Estreia: "As Melhores Coisas do Mundo"
quarta-feira, 21 de abril de 2010 - 1 Comentários
"Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce; só é um pouco mais complicado." (Mano)
Se você é um dos dois milhões que já foram prestigiar o Chico Xavier recebendo aquele estranhíssimo espírito Emanuel no filme-evento brasileiro do ano, faço-lhe um apelo: vamos dar uma equilibrada nas coisas e dar uma força para o lado do bem. Vá ao cinema e confira o também brasileiro As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanski.
As Melhores Coisas do Mundo: um filme teen livre de cinismo - um achado!
O filme é uma pequena joia sobre o que é ser adolescente hoje. A rigor, é um filme de high school, só que uma high school diferente - e bem brasileira. Nada de tortas de maçã e super-colas: aqui, o treino da molecada é com prostitutas caidaças. Intercambistas húngaras ninfomaníacas? Não, mocinhas tão tolas quanto os rapazes, e que não sabem direito o que fazer com o poder que têm de escolher os namorados. E uma turma que é capaz de, ao mesmo tempo, praticar humilhações muito mais selvagens do que as do Stiffler - e de ações afetuosas e completamente despidas de cinismo. A sensação que se tem ao sair da sessão de As Melhores Coisas do Mundo é a de ter voltado para o colégio e rejuvenescido alguns bons anos.
O mérito vem da ótima matéria-prima - a série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto -, da direção soberba de Bodanski (que mergulhou no universo teen por meses antes de rodar o filme) e do elenco absolutamente excepcional. As palavras saem naturais, cheias da malandragem e das manias da molecada, devidamente moldadas na sintaxe que lhes é peculiar. Se o protagonista, Mano, confessa para Carol, sua melhor amiga, que transou com uma loira que vários caras já pegaram, a reação de Carol é entediada: "que tosco!", comenta a amiga. Quando Mano e seu irmão mais velho, Pedro, descobrem que o pai largou a mãe para ficar com um homem, a primeira ficha que cai é a do caçula: "Pedro, se essa história do papai vazar na escola, a gente tá fudido."
Ou seja, no roteiro de Luís Bolognesi não há espaços para racionalizações "cabeça" do universo juvenil ou diversão fácil e estereotipada. As Melhores Coisas do Mundo é uma volta de montanha-russa pela adolescência, com todas suas inconstâncias, novidades e descobertas. "O inferno é aqui", explica Mano ao pai gay ao pedir seu distanciamento. Mas, em outro momento, ele conclui que a felicidade na adolescência é algo tangível (frase que serve de epígrafe para este post).
O trailer - ao optar a tentar mostrar algo mais épico e estereotipado - não faz justiça ao filme, mas ainda assim é bacana. Já o filme é dez!
O motor da história é a difamação - o esporte preferido dos colégios Brasil afora. Fofocas, acusações, fotos comprometedoras correm pelos celulares em poucas horas - e a vida pode se tornar subitamente insuportável. De difamação em difamação, cada um vai aprendendo sua lição ou aproveitando sua oportunidade. Pode não ser o melhor caminho para crescer, mas é um caminho. A denúncia dessa cultura da humilhação (o tal do bullying) é também o que dá um tom meio indesejável de "moral da história", mas não chega a comprometer, tal a honestidade que transpira de cada cena.
Uma curiosidade interessante é a presença de arquétipos de figuras paternas para Mano em todo o filme. Além do pai distante, temos: o professor de violão (Paulo Vilhena), um camarada de trato fácil, tranquilo e capaz de entender o aluno profundamente (talvez por ter mantido o espírito jovem); o professor de física (Caio Blat) por quem a Carol se apaixona - um cara que, ao invés de ser um comedor de criancinhas, tem por baixo da superfície uma necessidade muito grande de se manter jovem; e o irmão mais velho (o tal do Fiuk - filho do Fábio Jr. -, o galã do momento), Pedro, mergulhado na mais profunda melancolia juvenil - é o herói trágico do filme, encarnando um Baudelaire ou Jim Morrison moderno, cheio de poesias simbolistas de um astral capaz de fazer o Robert Smith, do The Cure, cortar os pulsos. Em momentos diferentes, Mano busca o suporte de todos eles - e é o apoio deles também, pois é ele que injeta de volta nos caras a centelha de vida e adolescência que tanto buscam.
Por fim, há o protagonista, o estreante Francisco Migues, no papel de Mano, e outra novata, Gabriela Rocha, no papel do inevitável interesse romântico de Mano, Carol: dois jovens atores cheios de carisma, angústia e euforia evidentes e naturais, responsáveis por todo o frescor do filme. Gabriela, por sinal, não terá problemas para dar sequência à carreira que inicia - bonita e talentosa, encontrará seu espaço nas novelas da Globo logo, logo.
As Melhores Coisas do Mundo são, a rigor, a listinha de coisas que recheiam o caderninho que Carol carrega pra cima e pra baixo. O caderninho é o rascunho da própria história do filme. E esta é a história da cruzada pessoal de um rapaz contra o bullying na sua escola; ou de seu namorico inexorável com a melhor amiga; ou de sua longa jornada aprendendo a tocar Something, dos Beatles, no violão. Sua evolução é exibida sem pressa, e a canção vai ganhando contornos mais seguros, até ele ter pra quem tocar uma canção tão especial.
Para um velho beatlemaníaco como este blogueiro, é mesmo uma das melhores coisas do mundo.
Marcadores: As Melhores Coisas do Mundo, cinema, estreia, filmes, Fiuk, Gabriela Rocha, Mano
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1 Comentários:
Vi o filme alguns dias atrás e axei otimo, igual vc disse vc sai do cinema alguns anos mais novos, vendo cada cena do filme me trouxe de volta a adoslencia! filme altamente recomendavel
2 de maio de 2010 às 22:17
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