, tratemos da parte mais difícil: as cenas mundanas são intercaladas com cenas fantasiosas da garotinha no purgatório. São cenários tão surreais quanto artificiais - embora muita gente vá dizer que são imagens lindas e etc e tal -, similares aos campos onde correm os Teletubbies ou, vá lá, aqueles papéis de parede com paisagens do Windows. A trilha sonora de Susie correndo pelos campos e praias do além é um troço que lembra aquele rock progressivo à Guilherme Arantes em início de carreira. Dureza.

Já no Planeta Terra, os pais de Susie sofrem pra caramba e têm enorme dificuldade em superar a perda. Peter Jackson, no entanto, tem enorme dificuldade em conferir profundidade a esses personagens, colando-os numa cartolina. Com isso, é desperdiçado o talento de Whalbergh e de Weiz.

Há um lado positivo: o sempre ótimo Stanley Tucci - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - é o vizinho aparentemente inofensivo (mas com toda a pinta de psicopata) que molesta e mata Susie. Seu trabalho é perturbador, pra dizer o mínimo. Ele protagoniza as melhores cenas do filme, num jogo de gato e rato com Lindsey Salmon (Rose McIver, estreante no cinema), a irmã mais nova de Susie. Lindsey vai crescendo, se tornando mais atrativa aos olhos do doido e, unindo uma inteligência acima da média com uma intuição que talvez esteja sendo soprada pela irmã mais velha, passa a ter calafrios ao passar em frente à casa do cara.

A grande cena do filme - dentro da casa impecável do assassino - é de uma tensão digna de um David Fincher ou de um Hitchcock. Não é o suficiente, no entanto, para compensar a xaropada que vem antes e depois.


Veja o trailer e cheque se Um Olhar do Paraíso é pra você...

Os bem intencionados dirão que o filme traz uma linda mensagem - é necessário se desapegar, perdoar, tocar a vida pra frente e deixar o acaso ou o destino dar conta dos pilantras que estragam nossos planos -, mas, sinceramente, escrever este parágrafo cansou este blogueiro.

O filme estreia sexta-feira nos cinemas brasileiros, e deve encontrar seu público. Mas, se o amigo leitor aceitar uma sugestão de BLOGIE, dará preferência ao tratamento mais cético e ácido que os irmãos Coen dão às tragédias da vida. Até sexta publicarei meu comentário sobre Um Homem Sério, que estreia no mesmo dia.

P.S.: a crítica Isabela Boscov, da VEJA, atribuiu o fracasso do filme à opção de Jackson de não mostrar a violência sofrida por Susie. Assim, não conseguimos entender a pureza de sua alma ao se manter inocente após tal atrocidade. É uma boa análise. Mas, no fundo, acho que seria só mais uma cena desagradável em um filme totalmente equivocado.

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Crítica: "Invictus", de Clint Eastwood

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

Clint Eastwood chega aos 80 anos vivendo o auge da sua carreira. Hoje, é considerado um dos grandes cineastas em atividade, alguém no nível de Scorsese, Allen, Spielberg. Durante os últimos dez anos, Eastwood enfileirou Sobre Meninos e Lobos, Menina de Ouro, Cartas de Iwo Jima, A Troca, Gran Torino. Dramas que buscam o que há lá no fundo de pessoas que passam por situações muito além do insuportável.

Comparado a essa série, seu filme atual, Invictus (em cartaz nos cinemas brasileiros), pode ser considerado leve e revigorante: seus personagens não enfrentam questões de vida ou morte; são pessoas em pleno domínio de suas competências e cujo maior desafio é como fazer o melhor uso delas. É um filme sobre esporte, sobre política, sobre amizade e liderança. Mas, no fundo, inspiração é o assunto central da história de como Nelson Mandela, o primeiro presidente sul-africano depois do fim do apartheid, enxergou na seleção sul-africana de rugby - os Springbocks, uma instituição nacional, pelo menos da parte branca que endossava o racismo oficial - uma promissora bandeira de integração nacional.



















Clint Eastwood dirige Morgan Freeman e Matt Damon em Invictus



Morgan Freeeman empresta seu carisma e sua simpatia natural a um personagem contemporâneo e ainda mais carismático e simpático. O resultado, apesar da indicação ao Oscar, não arrebata: é solene, contido, respeitoso demais. Mais interessante é notar o olhar humano e astuto de Mandela/Freeman/Eastwood, enxergando em cada atitude do presidente a possibilidade de mandar o recado certo, exato. Nada do que o personagem faz (certamente, há uma boa correspondência ao Mandela real) é espontâneo ou egoísta - tudo serve a um propósito maior.

O grande "projeto" de Mandela no filme - provavelmente, em meio a dezenas de outras grandes sacadas concomitantes - é arregimentar o capitão dos Springbocks para sua causa. Inspira o rapaz, bota responsabilidade sobre seus ombros fortes e insufla nele a ânsia de liderar e inspirar outras pessoas. O capitão, vivido com grande competência por Matt Damon (indicado ao Oscar de ator coadjuvante), se enche de motivação a partir do magnetismo pessoal do presidente e, aos poucos, vai transformando o bando de brutamontes (talvez ingenuamente) racistas em pessoas tolerantes e integradoras.

Um ano separa a sacada de Mandela da Copa do Mundo de rugby, que seria sediada na própria África do Sul. Ao saber, por um assessor, que a final da Copa seria assistida na TV por mais de 1 bilhão de pessoas, Mandela tem uma visão e se põe a tocar o projeto de transformar o medíocre time nacional em um futuro campeão. Isso dá trabalho, muito trabalho, mas mais difícil é fazer a enorme e paupérrima massa de negros adotar o esporte e sua seleção - um exercício de perdão, de inclusão, de unificação. Trabalho para um grande líder.


Veja o trailer de Invictus!

O clímax do filme, claro, vem na final da Copa do Mundo, jogo a que os Springbocks se qualificam após uma campanha irretocável e suada. Os oponentes são os All-Blacks - a seleção da Nova Zelândia, um ícone do esporte mundial, o equivalente ao que é a seleção brasileira no mundo do futebol -, uma máquina de furar muralhas de marmanjos e de botar a bola oval no chão adversário. A câmera de Eastwood faz um trabalho fantástico, no nível do que Oliver Stone fez com o futebol americano em Um Domingo Qualquer - e muito melhor do que tudo que já foi feito com o nosso futebol. Os jogos são vistos de dentro, acompanhamos cada músculo se retesando, cada arranhão acontecendo, cada ombrada explode no nosso peito. Que Avatar, que nada: isso é que é ação.

De resto, fica a forte impressão que causa a direção calma, equilibrada, elegante de Clint Eastwood. Fica a qualidade que ele arranca de todo o seu elenco. A música delicada que recheia os silêncios de um roteiro competente e de fluência contínua. Uma aula de como se faz um filme convencional, mas que, nas mãos de alguém genial, resulta sempre em algo único.

E fica a inspiração, pois bons filmes esportivos - Carruagens de Fogo, Um Homem Fora de Série, Um Domingo Qualquer, Lendas da Vida... - são sempre inspiradores. Esse é o golpe final de Eastwood, pois seu filme procura justamente o que inspira as pessoas. Nelson Mandela, durante os muitos anos em que ficou preso, buscou inspiração na poesia Invictus, do poeta inglês William Ernest Henley ("sou dono e senhor do meu destino / sou comandante da minha alma"); sua trajetória inspirou o capitão dos Springbocks; e estes, misturando suas velhas cores a um novo hino, acabaram inspirando um país a começar a vencer - sabemos que o processo será lento e dolorido - seus tabus e seus ressentimentos.

A nossa crença na capacidade humana de se reinventar se renova pelas mãos octagenárias de Clint. Mãos que já mataram índios e caubóis, que já deram cabo de delinquentes de toda espécie, mas que foram se amaciando com os anos e que, hoje, só moldam singelas obras-de-arte.

P.S.: pra quem já viu o filme, vale dar uma olhada nas imagens reais da final da Copa do Mundo de rugby de 1995. Demais!


(Como era possível viver antes do You Tube?)

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Indicados ao Oscar: um breve comentário

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários

Bom, da lista do Oscar extraímos duas certezas: 1) Avatar é acolhido pela indústria cinematográfica, por seu caráter de salvador da pátria (quero ver alguém piratear um filme desses - é coisa pra comprar ingresso e ver no cinema, e ponto final); 2) Guerra ao Terror, filme que saiu direto em DVD no Brasil, vai acabar com a sina de filmes de guerra dos anos Bush, que sempre foram furo n'água.

Quem vai levar a melhor entre os dois... difícil de dizer. Avatar parecia imbatível, mas aí o filme da ex-mulher de James Cameron, Kathryn Bigelow (aliás, que outra mulher já fez um filme de guerra?), começou a ganhar todos os prêmios - e o jogo ficou embolado.

Por fora, ainda correm Bastardos Inglórios e Amor Sem Escalas, os dois favoritos deste blogueiro. Sinceramente, meio por espírito de porco e meio por amor ao cinema, torço pela vitória do filme de Tarantino.

Bastardos, aliás, muito provavelmente levará dois prêmios: o de melhor ator coadjuvante para o genial Christoff Waltz, e o de roteiro original.

Já o prêmio de roteiro adaptado deve ir para Amor Sem Escalas (dando sequência à tradição de premiar o filme independente e inusitado do ano com um Oscar de roteiro - prêmio de consolação que já foi dado a Cameron Crowe, Sofia Coppola, Diablo Cody e tantos outros).

O mais interessante, no entanto, será o embate nas categorias dos astros: aparentemente, temos um grande trabalho de Sandra Bulock (BLOGIE quebrará um dos seus tabus de estimação e verá um filme de Sandra Bulock), uma revelação com Carey Mulingan (Educação) e um papel coroador de carreira para Jeff Bridges, como um cantor de country decadente em Coração Louco. George Clooney, Morgan Freeman, Meryl Streep e Helen Mirren estão lá, fazendo figuração de luxo que só dará mais valor às conquistas dos outros. (Ou acontecerão surpresas?)

No mais, bacana esse negócio de dez indicados para melhor filme. Acaba promovendo a justiça, ao dar o devido lugar de destaque a obras-primas como UP - Altas Aventuras, e Distrito 9, numa categoria que raramente dá espaço para animações e ficções científicas.

Agora, é correr atrás dos filmes (as estreias acontecem às pencas), e aguardar ansiosamente pelo dia 7 de março. Até lá, darei minhas preferências e meus palpites.

P.S.: mas bacana, bacana mesmo, seria a vitória do escritor inglês Nick Hornby pelo seu roteiro adaptado de Educação. Hornby é um dos heróis de BLOGIE, e de sua pena só sai coisa boa.

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Crítica: "Amor Sem Escalas" de Jason Reitman

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010 - 11 Comentários

Algumas obras são grandiosas, inovadoras, fazem barulho e empurram o cinema pra frente. O Mágico de Oz, E o Vento Levou, Star Wars, Titanic e o recente Avatar são exemplos claros. São filmes que entram para a história e que arrebatam pela novidade. Não é por acaso que eles aparecem nas listas de maiores bilheterias de todos os tempos.

Mas há outro tipo de filme bem menor, mais convencional, apoiado acima de tudo em um bom roteiro, cuja maior preocupação técnica é mater a câmera próxima, íntima dos personagens. São filmes que não querem mudar o curso da história, nem ficar na história - querem apenas dissecar seus personagens e contar suas histórias.

Alguns desses filmes - poucos, na verdade - conseguem retratar melhor do que ninguém o espírito de uma época: tensões sociais, desdobramentos causados por um contexto maior na vida privada, relacionamentos... diga se há maior exemplo do que era o final da década de 60 do que A Primeira Noite de um Homem. Ou se há algo que retrate melhor o yuppismo da década de 80 do que Uma Secretária de Futuro. Ou se alguém conseguiu escancarar com igual sucesso a fragilidade dos relacionamentos adultos numa época em que naõ bastam instituições como casamento do que Closer - Perto Demais, de 2004.

Os três filmes acima citados são cria, veja só, de um único diretor, o genial Mike Nichols, um cara especialista em retratar o que há de mais relevante no seu tempo. Ele pode não ser o "rei do mundo" nem fazer discursos de agradecimento na língua dos Na'Vi, mas imagino que ele não tenha inveja do James Cameron. Ele opera em outra frequência, joga em outra liga.

O mesmo pode ser dito de Cameron Crowe, diretor de Vida de Solteiro, obra-prima da solteirice engajada dos anos 90 na Seattle sob o contexto do grunge, de Jerry Maguire e de Quase Famosos. Um diretor que valoriza seus diálogos, que cria personagens marcantes e que ajuda o espectador mais sensível a se entender melhor.

Robert Altman (Short Cuts), Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse), Robert Redford (Gente como a Gente) e Fraçois Truffaut (Beijos Roubados) são outros representantes ilustres dessa estirpe de cineastas.

O mais novo integrante do clube é Jason Reitman, diretor de 32 anos com apenas três filmes lançados. Sua estreia, Obrigado Por Fumar, botou ponto final na era do politicamente correto, mostrando que imbecilidade não tem partido. No segundo filme, Juno, ganhador do Oscar de melhor roteiro, mostrou a adolescência sob ótica nova, distante dos rebeldes sem causa dos anos 50, dos sonhadores de 68, da turma "popular x excluídos" da high school dos anos 80. Uma adolescência enfadada, consciente da sua imaturidade, um tanto cínica (característica até então exclusiva dos adultos). Com seu terceiro filme, Amor Sem Escalas, Reitman atinge um novo grau de representatividade.

Amor Sem Escalas é muito mais do que o filme sobre a crise econômica nos EUA, como se fala por aí. É um filme que usa o contexto da crise para falar sobre a auto-suficiência das pessoas numa era em que nada lhes falta: smart-phones, salas VIP, malas com rodinhas, festas em qualquer lugar. Acesso irrestrito ao mundo, é só chegar e aproveitar, esta é a promessa dos nossos tempos. Nada pode nos segurar: há termos como "sabático" que nos ajudam a justificar um ano de vadiagem nas praias da Austrália; há carreiras que devem progredir, dando pretexto para adiar a formação de uma família (casamento ou filhos ou cachorro ou empregada)...
























George Clooney é um herói desta era: vive de avião em avião, conta com - literalmente - milhões de milhas acumuladas, participa de todos os programas de milhagem existentes e desfila pelos EUA com muito charme, ternos de caimento perfeito, malas irretocáveis - e nenhuma raiz. Perdeu contato com suas irmãs, não tem nenhum relacionamento fixo e tem como endereço um porcaria de apartamento vazio e triste.

O peso dessa opção de vida vai caindo aos poucos - à proporção inversa da maneira que ele, como palestrante motivacional, propõe à sua audiência que imagine o alívio que seria remover das costas o peso de mulher, filhos, prestações da casa própria, carro e tudo mais. E duas mulheres fazem a ficha cair: primeiro, a novata caxias (Anna Kendrick, de Juno) que entra na empresa e propõe uma mexida radical no modus operandi do cara: ao invés de viagens pelos EUA para demitir pessoas às pencas (é aí que está o contexto da crise), os cortes poderiam ser promovidos pela Internet. Confronto e aproximação se seguirão, abrindo a guarda de Clooney. Então entra a segunda mulher (Vera Farmiga, de Os Infiltrados), outro tubarão corporativo que se define como uma versão de Clooney portadora de vagina. Por trás do descompromisso e das agendas atribuladas, um laço vai se formando, e mudanças acontecerão. (Acontecerão?)

Entre as várias cenas geniais do filme, a melhor é uma conversa entre os três personagens principais, a novata de um lado, Clooney e sua fuck buddy do outro. Um choque de gerações explícito como há muito, muito tempo não se vê no cinema (pensei novamente em Mike Nichols e A Primeira Noite de um Homem).

Há um parentensco claro entre Amor Sem Escalas e outro filme sobre o vazio da existência moderna em um mundo de viagens, hotéis e tecnologia que disfarçam muito mal a solidão: Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola, filme que revelou Scarlett Johansson. Bill Murray, o ator decadente daquele filme, poderia se sentar e conversar longamente com o George Clooney do filme de Reitman. O único problema é que a Scarlett Johansson largaria o velho comediante na hora.

Brincadeiras à parte, a verdade é que Amor Sem Escalas é um filme raro, capaz de dizer tudo e mais um pouco sobre nós - não sobre o que somos ou de onde viemos (discutir a natureza humana de maneira atemporal é coisa para Woody Allen, Stanley Kubrick e Clint Eastwood), mas sobre aquilo em que estamos nos tornando. Ser o termômetro de seu tempo é o talento de Jason Reitman, e ele tem aproveitado bem o dom, em uma carreira até aqui irrepreensível e cada vez mais promissora.


Veja o trailer de Amor Sem Escalas!

Não que ele vá sair carregado de Oscars do Kodak Theater no próximo dia 07 de março; mas pelo menos receberá uma meia dúzia de indicações, e isso será o suficiente para dar uma alavancada na audiência - e para transformá-lo no pequeno filme de estimação dos não deslumbrados com novas tecnologias.

BLOGIE, se tivesse direito a voto em alguma premiação, daria a Amor Sem Escalas a sua preferência.

P.S.: aliás, que tradução bizarra. O título original, Up in the Air, é muito feliz ao classificar a vida do personagem de Clooney como algo "em suspenso", etérea, sem base sólida. Caso parecido com o primo Encontros e Desencontros, nome preguiçoso que deram para Lost in Translation, "perdido na tradução", um filme sobre tudo aquilo que não é falado, que está entalado, uma angústia à qual não se dá vazão. Pelo menos, estão bem acompanhados.

P.S. 2: OK, talvez eu ficasse em dúvida entre Amor Sem Escalas e a obra-prima de Quentin Tarantino, o inacreditável Bastardos Inglórios... são filmes bem diferentes, mas ambos levam nota 10.

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Uma espiada no mundo feminino: "Julie & Julia"

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 - 7 Comentários

Meryll  Streep ganhou mais um Globo de Ouro por sua participação em Julie & Julia. Isso me motivou a dar uma checada no filme, que já entrou e saiu do cinema. Eu vinha evitando a empreitada, com medo do que encontraria - a diretora, Nora Ephron, vem descendo a ladeira na carreira... vejamos: ela escreveu Harry & Sally, a melhor comédia romântica desde o surgimento do Woody Allen; depois dirigiu o ótimo Sintonia de Amor; daí veio o mediano Mensagem Para Você; e chegamos a esta década, com o tenebroso A Feiticeira.

Julie & Julia, no entanto, foi bem recebido. Com Meryl Streep à frente do elenco, como Julia Child, uma grande estrela da culinária na TV, não dava mesmo pra passar despercebido. As críticas foram unânimes, dizendo que o filme é bom, dá vontade de comer, Meryll é o máximo, etc, etc etc - aquela história toda. Ressaltaram que o problema do filme é que a metade da Julia - com Meryll - é muito mais interessante do que a metade da Julie - a moça que, já nesta década, mantém um blog onde relata suas experiências pilotando o fogão sob as ordens das receitas de Julia Child. Aí é que eu entro na conversa.

Eu achei a personagem Julie, contemporânea, com algum talento, inquieta, atormentada pelo medo de ser um fracasso, muito mais interessante do que a Julia de Meryll Streep (que é uma caricatura da original; uma caricatura muito bem feita, mas uma caricatura). Julie é interpretada por Amy Adams, uma das preferências declaradas de BLOGIE. Uma atriz talentosa, carismática, contida (não apela para histrionismos ou caras e bocas) e bonita.



A Julie de Amy Adams é uma angústia só, uma mulher desesperada buscando algum reconhecimento de que tem talento, de que tem futuro, de que serve para algo. Tudo em sua vida indica o contrário: o apartamento suburbano trash, o marido conformista, o emprego deprimente. Quando encontra uma via para expressar alguma individualidade - a sacada de escrever o tal blog -, se agarra nisso com obsessão: nenhum senso de medida e entrega absoluta. Um personagem muito interessante, com boa profundidade e com quem qualquer um - repito, qualquer um, mesmo os homens - pode se identificar. Trata-se de alguém que tem parentesco com a Scarlett Johansson em Encontros e Desencontros, com o Tom de 500 Dias com Ela, com a Anne Hathaway de O Diabo Veste Prada (outra que serviu de escada para Meryll...).

























Amy Adams como Julie: um personagem que capta o espírito dos nossos tempos.

Este blogueiro, por exemplo, identificou em si mesmo atitudes constrangedoramente similares às de Julie, em parte pela típica inquietação dos tempos atuais - muitos wannabes, dificuldade em separar o joio do trigo -, em parte pelo contexto de vida - jovem de classe média remediada chegando à meia-idade e precisando encontrar logo o que vai fazer "pro resto da vida" (e que seja algo que o transforme em "alguém"!) -, e em parte porque gente é gente mesmo.

Resumindo, achei muito mais interessante a parte do filme que todo mundo julgou boba. Vai entender.

(Desconte o efeito Amy Adams sobre o blogueiro e talvez cheguemos a uma opinião mais equilibrada. Talvez.)

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Filme VIP da semana: "Obrigado Por Fumar", de Jason Reitman

terça-feira, 19 de janeiro de 2010 - 2 Comentários

No final desta semana, estreia um dos grandes favoritos ao Oscar deste ano: Amor Sem Escalas.

O filme já levou o Globo de Ouro de melhor roteiro, desbancando, veja só, Bastardos Inglórios. O autor do roteiro e diretor do filme é o cineasta mais promissor de Hollywood: Jason Reitman, 32 anos e apenas três filmes lançados. Sua grande habilidade é retratar homens que enfrentam dilemas morais. Amor Sem Escalas traz George Clooney como o consultor especializado em demitir gente às pencas. Seu filme anterior, Juno, tratava da adolescente grávida do título, mas também do músico trintão que trocou o rock por jingles publicitários - mas que tem suas recaídas pelo passado juvenil. Nada, no entanto, bate Obrigado por Fumar (2005), a radical estreia de Reitman na direção.

























Obrigado por Fumar é um filme que não está aqui para fazer amigos. Adota como herói um lobista da indústria do tabaco, cuja principal característica, segundo suas próprias palavras, é ter uma "certa flexibilidade moral". Mostra o cara explicando para crianças que cigarros, assim como chocolates, não fazem necessariamente mal - a escolha é delas. Há um humor negro incômodo no ar. E, ainda assim, é um filme inteligente e divertidíssimo.


A graça toda está nas falas do protagonista, o porta-voz dos fabricantes de cigarro, Nick Naylor (numa atuação genial de Aaron Eckhart). Naylor é, por assim dizer, uma força da natureza. Seu negócio é argumentar até convencer as pessoas. É um cínico, mas um cínico assumido. Não vê diferença entre o seu trabalho e o de seus oponentes - ONGs, jornalistas, políticos... Ele vive uma gincana constante, cujo objetivo é levar vantagem a qualquer custo.


















 O diabo é que Nick Naylor é um cara bacana. É competente no que faz, ama o filho, não resiste a uma jornalista bonitinha que lhe dá mole enquanto prepara uma matéria nada honrosa a seu respeito... E é implacável com os otários. Professores primários que empurram verdades absolutas para seus pupilos, políticos oportunistas que querem tirar onda de defensores da saúde, até bem intencionados que irritam pela ingenuidade, todos são alvo da argumentação e do charme infalíveis do herói (aguarde post resumindo seu método de argumentação infalível).


Veja o trailer - com legendas! - de Obrigado Por Fumar!

Em suma, o cara é um gênio. Sabe o que o Romário fazia dentro da grande área? É o que Nick Naylor faz com um microfone, na frente de uma plateia. Espere, isso fica melhor na boca do próprio (ninguém escolhe melhor as palavras do que Nick Naylor): "Michael Jordan joga basquete. Charles Manson mata gente. Eu falo. Cada mundo tem seu dom..."

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Oscar: balanço final

sábado, 28 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Pra começo de conversa: BLOGIE mandou bem na Bolsa VIP de Apostas - acertei 14 Oscars de um total de 17 palpites, 82% de acerto. Os erros foram nas categorias: filme estrangeiro (maior surpresa da noite), melhor ator (Sean Penn realmente mandou muito bem, mas é uma pena não ter sido premiado o Mickey Rourke) e efeitos especiais (eu chutei Batman, mas o vencedor foi O Curioso Caso de Benjamin Button). Motivo de orgulho: há anos não erro os vencedores dos prêmios de melhor roteiro (neste ano, Milk e Quem quer ser um milionário?).

Enfim, um bom resultado. O que, por outro lado, pode significar que a coisa foi um tanto previsível...

O melhor do Oscar são as premiações das estrelas - melhor ator, atriz, principais e coadjuvantes. Neste ano, os discursos mais bacanas foram mesmo os de Sean Penn, Kate Winslet e, principalmente, Penélope Cruz, que encarnou a Audrey Hepburn ao receber seu Oscar.














Sean Penn por cima da carne sêca...


Bacana também foi Hugh Jackman, justiça seja feita. O cara fez um belo trabalho, cantou, dançou, fez piadas e protagonizou a melhor cerimônia dos últimos anos. Trouxe o Oscar de volta aos domínios dos astros de cinema, ao invés de apresentadores de talk-shows.

Quem quer ser um milionário? foi o grande vencedor, oito Oscars, incluindo melhor filme. É mesmo o filme mais cativante do ano, uma celebração de duas horas de duração. Mas tem sido objeto de muito papo-cabeça, muita teoria... um saco.

Erros mais frequentes:

1) "foi premiado um filme de Bollywood". O filme não é indiano, é dirigido por um inglês, Danny Boyle, fiel ao seu próprio estilo - pop, com edição nervosa, colorido. Faz lembrar seu breakthrough movie, Trainspotting;

2) "a premiação desse filme significa uma abertura dos EUA ao mundo etc". Bullshit. O Oscar é só o que é: uma premiação anual de filmes. Já passamos por esse tipo de situação antes - Ghandi, O Último Imperador, A Vida é Bela. Nada disso muda o fato de que Batman - O Cavaleiro das Trevas foi o grande e enorme sucesso de 2008.

Daqui até fevereiro do ano que vem, teremos mais um monte de blockbusters, mais um lote de filmes "sérios" às vésperas do Oscar e, com sorte, um ou outro filme de fora dos EUA chegando a causar alguma repercussão.

O que, cá entre nós, é uma boa fórmula. Eu posso viver assim.

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Curtinhas do Oscar: só o essencial

sábado, 21 de fevereiro de 2009 - 3 Comentários

Passamos o ano todo revirando nossa Vejinhas e Cadernos 2, à procura de um filme decente para assistir. Daí chegam as semanas que antecedem o Oscar, e não damos conta de ver tantos filmes bons.

Se o leitor estiver na dúvida cruel sobre o que assistir antes da cerimônia, que acontece neste domingo à noite, aqui vão as dicas sobre os filmes essenciais, aqueles que realmente estão concorrendo a alguma coisa - e que valem mesmo a ida ao cinema:

















As estatuetas mais cobiçadas do cinema, polidas para serem entregues a mãos milionárias.


Quem Quer Ser um Milionário?

Imagine Cidade de Deus misturado com Uma Linda Mulher. Parece absurdo, mas é disso que se trata: de uma fábula de terceiro mundo, ao mesmo tempo forte e acessível, revelador e inebriante.

A história: um jovem favelado indiano, após ter passado por todas as provações possíveis de um menino pobre de Mumbai, chegar à idade adulta como um improvável participante de um Show do Milhão local, a um passo de ficar milionário. Tudo isso, motivado por um único objetivo na vida: reencontrar o seu amor de infância e viver feliz para sempre.

Quem Quer Ser um Milionário? consegue oferecer, no meio da lama que é a vida real, uma opção de fantasia, um escape bacana, uma redenção barata. É disso que o cinema é feito, e o filme deve ganhar o Oscar principal.


O Lutador:

Filme de macho que comove, O Lutador é o melhor filme do ano, arte em estado bruto, brutal. Não foi indicado para melhor filme, mas é o favorito para melhor ator, devido à atuação da vida de Mickey Rourke. Ele é Randy The Ram Robinson, um lutador de telecatch que viveu seu auge nos anos 80. De lá para cá, perde os movimentos, o dinheiro, a saúde e a clareza de pensamento. Está com problemas cardíacos e sobrevive às custas de um subemprego e de lutas em ginásios vagabundos pelas quebradas dos EUA.


Enquanto tenta repensar sua vida, enxerga duas tênues oportunidades de futuro: reatar com sua filha, negligenciada nos tempos de loucura e que não quer vê-lo nem pintado de ouro; ou se aproximar da stripper vivida por Marisa Tomei, que gosta dele, mas não a ponto de deixar de receber seus trocados por uma lap dance.

O Lutador é sobre aqueles sonhos meio vergonhosos que temos na juventude, e aquela sensação incômoda de "estraguei tudo" que fica pingando ao longo da idade adulta. Todos temos isso. Até o Mickey Rourke tem, e é sorte nossa que ele tenha dividido seu sofrimento conosco.



O Leitor:

O ser humano in natura é despido de qualquer senso de moral ou justiça. É pura matéria, um pedaço de carne atendendo aos seus próprios instintos. Esse é o ponto central do ótimo O Leitor.

A cobaia escolhida pelo autor para comprovar sua tese é a personagem Hanna Schmitz, uma cobradora de bonde alemã que tem um caso com um rapaz de 15 anos durante a década de 50 -e que, anos antes, trabalhara para a SS como guarda de campo de concentração. Kate Winslet, favorita ao Oscar de melhor atriz, faz de Hanna uma pessoa dura, aparentemente estanque a qualquer sentimento, mas, ainda assim, uma mulher - ou melhor, uma fêmea. Seus instintos elegem um rapaz cheio de hormônios e boas intenções, e os dois se entregam a sessões de sexo sem papo mole ou quebra-gelo. Nesses encontros, Hanna também se deleita ao ouvir o menino lendo clássicos da literatura em voz alta.

O Leitor é um dos filmes mais corajosos, ao brincar com o senso de moral e justiça de quem o assiste, fazendo-nos adotar o ponto de vista de uma criminosa de guerra.



Plano B:

Se você já viu os três filmes acima, então vamos para o segundo escalão, mas ainda de alta qualidade!

Entre os outros principais indicados, o mais interessante é Dúvida, com a Meryl Streep, Phillip Seymour Hoffman, Amy Adams e Viola Davis - todos indicados a Oscars!

Milk - A Voz da Igualdade é um ótimo filme de Gus Van Sant, com Sean Penn arrebentando no papel do político militante da causa gay. Vale pelo desempenho do ator.

E O Curioso Caso de Benjamin Button é um bom filme, mas decepciona, pois a promessa era de algo histórico: David Fincher na direção, roteiro baseado em um conto de Fitzgerald, Brad Pitt como protagonista e inovadores efeitos especiais. Mas a coisa ficou como um sub-Forrest Gump. Mas, em se tratando da Academia, tudo pode acontecer. Até a premiação deste filme.


Agora, é dar uma última corrida ao cinema, voltar pra casa, agradecer aos céus pela TNT (pois a Globo, que tem os direitos exclusivos de transmissão do Oscar na TV aberta, preferiu exibir os desfiles das escolas de samba) e assistir à maior festa do cinema.

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Bolsa VIP de Apostas: Oscar 2009

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Sem medo de queimar o filme, aqui vão as previsões de BLOGIE para o Oscar. Não me acuse de previsível, o Oscar geralmente é previsível e a brincadeira, aqui, é tentar acertar os vencedores. BLOGIE afirma, com uns 70% de segurança, que os vencedores serão:

Filme: Quem Quer Ser um Milionário? (acertamos!)

Diretor: Danny Boyle, Quem Quer Ser um Milionário? (acertamos!)

Ator: Mickey Rourke, O Lutador (erramos. Deu: Sean Penn, por Milk - A Voz da Igualdade)

Atriz: Kate Winslet, O Leitor (acertamos!)

Ator Coadjuvante: Heath Ledger, O Cavaleiro das Trevas (acertamos!)

Atriz Coadjuvante: Penélope Cruz, Vicky Cristina Barcelona (esta é a categoria mais equilibrada; Viola Davis, por Dúvida, é favorita - mas, na hora H, acho que a turma vai de Penélope Cruz) (acertamos!)

Roteiro Original: Milk - a Voz da Igualdade (mas meu preferido é Simplesmente Feliz) (acertamos!)

Roteiro Adaptado: Quem Quer Ser um Milionário? (acertamos!)

Filme Estrangeiro: Waltz With Bashir (Israel) (erramos. Deu: Departures, do Japão)

Filme de Animação: Wall-E (acertamos!)


















Cena de Quem Quer Ser um Milionário?, favorito na Bolsa VIP de Apostas para o Oscar.


É isso. Nas categorias técnicas, deposito minhas fichas na fotografia, na edição e na trilha sonora de Quem Quer Ser um Milionário?, na direção de arte e na maquiagem de O Curioso Caso de Benjamin Button, nos efeitos especiais de Batman - O Cavaleiro das Trevas e no figurino de A Duquesa.

Mas mais interessante do que essas coisas técnicas são as apostas que não valem Oscar. Afinal, o assunto menos importante na noite do Oscar é cinema. O que o povo quer saber é de tapete vermelho, quem está mais brega, quem está mais bonita etc. Agora entra a verdadeira Bolsa VIP de Apostas para o Oscar:


A mais gostosa no tapete vermelho: Angelina Jolie.

Ela, que não se sai muito bem nesse negócio de escolher um roteiro e declamá-lo na frente de uma câmera, é a rainha do tapete vermelho. Não tenha dúvida: ela será a aparição mais deslumbrante daquele desfile de estrelas antes da cerimônia.


O discurso mais patético: Kate Winslet.

Kate não é boa de improviso. Em 98, quando de sua primeira indicação ao Oscar, por Titanic, ela não conseguiu disfarçar seu despeito pela vencedor Helen Hunt (Melhor é Impossível). Anos depois, ela continua falando bobagem em discursos e premiações, pois o fato é que ela fica nervosa demais. Foi assim no Globo de Ouro, vai ser assim no Oscar. Pode esperar.


O momento choradeira: a vitória póstuma de Heath Ledger como ator coadjuvante.

O papo que rola é que o Oscar ficará com a filhinha de Heath e tudo mais. A dúvida é se a moçada vai apelar feio e botar a criança no meio do circo ou se se manterá a compostura, optando por uma coisa mais respeitosa e singela.


O Grande Momento: Mickey Rourke subindo ao palco pra receber seu Oscar de luto... por seu cachorro!

Mickey Rourke anda dizendo por aí que seus cachorros são os únicos amigos que ele teve enquanto brincava na lama do fundo do poço e tal. Seu preferido era uma chiuaua de dezoito anos, que morreu ontem, às vésperas da cerimônia. Não tenha dúvida: deve ser um espetáculo ver um homem de 56 anos, de rosto desfigurado e vestido como o Capitão Jack Sparrow, derramando lágrimas por um bichinho de olhos esbugalhados, enquanto recebe um Oscar.


A melhor razão para você sentir vergonha alheia: Hugh Jackman como mestre de cerimônias.

Parece mentira, mas o ator australiano será o mestre de cerimônias do Oscar. Se isso já não fosse estranho o bastante, as notícias que vão vazando aumentam o medo: diz que ele vai dançar com Beyoncé Knowles e o casalzinho de High School Musical. Algo me diz que vou me divertir muito com a cerimônia de domingo.

E você? Quais são seus palpites para o Oscar? Mande seus comentários!

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Crítica: "Quem Quer Ser um Milionário?", de Danny Boyle

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009 - 2 Comentários

Resumindo tudo em uma frase: o cinema foi inventado para proporcionar momentos como as duas horas de Quem Quer Ser um Milionário?, de Danny Boyle. Ou melhor: é por ocasiões tão agradáveis quanto esse filme que a vida vale a pena.

Dito isso, fica clara a opinião deste blogueiro: Quem Quer Ser um Milionário? é o melhor filme do ano e, se houver justiça no mundo, deve ganhar o prêmio máximo do cinema na entrega dos Oscars, no próximo domingo, em Los Angeles.

Para poder conferir antes do Oscar, há poucas chances: com estreia marcada para 6 de março, o filme terá poucas sessões, como pré-estreia, a partir desta sexta-feira.

Qual a razão de tanta babação?


1. Um roteiro matador, de lavar a alma.

Imagine Cidade de Deus misturado com Uma Linda Mulher. Parece absurdo, mas é disso que se trata: de uma fábula de terceiro mundo, ao mesmo tempo forte e acessível, revelador e inebriante, para agradar a críticos chegados num papo-cabeça e à grande massa.

Quem quer ser um milionário? é a história de um jovem favelado indiano que, tal qual um Forrest Gump da pobreza, passa por todas as provações possíveis de um menino pobre de Mumbai, escapando de cada perigo até chegar à idade adulta, quando se vê como participante de um Show do Milhão local, a um passo de ficar milionário.

Tudo isso, motivado por um único objetivo na vida: reencontrar o seu amor de infância e viver feliz para sempre.

A mágica é transformar essa proposta improvável em uma obra-prima.

É isso que faz Danny Boyle.


O trailer simplesmente não é suficiente, mas é o que se tem à mão...


2. Uma direção irretocável.

Depois de Trainspotting, Danny Boyle nunca mais confirmou a promessa de seu talento. Por uma vida menos ordinária e A Praia foram decepcionantes.

Mas aí ele aparece com um filme cheio de atores indianos, com esse roteiro maluco e pop, e comanda um balé de violência, ação e fantasia, num dos cenários mais duramente reais do cinema recente: as quebradas de Mumbai, na Índia.

Há a clara influência de Cidade de Deus, na edição, nas cores, no ponto-de-vista adotado (de um jovem trabalhador que, meio por sorte, meio por valores, escapa quase intacto dos perigos e dos inevitáveis contatos com o crime organizado). Tem gente dizendo por aí que é cópia e tal, mas quem se importa? Entendo mais como uma homenagem ao filme brasileiro.














Jamal,mesmo na merda, nunca perde a esportiva.

O que interessa é que Boyle transformou Quem Quer Ser um Milionário? em uma festa. A vontade, enquanto aparecem os créditos em meio ao elenco do filme dançando uma estranhíssima coreografia parecida com Thriller, é de se levantar e bater palmas, como se os responsáveis pelo filme estivessem ali.


3. Atores sensacionais.

O trio protagonista é formado por: o tal do rapaz do Show do Milhão, Jamal; seu irmão seduzido pelo mundo do crime, Salim; e o interesse amoroso de Jamal, Latika. Eles são vividos por três trios de atores, durante a infância, a pré-adolescência e o início da fase adulta. E todos os nove atores envolvidos são sensacionais.

Os melhores são mesmo os infantis, com seus olhos arregalados e sua graça irresistível. Mas o Jamal adulto, Dev Patel, é um cara carismático. E, acima de tudo, tem Freida Pinto, a Latika adulta.


3. Freida Pinto, a novidade do ano.



















Sendo direto: que gata. Boyle teve o cuidado de incutir a visão de Freida Pinto, como Latika, em amarelo, na nossas mente. O flash se repete algumas vezes ao longo do filme, e continuará pingando na memória de qualquer cara que tenha algum interesse em mulher. A beleza de Freida, acredite, é ingrediente importante para o sucesso do filme - afinal, Jamal tem que ter uma boa razão pra enfrentar tanta roubada por tanto tempo, movido por uma verdadeira obsessão pela menina.


4. Cinemão assumido.

A última coisa que qualquer um ainda quer ver são esses filmes pesados sobre uma miséria desgraçada e sem esperança. Um Walter Salles só no mundo já está bom.

Quem Quer Ser um Milionário? consegue oferecer, no meio da lama que é a vida real, uma opção de fantasia, um escape bacana, uma redenção barata. É disso que o cinema é feito, amém.

Por isso, no domingo, Danny Boyle subirá ao palco do Kodak Theatre para receber o seu merecido Oscar de melhor filme.

E, se o resultado for diferente... que se dane a Academia.

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