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Estreia: "Coração Louco", com Jeff Bridges

quarta-feira, 3 de março de 2010 - 2 Comentários

Todos já vimos filmes sobre velhos cantores country enfrentando seus demônios deixados como herança de uma vida de excessos, ao mesmo tempo em que buscam sua dolorida e agridoce redenção. São histórias de gente ficítica, como o Honkytonk Man de Clint Eastwood (1982), ou gente real, como o Johnny Cash de Joaquin Phoenix em Johnny & June (2005). O filme é mais ou menos o mesmo, variando a classe do diretor e o carisma do ator principal.

Talvez por esse desgaste do tema, Coração Louco, filme de estreia do diretor Scott Cooper (que também é ator), tenha sido ignorado nas indicações às principais categorias do Oscar. A saga de Bad Blake, cantor country que teve melhores dias, e que hoje se arrasta tocando em espeluncas, enquanto assiste à ascensão de um ex-pupilo ao estrelato, é aquela coisa de sempre - a degustação do fracasso, uma garota que o motiva a se limpar, a luta contra o vício... tudo aquilo que já transformou o enredo em um sub-gênero de Hollywood.

Mas uma coisa ninguém, nem a Academia, pode ignorar: o desempenho de Jeff Bridges como Bad Blake. Bridges, virando os sessenta anos, encarna o fracasso de uma maneira realmente dolorida. Seu corpo, seu cabelo, sua voz, seus maneirismos, tudo é mais crível do que todas as tentativas anteriores, incluindo o Cash de Phoenix e até o Ray Charles de Jamie Foxx. De quebra, Bridges toca e canta de verdade no filme, mostrando que tem talento como músico também. Indicação garantida para todos os prêmios e favoritismo total para o Oscar de melhor ator. Ninguém vai dizer que não foi merecido.





















Jeff Bridges canta, toca, bebe e arrebenta como Bad Blake.


Outro ótimo trabalho é o de Maggie Gillenhaal, como a jovem jornalista que é fã de Blake e que, a partir de uma entrevista, cai nos "encantos" do veterano (barrigudo, com uma garrafa de uísque a tira-colo, derramado numa poltrona caindo aos pedaços). Ela consegue excluir tudo o que vem de brinde no pacote, restringindo-se ao essencial: o talento de Blake como compositor. Em uma cena particularmente tocante, ela se emociona ao assistir ao velho compondo dois versos da canção que, mais tarde, já fora da tela, se tornará uma indicada ao Oscar: The Weary Kind, que traz em seus versos a expressão que dá nome ao filme.

As músicas - especialmente The Weary Kind - são uma atração à parte. Obra de T-Bone Burnett, devidamente reconhecida com indicações e prêmios.

E ainda há um certo fascínio pelo universo do lado B da música pop: a música country americana movimenta um mercado muito maior do que aquele que muitas vezes, nas metrópoles, elegemos como mainstream. Isso é exibido com orgulho caipira pela câmera de Cooper, que elege o rosto adequado de Colin Farrel como uma estrela country capaz de fazer turnês gigantes pelos EUA. É ele o pupilo de Blake que ultrapassou em muito a fama do mentor - e com quem haverá algumas contas a acertar.

De resto, bela fotografia, seja de ambientes externos de deixar qualquer um boquiaberto - como a do concerto ao ar livre na cena final -, seja em ambientes internos escuros e tristes, como o da casa de Bad Blake ou o velho bar do seu camarada, vivido por Robert Duvall (um gênio numa atuação pequena e marcante).

OK, fui mudando de opinião ao longo deste post. Descubro junto com o leitor que gostei demais de Coração Louco. Veja o trailer e cheque se é sem motivo:


Infelizmente, o cara que está cantando no trailer não é o Jeff Bridges. Já no filme é ele que canta, numa interpretação muito mais pungente.

Somado tudo, temos um ótimo filme, com elenco excepcional e uma atmosfera terna, confortável como uma calça velha e uma bota amaciada. E um desempenho antológico de Jeff Bridges, que provavelmente ganhará seu primeiro Oscar depois de cinco indicações (a primeira, mal saído da adolescência, foi em 1971, por A Última Sessão de Cinema).

Coração Louco entra em cartaz na sexta-feira, dia 05, e merece ser visto ainda antes do Oscar. Corra!

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