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Mudam as moscas...

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010 - 1 Comentários

Pauline Kael, provavelmente a mais famosa crítica de cinema do mundo, escreveu um artigo na revista New Yorker chamado Por que os filmes são tão ruins?. Reproduzo abaixo um trecho:

"As plateias foram tão corrompidas pela televisão, e ficaram tão exaustas, que só querem emoções ruidosas, piadas estúpidas e imagens que se mexam de uma maneira não exigente, pra que possam ficar sentadas e reagindo ao nível mínimo do motor. E há muitos indícios, como o sucesso de (e aqui, entra o nome da última produção de James Cameron). Era um filme de casa mal-assombrada, com gorila, passado no espaço cósmico. Estendia as mãos, agarrava-nos, apertava-nos a barriga; era mais ataque que divertimento, mas muita gente não se importou. Acharam-no sensacional, porque finalmente sentiam alguma coisa; tinham sido brutalizados."

Bem, o texto acima foi escrito por Kael em 1980, sobre o filme Alien, o Oitavo Passageiro. 

Mas não parece que está falando de outro filme de Cameron, muito mais recente, que chacoalha o expectador até ele se sentir finalmente entretido?

Como se vê, a discussão sobre o talento do diretor de Avatar, Titanic, O Exterminador do Futuro e da série Alien não é de hoje. Mas permanece atual, como fica claro na bela matéria de João Gabriel de Lima, na Bravo! deste mês. Ele mostra como Hollywood sempre se apoiou em duas tradições - de um lado, os filmes de imagens espetaculares, e de outro, os baseados em diálogos e roteiros bem pensados; de um lado, Star Wars e Avatar; de outro, Casablanca e Amor Sem Escalas.

Pode ser. Mas gosto mesmo é de quando as duas coisas são misturadas e apresentadas num pacote perfeito, como em O Poderoso Chefão, Touro Indomável e ... E o Vento Levou.

Para quem quiser saber mais: é possível encontrar o livro Criando Kane, de Pauline Kael, numa boa livraria (a edição mais recente, da Editora Record, é de 2000). Há ótimos e complexos ensaios sobre Cidadão Kane, Bonnie and Clyde, jovens que conhecem os clássicos do cinema pela TV e sobre o impacto dos jovens diretores barbudos dos anos 70 (Scorsese, Spielberg, DePalma, Altman, Lucas...) em Hollywood. Um baita livro, que uso meio como "minutos de sabedoria" - de vez em quando, abro num ponto qualquer e dou uma lida nas ideias da mulher.

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Estreia: "Avatar", de James Cameron

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009 - 6 Comentários

O grande evento cinematográfico do ano já foi eleito: trata-se de Avatar, o novo filme de James Cameron (sua última empreitada foi Titanic, há doze anos!). O filme, que estreia nesta sexta-feira, está sendo lançado com enorme alvoroço e amparado por uma campanha gigantesca, que inclui jogos de realidade aumentada, lançamento de celulares equipados com conteúdo exclusivo do filme e bonequinhos do Mc Lanche Feliz.

Tanto barulho se justifica: Cameron, megalomaníaco assumido e incorrigível, já foi de Alien a Exterminador do Futuro a O Segredo do Abismo a Titanic, aumentado o orçamento dos seus filmes de 100 em 100 milhões de dólares... e conseguindo sucesso em todos. Em Titanic, tornou-se oficialmente "rei do mundo" e passou a investir em seu novo brinquedinho: uma saga inteiramente filmada em 3D, com atores reais sobrepostos por imagens digitais (aquela tecnologia conhecida como "realidade digital"). O projeto se chama Avatar, e seu longo período de gestação passou pelo desenvolvimento de novas câmeras, novos monitores, novas técnicas de animação... enfim, lembra aquele papo do George Lucas quando do lançamento de Star Wars - Episódio I - "só agora há a tecnologia necessária para a realização de algo deste porte" -, só que agora é sério.



















James Cameron volta a atacar - agora com artilharia pesada.

Tive a oportunidade de assistir a Avatar em uma das duas cópias para I-Max no Brasil: tela gigante, 3D envolvente, som de show de heavy metal. E posso atestar que, de fato, o filme tem potencial de se tornar um grande marco na história da evolução do cinema - da mesma maneira que O Cantor de Jazz causou furor nos anos 20 por inaugurar a era do cinema falado, ou que O Mágico de Oz encantou no final da década de 30, ao imprimir cores ao filme, Avatar sinaliza o caminho que o cinema do futuro vai percorrer, enterrando a "velha" tecnologia do filme "chapado", tão facilmente reproduzida nas salas de TV da classe média.

No entanto, devo ponderar que, assim como O Cantor de Jazz - e ao contrário de O Mágico de Oz -, os méritos de Avatar param por aí. Não se trata de um filme que vá além dos méritos técnicos. Em diversos momentos, fica claro que seu realizador está mais preocupado em tirar vantagem das possibilidades do 3D do que em tocar a história pra frente. É um tanto incômodo, passando uma impressão daqueles filminhos promocionais que passam nas TVs de última geração expostas nas Fast Shops da vida. 

O roteiro do filme é uma cópia não muito inspirada de O Retorno de Jedi - um jovem soldado mais curioso do que inteligente é o "escolhido" pela misteriosa força da natureza que rege um mundo exótico, habitado por criaturas perigosas e esquisitas; ele se envolve com a turma do bem e com a turma do mal, opta pelo lado do bem e, com a ajuda das criaturas da floresta, acabará evitando que o exército do mal cause um enorme estrago no mundinho em questão. Desculpem por resumir a coisa dessa maneira, mas não é nada que não se perceba logo nos primeiros dez minutos de filme.

As pequenas diferenças: o jovem soldado, Jake Sully, é paraplégico. Por uma coincidência - seu irmão gêmeo, morto há pouco tempo, era um cientista renomado, e o fato de terem DNAs idênticos o habilita a ser escalado para a missão do irmão -, vai parar no planeta Pandora, um ambiente pra lá de inóspito, dada suas condições não adequadas para a respiração de humanos e sua fauna um tanto dada à violência.

O projeto do qual Jake fará parte é muito louco: ele se deita em uma câmara parecida com aquelas de bronzeamento artificial, e seu ser é totalmente transferido para o corpo gestado em laboratório de um "avatar" de aparência compatível com os nativos Na'vi - uns caras azuis de três metros de altura, com rabo e nariz achatado de boxeador. A aparência dos Na'vi motivou os mais maldosos a compararem Avatar com "a reunião de família do Jar Jar Binks", do já citado Episódio 1 da série Star Wars.
















Não compare os Na'vi com Jar Jar Binks, que eles ficam bravos.

As motivações do protagonista - entender a "Força", lutar pelo bem de um povo mais fraco, amar sua nativa azul - são um tanto previsíveis. Os episódios que ele vive não são mais inusitados. E assim, com poucas surpresas - e com a tradicional mão pesada de Cameron nos diálogos -, seguindo o esquema convencional de aventura das matinês do George Lucas, Avatar avança suas mais de duas horas de duração e chega ao final.


Veja o trailer de Avatar!

Cabe aqui uma observação sobre meu estado físico ao longo da sessão: um enjoo, daqueles que se sentem em barcos balançando no mar, bateu forte no meio do filme e tive que passar alguns minutos sem os óculos gigantes, respirando fundo e de olhos fechados. Essa sensação, após mitigada, deixou como herança uma dor de cabeça que ainda lateja na cabeça deste blogueiro. Posto que não se trata de falta de hábito na sala de cinema (só faltava essa), divido a culpa entre James Cameron, com seu competente 3D, e a sala I-Max, com seu gigantismo sufocante. Depois de uma hora enfiado nos desfiladeiros de Pandora, ou pulando de árvore em árvore, parecia que era eu quem tinha sido transferido para o enorme corpo azul do avatar de Jake Sully. Acho que James Cameron ficaria feliz com essa observação.

Mas eu, cá no meu canto, já recomposto por dois Neosaldinas e um Dramin, respiro aliviado e aguardo ansioso pelo próximo filme "convencional", quem sabe o novo Woody Allen.

Resumo da ópera: Avatar é um evento incontornável, é a História acontecendo na nossa cara. Deve ser visto, deve ser admirado, renderá uma baita grana para seu criador talentoso e excêntrico, ganhará até uns Oscars nas categorias técnicas. Mas dificilmente será seu filme preferido.

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