Filme VIP da semana: "Jerry Maguire", de Cameron Crowe
quinta-feira, 22 de abril de 2010 - 2 Comentários
Antes que o leitor calcule ter caído no lugar errado, esclareço: não, aqui não é o site da Claudia ou da Nova. Aqui é o espaço de cinema no site da VIP, mesmo.
Esclarecimento feito, peço ao leitor que baixe a guarda e reconheça: Jerry Maguire, aquele filme que sua namorada/esposa adora, é um baita filme de macho, e todo homem tem muito a aprender com ele.
A aura de "filme de mulherzinha" (chick flick, nos EUA) foi conferida pela presença de Tom Cruise, entre mil sorrisos e aquelas falas que foram incorporadas no imaginário feminino ("você me completa", "você me ganhou no 'oi'', "isso não é um vestido; é um filme da Audrey Hepburn!"...). Mas isso é só a superfície.
Tom Cruise vai suar a camisa pra mostrar a grana pra você.
Era só uma declaração de intenções!
Jerry Maguire é um agente esportivo - aquele cara que, no Brasil dos boleiros paupérrimos e recrutados nas peneiras mais toscas da vida, é um malandro barrigudo e aproveitador chamado toscamente de "empresário". Na versão americana, o agente esportivo é um cara altamente profissionalizado, de fino trato, de habilidade verbal imbatível e aparência irretocável. Defende jogadores milionários e inteligentes, gerenciando suas carreiras, entre renovações de contratos, aparições em campanhas publicitárias e, eventualmente, enfrentamento de crises. E o rei dos agentes esportivos é Jerry Maguire, o auto-intitulado "rei da sala de estar".
Acontece que a ficha de Maguire caiu. E bateu pesado. Sua vida de voos em classe executiva, quartos de hotel, coletivas de imprensa e mulheres maravilhosas finalmente lhe pareceu vazia. Profissionalmente, sumiu a graça em arrancar até a última gota de suor dos seus clientes - gladiadores modernos que literalmente se matam para ganhar cada bônus, para aproveitar cada momento e garantir o pé de meia. Maguire entende que está explorando os esportistas, e que falta humanidade no negócio. Febril, insone, se põe a escrever o que lhe vem à cabeça.
Na manhã seguinte, cada funcionário da empresa onde trabalha recebe uma cópia da brochura "Coisa que Pensamos e que Não Falamos". Um memorando? Um manifesto? "Uma declaração de intenções", esclarece o agente. O conteúdo da brochura pregava a reinvenção do negócio de gerenciamento da carreira de esportistas, com atendimento mais do que personalizado: humano. Interesse nas pessoas. Menos clientes por agente. Menos dinheiro. Recuperar aquele sentimento de quando se iniciou a carreira. Coisas que pensamos e que, por constrangimento de parecer ingênuos demais ou simplesmente idiotas, evitamos falar.
Esta é o detonador do grande conflito do filme. Enquanto Maguire esteve por cima, vencedor de peito estufado, todos o admiravam. Sua bela noiva (Kelly Preston) era uma máquina de sexo. Seus amigos o amavam. A partir do momento em que sua pequena crise pessoal veio à tona - através da sua "declaração de intenções" -, tudo desmorona. A noiva lhe dá o fora (depois de aplicar-lhe um nocaute e de chamá-lo de "loser"), os amigos somem e o emprego, bem, o que você poderia esperar depois de ele pregar o fim do modus operandi que deixou a empresa rica? Maguire foi pra rua.
O Jardim Secreto
A partir daí, cresce no filme a adorável figura de Reneé Zellweger (então, uma loirinha novinha e linda, bem diferente da estranha mulher que encheu as bochechas de botox até ficar idêntica à sua estátua de cera no museu Madame Tusseau). Ela é Dorothy Boyd, contadora da empresa secretamente apaixonada por Maguire. Dorothy cai na lábia desesperada e levemente desastrada de Maguire na sua despedida, e se torna sua primeira - e única - funcionária na nova empreitada do agente. Ele tem um único e não tão fiel cliente - Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., no papel que lhe valeu o Oscar de melhor ator coadjuvante), um jogador de futebol americano mediano, de bom potencial e péssima atitude. Nada muito promissor.
Frases de efeito, escadas cômicas eficientes uma câmera amiga: o casal perfeito da comédia romântica
Maguire, finalmente despido de todo o glamour e aparato, terá que aprender a desenvolver relacionamentos de verdade - com seu cliente (e futuro amigo) e com sua funcionária (e futura namorada). Sua dificuldade em criar intimidade é o xis da questão, e uma descida ao fundo do poço pode ser a solução.
No meio do caminho, mil situações engraçadíssimas, saídas do vasto repertório de piadas de Cameron Crowe, fiel seguidor de Billy Wilder (acredito, inclusive, que as rápidas cenas em que aparece um velhinho tido como mentor de Maguire, são inspiradas na série de entrevistas que Crowe conduziu com o velho mestre: Wilder era mestre em frases de efeito e mandamentos para a obtenção do roteiro perfeito).
E o afeto que vai sendo criado entre Maguire e Dorothy (e seu filho engraçadinho, um pirralho de quatro ou cinco anos em atuação inspirada) é realmente tocante, porque é construído sobre erros, movimentos equivocados e bases frágeis. Uma transada antes da hora, uma evolução do relacionamento meio fora de controle, um casamento um tanto prematuro - e uma crise mais melancólica do que apimentada. No entanto, é justamente enquanto tudo dá errado que a força da companhia de Dorothy cresce em Maguire. A trilha sonora perfeita para essa afeição crescente é a canção Secret Garden, do Bruce Springsteen. A melodia, a letra e o solo de sax vão envolvendo o espectador de tal maneira que, após quatro minutos, somos Jerry Maguire. Não dá pra explicar. É um estado de espírito.
Talvez o vídeo abaixo, que traz cenas do filme e a letra de Secret Garden, faça melhor o trabalho:
O final, com sua redenção esportiva e seu final feliz romântico, é perfeitamente adequado para as pretensões comerciais de um filme desse porte. O texto de Crowe, no entanto, nunca cede ao brega e à solução mais fácil. É um dos roteiros mais classudos do cinema contemporâneo.
O filme fez um sucesso estrondoso, foi indicado para uma penca de Oscars e, até hoje, é considerado a melhor atuação de Tom Cruise. Cameron Crowe ganhou carta branca para fazer o que lhe desse na telha (e daí resultaram Quase Famosos, com o qual ganhou Globos de Ouro e um Oscar, o estranho e genial Vanilla Sky e, mais recentemente, Elizabethtowm, que gastou um pouco seu crédito).
Se algum dia a encruzilhada profissional te pegou de jeito, ou se um relacionamento evoluiu de uma maneira não exatamente planejada por você - e se você já se sentiu sufocado por uma vida que escapou à sua idealização bem intencionada -, este é um filme a que você precisa assistir.
Se não sofreu nada disso, sofrerá um dia. E Jerry Maguire lhe será uma ótima companhia.
P.S.: e há, claro, a cena do "show me the money!", que valeu o Oscar pro Gooding Jr. E há aquele uso especial de clássicos do rock como Magic Bus, do Who, Free Fallin, do Tom Petty, e Bitch, dos Stones
Marcadores: Cameron Crowe, cinema, comédia, Jerry Maguire, Oscar, Tom Cruise
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2 Comentários:
Olá!
Meu nome é Douglas Santos e trabalho na agência publicitária Núcleo da Idéia Comunicação. Gostaria de um e-mail para que possamos entrar em contato direto. Por favor, envie para mkt9@nucleodaideia.com.br
Aguardo resposta e agradeço pela atenção.
22 de abril de 2010 às 14:04
Filmaço, sempre que passa (e não são poucas vezes) assisto.
22 de junho de 2010 às 00:44
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