Uma espiada no mundo feminino: "Julie & Julia"
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010 - 7 Comentários
Meryll Streep ganhou mais um Globo de Ouro por sua participação em Julie & Julia. Isso me motivou a dar uma checada no filme, que já entrou e saiu do cinema. Eu vinha evitando a empreitada, com medo do que encontraria - a diretora, Nora Ephron, vem descendo a ladeira na carreira... vejamos: ela escreveu Harry & Sally, a melhor comédia romântica desde o surgimento do Woody Allen; depois dirigiu o ótimo Sintonia de Amor; daí veio o mediano Mensagem Para Você; e chegamos a esta década, com o tenebroso A Feiticeira.
Julie & Julia, no entanto, foi bem recebido. Com Meryl Streep à frente do elenco, como Julia Child, uma grande estrela da culinária na TV, não dava mesmo pra passar despercebido. As críticas foram unânimes, dizendo que o filme é bom, dá vontade de comer, Meryll é o máximo, etc, etc etc - aquela história toda. Ressaltaram que o problema do filme é que a metade da Julia - com Meryll - é muito mais interessante do que a metade da Julie - a moça que, já nesta década, mantém um blog onde relata suas experiências pilotando o fogão sob as ordens das receitas de Julia Child. Aí é que eu entro na conversa.
Eu achei a personagem Julie, contemporânea, com algum talento, inquieta, atormentada pelo medo de ser um fracasso, muito mais interessante do que a Julia de Meryll Streep (que é uma caricatura da original; uma caricatura muito bem feita, mas uma caricatura). Julie é interpretada por Amy Adams, uma das preferências declaradas de BLOGIE. Uma atriz talentosa, carismática, contida (não apela para histrionismos ou caras e bocas) e bonita.
A Julie de Amy Adams é uma angústia só, uma mulher desesperada buscando algum reconhecimento de que tem talento, de que tem futuro, de que serve para algo. Tudo em sua vida indica o contrário: o apartamento suburbano trash, o marido conformista, o emprego deprimente. Quando encontra uma via para expressar alguma individualidade - a sacada de escrever o tal blog -, se agarra nisso com obsessão: nenhum senso de medida e entrega absoluta. Um personagem muito interessante, com boa profundidade e com quem qualquer um - repito, qualquer um, mesmo os homens - pode se identificar. Trata-se de alguém que tem parentesco com a Scarlett Johansson em Encontros e Desencontros, com o Tom de 500 Dias com Ela, com a Anne Hathaway de O Diabo Veste Prada (outra que serviu de escada para Meryll...).
Amy Adams como Julie: um personagem que capta o espírito dos nossos tempos.
Este blogueiro, por exemplo, identificou em si mesmo atitudes constrangedoramente similares às de Julie, em parte pela típica inquietação dos tempos atuais - muitos wannabes, dificuldade em separar o joio do trigo -, em parte pelo contexto de vida - jovem de classe média remediada chegando à meia-idade e precisando encontrar logo o que vai fazer "pro resto da vida" (e que seja algo que o transforme em "alguém"!) -, e em parte porque gente é gente mesmo.
Resumindo, achei muito mais interessante a parte do filme que todo mundo julgou boba. Vai entender.
(Desconte o efeito Amy Adams sobre o blogueiro e talvez cheguemos a uma opinião mais equilibrada. Talvez.)
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