Blogie - Cinema na VIP

Estreia: "Tudo Pode Dar Certo", de Woody Allen

sexta-feira, 30 de abril de 2010 - 6 Comentários

Há momentos na vida em que se deve abraçar seus valores. Há a coisa certa a ser feita e a coisa que lhe dá mais prazer. E não dá pra ignorar o valor de fazer o que lhe dá prazer. É por isso que, nesta sexta-feira em que estreia Homem de Ferro 2, com Robert Downey Jr., Scarlett Johansson e Gwyneth Paltrow (e com trilha todinha do AC/DC!), BLOGIE escolhe falar de outra estreia: Tudo Pode Dar Certo, novo filme de Woody Allen.


















Jamais subestime um novo Woody Allen - meu mandamento número 1 da cinefilia.


(Não que eu veja problemas no Homem de Ferro 2 - pretendo conferir o longa ainda neste final-de-semana, e terei prazer em dividir minhas impressões com o leitor.)

Tudo Pode Dar Certo, pra começar, é mais um caso de título mal adaptado para o português. O título original, Whatever Works, é a base da filosofia de vida do protagonista, Boris, um acadêmico brilhante e absolutatmente infeliz com o funcionamento do Planeta dado pela humanidade. Boris acredita que o ser humano estraga tudo, e suas aspirações e expectativas jamais serão atendidas plenamente. Casamento, carreira, dinheiro, sexo, amigos, arte - nada é capaz de trazer a felicidade. Então, cada um que se agarre àquilo que funcione na sua vida (whatever works, ou "qualquer coisa que funcione"). A tradução traz consigo um otimismo que não existe no filme.

Aliás, otimismo é tudo a que este novo Woody Allen se opõe: Boris é o cético definitivo. Não acredita em nada; abandonou sua carreira de físico indicado ao prêmio Nobel; pulou fora do casamento com uma mulher linda, inteligente e rica; tentou se matar e deu errado; impaciente, ganha a vida dando aulas de xadrez para crianças; passa os dias xingando seus amigos de imbecis e cretinos, enquanto desfila seu amargo discurso pelas ruas de Nova Iorque (sim, Woody volta a Manhattan). O negativismo não é incomum na obra de Allen; a diferença é que, ao invés do baixinho atrapalhado, gago e terno que normalmente dá voz às palavras do autor, o protagonista é vivido por Larry David, o criador da série Seinfeld e protagonista da série Curb Your Enthusiasm. David faz de Boris um cara francamente desagradável e agressivo.

A coisa é tão incômoda que, após dez minutos de Boris discursando suas ideias diretamente para a câmera, imaginei gente se levantando e deixando a sala (ele é tão onisciente que sabe estar em um filme, e provoca o público, avisando que, se o espectador espera um daqueles filminhos pra "se sentir bem", que deixe a sala e vá procurar massagem nos pés). Mas ninguém saiu.

O povo pagou pra ver e foi recompensado com a entrada em cena sempre agradável de Evan Rachel Wood (de Across the Universe e Correndo com Tesouras). Ela é Melody Celestine, uma tapada caipira que chega a Nova Iorque com uma mão na frente e outra atrás. Melody é acolhida - não sem alguma resistência inicial - por Boris em seu apartamentinho nojento. O choque entre uma "mente privilegiada" e a garota simplória rende muitas piadas engraçadíssimas - como o suposto passado de Boris como jogador do NY Yankees -, mas o mais importante é notar a gradual conversão de Melody em uma esnobe sub-intelectual.

O fenômeno da transformação de gente comum em socialites intragáveis ou intelectuais afetados é um fato não incomum nos filmes de Allen - por exemplo, a cozinheira de biscoitos que fica milionária em Trapaceiros, ou o professor de tênis em Match Point. Mas aqui a coisa é muito mais pesada: não só Melody, como seus pais - que chegam a NY para buscar a filha - passam por uma rápida e absurda transformação, passando de republicanos religiosos da "Deep America" a artistas, gays, maluquetes liberais.

As piadas que polvilham esse processo são sensacionais - Woody Allen em grande forma, coisa digna dos seus melhores filmes dos anos 70 -, mas o sentido por trás de tudo é bem mais interessante, porque corrobora a tese de Boris: cada um constata sua incapacidade para amar e ser feliz (aliás, a cidade grande e sua pluralidade garantem essa insatisfação constante), e acaba buscando algumas variações no menu de alternativas para a felicidade. Qualquer coisa que funcione.


Veja o trailer, com legendas em português (português de Portugal, mas funciona!)...


Li por aí críticas dizendo que se trata de tema requentado dos velhos filmes de Allen, ou que o filme é uma fábula sem moral da história, ou que Larry David estraga tudo com sua raiva e misoginia. Tudo bobagem. Tudo Pode Dar Certo é uma comédia rasgada e inteligente, Woody Allen no 220 desencapado, verborragia liberada e microfone aberto, para diversão daqueles que prezam um bom texto, personagens intrigantes e uma baita direção de elenco. E há um sentido central: quanto mais o ser humano submerge na cultura cosmopolita, cheia de conhecimentos acadêmicos e artísticos, mais toma ciência da sua incapacidade de ser feliz. E é por isso que a cidade grande se torna essa Torre de Babel maluca, com gente tentando de tudo pra driblar a falta de graça na vida. Vale tudo.

Está em cartaz, não perca. Aproveite essa oferta divina dada aos pobres mortais: um filme do Woody Allen por ano. Tão certo quanto o especial de fim de ano do Roberto Carlos, só que imprevisível.

PS: como complementos a este texto, sugiro que o leitor procure as críticas da Veja (Isabela Boscov, que idolatra Allen, desceu a lenha) e da Folha de São Paulo (Inácio Araújo, que não costuma elogiar os filmes do baixinho, elegeu Tudo Pode Dar Certo como o melhor trabalho de Allen nesta década). São dois ótimos textos!

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Resultado da promoção "Quincas Berro D'Água"

quinta-feira, 29 de abril de 2010 - 0 Comentários

Dois leitores de BLOGIE assistirão à pré-estreia do filme Quincas Berro D'Água junto com blogueiros e críticos de todo o Brasil. São eles:

- Antonio Oswaldo Cruz Jr., de São Paulo;

- Thays Babo, do Rio de Janeiro.

Antonio e Thays acertaram a última frase do maior beberrão da noite soteropolitana (e da obra de Jorge Amado):

"Cada qual cuide do seu enterro, impossível não há."

Como o cara morreu duas vezes - e como memória de bêbado é um troço flexível -, há polêmica sobre qual teria sido a última frase do Berro D'Água. BLOGIE fica com a frase que serve de epígrafe ao livro. Quem garante que essa foi a última frase é Quitéria - Quitéria do Olho Arregalado, amante do malandro.

Boa sessão para os dois vencedores!

E aguardem os comentários de BLOGIE sobre o filme, ainda antes da estreia.

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DVD: "Modelos Nada Corretos", comédia nota mil

quarta-feira, 28 de abril de 2010 - 5 Comentários

Alguém me explique: por que uma das comédias mais engraçadas dos últimos anos nem foi lançada nos cinemas brasileiros?



O filme é Modelos Nada Corretos (Role Models, em inglês), com Sean-William Scott (o Stiffler da série American Pie) e Paul Rudd (um dos integrantes mais talentosas da Máfia da Comédia liderada por Judd Apatow). Os dois colegas, que se metem numa confusão, são penalizados a trabalharem como voluntários numa ONG: cada um deve "adotar" um pré-adolescente carente de amizades. Eles serão o "amigo adulto" dos pirralhos. Scott se vê às voltas com um pequeno delinquente, um moleque boca-suja e obcecado por seios; Rudd adota um nerd jogador de RPG ao vivo (!). Uma festa para os nerds de todo o mundo, com citações de ícones do setor, como Kiss, Star Wars e essa fixação medieval do mundo do RPG. O texto é dos mais engraçados, os atores são ótimos e tem ainda a Elizabeth Banks - a musa unânime dos nerds assumidos.

E nada de lançamento nos cinemas brasileiros. Mas, graças a Deus, as locadoras ainda estão com as portas abertas.  Vale uma visita. O filme é o máximo. Não deixe de ver Role Models.

P.S.: há uma cena em que Scott apresenta o Kiss para o seu pirralho. É sensacional. Falarei dela em um post específico...

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Lista: os maiores Serial Killers do cinema

terça-feira, 27 de abril de 2010 - 5 Comentários

Western, ficção científica, filmes de ação, comédias românticas... todo gênero já entrou e saiu de moda algumas vezes. No entanto, se há um tipo de filme que sempre esteve por cima foi o suspense. Desde o cinema mudo que inaugurou a série de vampiros e que recebeu os primeiros Hitchcocks, passando por suspenses em preto-e-branco sinistros e chegando nos filmes de terror para hordas de adolescentes a partir dos anos 70.


Este blogueiro foi convidado a comentar os maiores Serial Killers do cinema no programa de TV On Top, da Fashion TV. O programa, que já foi ao ar (estou sempre atrasado), pode ser visto abaixo.



ON TOP PGM 75 from Fina Filmes on Vimeo.


Bom, como pode ser visto, apareci falando uma coisa ou duas sobre metade dos filmes. Esclareço: a lista é dada pelo programa; a mim cabe apenas comentá-la. De qualquer modo, achei a lista muito boa. Destaco dela meus seis preferidos e divido com o leitor meus comentários completos (aí embaixo está, mais ou menos, tudo o que falei para o programa - mas cuja maior parte, claro, não resistiu à edição)...


Patrick Bateman, em Psicopata Americano

















Patrick Bateman (Cristian Bale) é um típico yuppie do fim dos anos 80 - um executivo jovem, consumista e movido a cocaína, restaurantes caros e disputas com seus colegas sobre quem tem o cartão de visitas mais impecável.

A questão que ele enfrenta é a mesma do Tom Cruise em A Firma e do Edward Norton em O Clube da Luta e do Keanu Reeves em Advogado do Diabo - o mundo corporativo, em sua superfície tão atraente e poderoso, é vazio e fútil por dentro, e a frustração de se descobrir muito pior do que é cai forte.

Bateman, no entanto, pira totalmente e assassina o colega que conseguiu uma conta melhor na firma, e mata velhinhas e prostitutas e quem mais cruzar seu caminho. Usa machados, serras elétricas e tudo mais que se consagrou como armas de serial killers no cinema americano...

No final, o filme dá uma embolada, dando a entender que a piração de Bates era apenas interna - que tudo aquilo fora criação da cabeça dele -, mas o que interessa é que Psicopata Americano tornou-se, junto com Clube da Luta, um dos grandes formadores de personalidade da Geração Y... decretou o fim do yuppie.



O Zodíaco, em Zodíaco


É, ao lado do Clube da Luta, um dos dois melhores filmes do David Fincher. É baseado numa história real, que se passou em San Franscisco nos anos 70: trata-se de um serial killer brilhante - autointitulado "Zodíaco", porque mandava mensagens criptografadas pelos jornais anunciando seus assassinatos e brincando com a polícia. O Zodíaco em si pouco aparece e não é lá muito interessante.

Interessante mesmo é a construção psicológica de dois caras que ficam obcecados em descobrir quem é o Zodíaco e prendê-lo - o policial vivido pelo Mark Ruffalo, que é um ótimo ator, e o cartunista de um jornal local, vivido pelo Jake Gyllenhaal. Esse cartunista acaba sendo o personagem mais interessante do filme, porque ele coloca sua vida em função da solução do quebra-cabeça do Zodíaco; perde esposa, emprego e sanidade mental, e passa boa parte do filme "raspando" na solução... e no fim, o cara mais louco do filme é ele mesmo...


Norman Bates, em Psicose















 Alfred Hitchcock, quando filmou Psicose, já era há uns vinte anos considerado o "mestre do suspense", tendo feito no mínimo uma dúzia de filmes memoráveis, inventivos, sinistros - O Homem que Sabia Demais, Janela Indiscreta, Festim Diabólico, Disque M Para Matar...

E, no entanto, Psicose, que é um filme até fraco se comparado às suas obras-primas, foi o filme que mais marcou sua carreira como diretor de suspense. Isso se deve a duas coisas:

- A primeira é a escalação de Anthony Perkins como o vilão, aliás, o psicopata mais famoso da história do cinema: Norman Bates. Perkins, assim como o Norman Bates, tinha uma questão de sexualidade muito mal resolvida, uma aparência suspeita e um ar de que há algo muito errado ali (uma obsessão pela mãe, de quem ele cuidava... a administração de um motel de beira de estrada sinistro...).  

- A Kim Novak, loira, linda, má, merecedora de uma punição - do jeito que o Hitchcock gostava -; ela se hospeda no motel do Norman Bates, abre o chuveiro, está tomando um banho e aí entra aquela sequência antológica, os cortes perfeitos, a música tensa e irritante, a Kim Novak gritando, o sangue escorrendo pelo ralo...

A coisa é tão forte que o Gus Van Sant, um diretor renomado, que fez Gênio Indomável e outros filmes, teve a manha de refilmar Psicose - não é um remake, um filme refeito com outro roteiro ; é uma reprodução fiel, cena a cena, fala a fala, do filme do Hitchcock. E ficou diferente... porque a Anne Heche não era a Kim Novak; o Vincent Vaughn não era o Anthony Perkins e, principalmente, o Gus Van Sant não é o Hitchcock.




Chucky, o Brinquedo Assassino
























Houve um momento, no meio dos anos 80, que a indústria do filme de terror - que sempre teve sua audiência nos adolescentes - passou a mirar no público pré-adolescente. O que aconteceu é que o vídeo-cassete ficou popular e a molecada de doze, treze anos passou a usar o equipamento da família, se deliciando com os filmes de terror nos quais eles eram barrados na porta do cinema.

O resultado é que os filmes de terror sofreram um processo de infantilização... dessa época, tivemos  Cemitério Maldito, filme que tem como vilão um menininho que ressucita após ter sido enterrado pelo pai em um cemitério pra bichos de estimação... e o fedelho sai matando todo mundo...

Outro fenômeno dessa época é o Chucky, um boneco que, através de uma seção de vudu, recebeu a alma de um estrangulador... um menininho ganha o boneco de presente e percebe que há algo errado nele, mas ninguém acredita, claro. E o Chucky sai matando todo mundo, menos seu dono - pelo menos num primeiro momento. E a coisa é tensa mesmo, mas também é divertida.

O resultado foi tão legal que o filme virou série, o Chucky ganhou uma noiva e, hoje, Brinquedo Assassino pode ser considerado um clássico dos slasher movies...


John Doe, em Seven

No meio dos anos 90, o Kevin Spacey foi convertido em um ator de primeiro time graças a dois vilões inesquecíveis e imprevisíveis - um deles é o Kaiser Soze, de Os Suspeitos, e o outro é o psicopata John Doe, de Seven. Em Seven, o psicopata John Doe é um tipo bem parecido com o Zodíaco - e vale lembrar que os dois filmes foram dirigidos pelo mesmo diretor, David Fincher...

Partindo dos sete pecados capitais, ele perpetra assassinatos elaborados e absolutamente asquerosos - a cena do defunto glutão é uma das coisas mais nojentas da história do cinema.

No final, de maneira genial e ao mesmo tempo doentia, ele envolve os dois policiais que estão encarregados de encontrá-lo e prendê-lo - Brad Pitt e Morgan Freeman - no seu plano pra fechar os sete assassinatos temáticos. O último, que é a ira, é de dar um nó no estômago.

O Kevin Spacey pode fazer mil tiozinhos bacanas como o de Beleza Americana, que não vai adiantar - eu vou desconfiar dele pra sempre...


Freddy Krugger e Jason Vorhees, de Freddy vs Jason


















Freddy VS Jason é um filme-tributo aos dois maiores ícones dos filmes de terror para adolescentes que fizeram muito sucesso nos anos 80 - Jason, da série Sexta-Feira 13, e Freddy Krugger, da série A Hora do Pesadelo.

O que eu acho interessante é que o filme se preocupou em retratar os aspectos psicológicos mais marcantes dos dois personagens: Freddy Krugger é um cara vaidoso e com mania de Deus - quer dominar tudo e não aceita concorrência no seu pedaço - que é a Elm Street -; e Jason é uma máquina de matar irracional e incontrolável - uma vez iniciada a matança, ele não para mais.

A partir daí, o filme brinca com esses dois traços e se limita a desfilar toda a mitologia dos dois personagens - suas máscaras, armas e métodos - com uma tecnologia melhor do que a da época em que eles viviam seu auge...

Como resultado, eu prefiro a tosqueira dos anos 80. Fico com Sexta-Feira 13 Parte 2 e Parte 4, e com os seis primeiros filmes d' A Hora do Pesadelo.


E aí? Faltou algum serial killer importante? Lembro que o primeiro colocado da lista, Hannibal Lecter (de O Silêncio dos Inocentes e Hannibal), não aparece aqui nos meus comentários porque nunca gostei tanto assim dos filmes, em que pesem Oscars e Anthony Hopkins e etc e tal. Deixe seus comentários!

PS: post atualizado para mitigar confusões sobre a autoria do filme Os Suspeitos (que é do Bryan Singer). Agradeço aos leitores que levantaram a lebre!


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Comentário: "Chico Xavier", de Daniel Filho

segunda-feira, 26 de abril de 2010 - 9 Comentários

Blockbuster brasileiro é assim: o herói de ação é um mineirinho que usa peruca e de jeito de falar engraçado, cuja grande habilidade é se comunicar com espíritos. Supostamente. Dois milhões de pessoas já foram prestigiar Chico Xavier, o filme sobre o mais célebre médium do Brasil.


















Eu, que não sou adepto do espiritismo ou de qualquer outra religião, não fico muito tocado pelo tema. Também não me incluo na longa lista de brasileiros que têm uma baita admiração pela figura pública - caridosa, sábia - do médium (o único Chico a quem me refiro assim, pelo apelido, é o Buarque). Então posso afirmar que fui assistir ao filme com uma má vontade absoluta.

E o fato é que Daniel Filho é mesmo um baita diretor de cinema. O roteiro é muito hábil, intercalando a vida de Chico Xavier com uma longa participação do próprio em um programa de TV da década de 70. Imagens do programa vão chamando fatos da vida do personagem que ilustram seu discurso (mais ou menos como acontece em Quem Quer Ser um Milionário?, vencedor do Oscar do ano passado). Então, há duas tramas essenciais: a primeira trata da evolução da mediunidade de Chico Xavier, desde sua infância pobre e romântica (tipo Dois Filhos de Francisco) até sua consagração como amortecedor das dores do povo; a segunda trata do casal formado por Tony Ramos e Cristiane Torloni, que acaba de perder um filho que, lá pelas tantas, mandará seu recado do além para a mãe - via Chico Xavier.

Esta segunda trama tem a função de arbitrar pelo espectador quanto à veracidade dos poderes do médium. Ramos é um cético absoluto, um homem de classe média com uma boa grana e ótimo nível cultural (é, coincidentemente, o diretor de TV do programa que recebe o protagonista). O cara está desabando; sua esposa está um caco. Um sofrimento maior do que o mundo. A mulher vai até Uberaba para receber uma carta de seu filho psicografada por Chico (lá vou eu). Volta com a carta nas mãos, embotadas de lágrimas, e recebe indiferença e irritação do marido. Depois, outra carta: o cara balança, pois traz informações pessoais demais para terem sido forjadas por um charlatão. E o final é um filme de tribunal, baseado em um episódio real, em que uma carta psicografada por Chico Xavier foi usada como evidência chave na solução do caso. Pronto, Daniel Filho resolve por nós: Chico Xavier é mesmo um canal com o além.

Tudo isso é feito com truques espertos - como nos créditos que sobem ao final do filme, mostrando imagens reais de Chico Xavier na TV repetindo coisas que vimos no filme há pouco, o que reveste de verdade as imagens. Os atores são todos ótimos - especialmente os dois Chicos, jovem e velho: Ângelo Antônio, um grande ator que sempre consegue imprimir graça e leveza aos seus personagens; e Nelson Xavier, já vivendo a figura pública que conhecemos do médium, de peruca e óculos escuros (mas não caindo na caricatura).



Mas há um senão - aliás, um senão trash: o que é aquele espírito Emanuel (que é, sei lá, o espírito preferencial, ou guia de Chico com o mundo extra-sensorial)? Um cara vestido de branco, todo bonitão e canastrão, desfilando uma intimidade esquisita com seu médium preferido? Que solução mais esquisita! As conversas entre Xavier e Emanuel são, quase sempre, constrangedoras. Especialmente quando ambientadas em cenários meio bucólicos. Nesses momentos, parece novela da Record. Incompreensível.

Assisti a Chico Xavier há cerca de três semanas. E só agora consegui vencer minha vontade de escrever um texto inteiro ironizando a relação entre o médium e o tal espírito canastrão. Às vezes, é melhor esperar mesmo. A conclusão é que temos um ótimo filme, ao qual faltou uma solução melhor para um ponto chave: como se materializa a mediunidade de Chico Xavier? Como é o espirito que ele vê e com quem conversa? Usa roupas? Está pelado? Se está vestido, se veste como o Anjinho do Maurício de Souza ou como um anjo de presépio qualquer? Fala com sabedoria bíblica ou coloquialmente? Enfim, como os médiuns de verdade não entregam o ouro, é um trabalho difícil, sem dúvida.

De resto, quando no mundo terreno, o filme é perfeito. Daniel Filho é o cara em matéria de cinema comercial.

Se você ainda não viu, vale a pena. É o sucesso nacional do ano. (Mas o melhor filme brasileiro em cartaz é outro, de Laís Bodanski: As Melhores Coisas do Mundo. Leia a crítica postada há alguns dias!).

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Promoção: "Quincas Berro D'Água"

domingo, 25 de abril de 2010 - 0 Comentários

Outro dia, vi um trailer bem bacana no cinema: Paulo José estava morto num caixão, e seus amigos boêmios resolvem que aquilo não é jeito de se despedirem do rei da noite soteropolitana - e saem carregando o defunto pelas ruas de Salvador para uma última noitada. Uma noitada daquelas.

Trata-se da adaptação de um dos melhores, mais leves e engraçados textos de Jorge Amado - o conto grande ou romance pequeno A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água. O filme, por razões comerciais, cortou as duas mortes elegantes do título e se chama simplesmente Quincas Berro D'Água. Dirigido  por Sergio Machado, a versão traz Paulo José como o defunto beberrão e um elenco bacana: Marieta Severo, Mariana Ximenez, Vladimir Britcha e um monte de atores baianos desconhecidos do grande público, mas que circulam com desenvoltura pelo Pelourinho em busca do próximo bar.


Veja o trailer de Quincas Berro D'Água!

Gostei, particularmente, dos letreiros à Saul Bass...

Quincas Berro D'Água estreia no dia 14 de maio.

Bem, a coisa é a seguinte: este BLOGIE tem um par de pares para cada uma das pré-estreias - uma no Rio, outra em São Paulo. E vai dividir o pão com os amigos.

Então, vamos para um pequeno concurso: aquele que primeiro responder corretamente à pergunta qual foi a última frase de Quincas Berro D'Água? (dica: segundo Quitéria, que estava ao seu lado) ganha um par de ingressos para a pré-estreia.

Temos um ingresso para a pré-estreia de São Paulo (dia 03/05, às 21:30, no Unibanco Arteplex Frei Caneca), e outro para a pré-estreia do Rio de Janeiro (dia 04/05, às 21:00, no Cinemark Downtown).

As respostas devem ser enviadas para o e-mail rgarrido@abril.com.br , até as 12:00 de terça-feira, dia 27.

Os vencedores serão publicados aqui no BLOGIE ainda no dia 27 de abril.

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Filme VIP da semana: "Jerry Maguire", de Cameron Crowe

quinta-feira, 22 de abril de 2010 - 2 Comentários

Antes que o leitor calcule ter caído no lugar errado, esclareço: não, aqui não é o site da Claudia ou da Nova. Aqui é o espaço de cinema no site da VIP, mesmo.

Esclarecimento feito, peço ao leitor que baixe a guarda e reconheça: Jerry Maguire, aquele filme que sua namorada/esposa adora, é um baita filme de macho, e todo homem tem muito a aprender com ele.

A aura de "filme de mulherzinha" (chick flick, nos EUA) foi conferida pela presença de Tom Cruise, entre mil sorrisos e aquelas falas que foram incorporadas no imaginário feminino ("você me completa", "você me ganhou no 'oi'', "isso não é um vestido; é um filme da Audrey Hepburn!"...). Mas isso é só a superfície.














Tom Cruise vai suar a camisa pra mostrar a grana pra você.


 Era só uma declaração de intenções!


Jerry Maguire é um agente esportivo - aquele cara que, no Brasil dos boleiros paupérrimos e recrutados nas peneiras mais toscas da vida, é um malandro barrigudo e aproveitador chamado toscamente de "empresário". Na versão americana, o agente esportivo é um cara altamente profissionalizado, de fino trato, de habilidade verbal imbatível e aparência irretocável. Defende jogadores milionários e inteligentes, gerenciando suas carreiras, entre renovações de contratos, aparições em campanhas publicitárias e, eventualmente, enfrentamento de crises. E o rei dos agentes esportivos é Jerry Maguire, o auto-intitulado "rei da sala de estar".


Acontece que a ficha de Maguire caiu. E bateu pesado. Sua vida de voos em classe executiva, quartos de hotel, coletivas de imprensa e mulheres maravilhosas finalmente lhe pareceu vazia. Profissionalmente, sumiu a graça em arrancar até a última gota de suor dos seus clientes - gladiadores modernos que literalmente se matam para ganhar cada bônus, para aproveitar cada momento e garantir o pé de meia. Maguire entende que está explorando os esportistas, e que falta humanidade no negócio. Febril, insone, se põe a escrever o que lhe vem à cabeça.


Na manhã seguinte, cada funcionário da empresa onde trabalha recebe uma cópia da brochura "Coisa que Pensamos e que Não Falamos". Um memorando? Um manifesto? "Uma declaração de intenções", esclarece o agente. O conteúdo da brochura pregava a reinvenção do negócio de gerenciamento da carreira de esportistas, com atendimento mais do que personalizado: humano. Interesse nas pessoas. Menos clientes por agente. Menos dinheiro. Recuperar aquele sentimento de quando se iniciou a carreira. Coisas que pensamos e que, por constrangimento de parecer ingênuos demais ou simplesmente idiotas, evitamos falar.


Esta é o detonador do grande conflito do filme. Enquanto Maguire esteve por cima, vencedor de peito estufado, todos o admiravam. Sua bela noiva (Kelly Preston) era uma máquina de sexo. Seus amigos o amavam. A partir do momento em que sua pequena crise pessoal veio à tona - através da sua "declaração de intenções" -, tudo desmorona. A noiva lhe dá o fora (depois de aplicar-lhe um nocaute e de chamá-lo de "loser"), os amigos somem e o emprego, bem, o que você poderia esperar depois de ele pregar o fim do modus operandi que deixou a empresa rica? Maguire foi pra rua.


O Jardim Secreto

A partir daí, cresce no filme a adorável figura de Reneé Zellweger (então, uma loirinha novinha e linda, bem diferente da estranha mulher que encheu as bochechas de botox até ficar idêntica à sua estátua de cera no museu Madame Tusseau). Ela é Dorothy Boyd, contadora da empresa secretamente apaixonada por Maguire. Dorothy cai na lábia desesperada e levemente desastrada de Maguire na sua despedida, e se torna sua primeira - e única - funcionária na nova empreitada do agente. Ele tem um único e não tão fiel cliente - Rod Tidwell (Cuba Gooding Jr., no papel que lhe valeu o Oscar de melhor ator coadjuvante), um jogador de futebol americano mediano, de bom potencial e péssima atitude. Nada muito promissor.


















Frases de efeito, escadas cômicas eficientes uma câmera amiga: o casal perfeito da comédia romântica


Maguire, finalmente despido de todo o glamour e aparato, terá que aprender a desenvolver relacionamentos de verdade - com seu cliente (e futuro amigo) e com sua funcionária (e futura namorada). Sua dificuldade em criar intimidade é o xis da questão, e uma descida ao fundo do poço pode ser a solução.

No meio do caminho, mil situações engraçadíssimas, saídas do vasto repertório de piadas de Cameron Crowe, fiel seguidor de Billy Wilder (acredito, inclusive, que as rápidas cenas em que aparece um velhinho tido como mentor de Maguire, são inspiradas na série de entrevistas que Crowe conduziu com o velho mestre: Wilder era mestre em frases de efeito e mandamentos para a obtenção do roteiro perfeito).

E o afeto que vai sendo criado entre Maguire e Dorothy (e seu filho engraçadinho, um pirralho de quatro ou cinco anos em atuação inspirada) é realmente tocante, porque é construído sobre erros, movimentos equivocados e bases frágeis. Uma transada antes da hora, uma evolução do relacionamento meio fora de controle, um casamento um tanto prematuro - e uma crise mais melancólica do que apimentada. No entanto, é justamente enquanto tudo dá errado que a força da companhia de Dorothy cresce em Maguire. A trilha sonora perfeita para essa afeição crescente é a canção Secret Garden, do Bruce Springsteen. A melodia, a letra e o solo de sax vão envolvendo o espectador de tal maneira que, após quatro minutos, somos Jerry Maguire. Não dá pra explicar. É um estado de espírito.

Talvez o vídeo abaixo, que traz cenas do filme e a letra de Secret Garden, faça melhor o trabalho:



O final, com sua redenção esportiva e seu final feliz romântico, é perfeitamente adequado para as pretensões comerciais de um filme desse porte. O texto de Crowe, no entanto, nunca cede ao brega e à solução mais fácil. É um dos roteiros mais classudos do cinema contemporâneo.

O filme fez um sucesso estrondoso, foi indicado para uma penca de Oscars e, até hoje, é considerado a melhor atuação de Tom Cruise. Cameron Crowe ganhou carta branca para fazer o que lhe desse na telha (e daí resultaram Quase Famosos, com o qual ganhou Globos de Ouro e um Oscar, o estranho e genial Vanilla Sky e, mais recentemente, Elizabethtowm, que gastou um pouco seu crédito).

Se algum dia a encruzilhada profissional te pegou de jeito, ou se um relacionamento evoluiu de uma maneira não exatamente planejada por você - e se você já se sentiu sufocado por uma vida que escapou à sua idealização bem intencionada -, este é um filme a que você precisa assistir.

Se não sofreu nada disso, sofrerá um dia. E Jerry Maguire lhe será uma ótima companhia.

P.S.: e há, claro, a cena do "show me the money!", que valeu o Oscar pro Gooding Jr. E há aquele uso especial de clássicos do rock como Magic Bus, do Who, Free Fallin, do Tom Petty, e Bitch, dos Stones

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Estreia: "As Melhores Coisas do Mundo"

quarta-feira, 21 de abril de 2010 - 1 Comentários

"Não é impossível ser feliz depois que a gente cresce; só é um pouco mais complicado." (Mano)

Se você é um dos dois milhões que já foram prestigiar o Chico Xavier recebendo aquele estranhíssimo espírito Emanuel no filme-evento brasileiro do ano, faço-lhe um apelo: vamos dar uma equilibrada nas coisas e dar uma força para o lado do bem. Vá ao cinema e confira o também brasileiro As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanski.

























As Melhores Coisas do Mundo: um filme teen livre de cinismo - um achado!


O filme é uma pequena joia sobre o que é ser adolescente hoje. A rigor, é um filme de high school, só que uma high school diferente - e bem brasileira. Nada de tortas de maçã e super-colas: aqui, o treino da molecada é com prostitutas caidaças. Intercambistas húngaras ninfomaníacas? Não, mocinhas tão tolas quanto os rapazes, e que não sabem direito o que fazer com o poder que têm de escolher os namorados. E uma turma que é capaz de, ao mesmo tempo, praticar humilhações muito mais selvagens do que as do Stiffler - e de ações afetuosas e completamente despidas de cinismo. A sensação que se tem ao sair da sessão de As Melhores Coisas do Mundo é a de ter voltado para o colégio e rejuvenescido alguns bons anos.

O mérito vem da ótima matéria-prima -  a série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto -, da direção soberba de Bodanski (que mergulhou no universo teen por meses antes de rodar o filme) e do elenco absolutamente excepcional. As palavras saem naturais, cheias da malandragem e das manias da molecada, devidamente moldadas na sintaxe que lhes é peculiar. Se o protagonista, Mano, confessa para Carol, sua melhor amiga, que transou com uma loira que vários caras já pegaram, a reação de Carol é entediada: "que tosco!", comenta a amiga. Quando Mano e seu irmão mais velho, Pedro, descobrem que o pai largou a mãe para ficar com um homem, a primeira ficha que cai é a do caçula: "Pedro, se essa história do papai vazar na escola, a gente tá fudido."

Ou seja, no roteiro de Luís Bolognesi não há espaços para racionalizações "cabeça" do universo juvenil ou diversão fácil e estereotipada. As Melhores Coisas do Mundo é uma volta de montanha-russa pela adolescência, com todas suas inconstâncias, novidades e descobertas. "O inferno é aqui", explica Mano ao pai gay ao pedir seu distanciamento. Mas, em outro momento, ele conclui que a felicidade na adolescência é algo tangível (frase que serve de epígrafe para este post).


O trailer - ao optar a tentar mostrar algo mais épico e estereotipado - não faz justiça ao filme, mas ainda assim é bacana. Já o filme é dez!

O motor da história é a difamação - o esporte preferido dos colégios Brasil afora. Fofocas, acusações, fotos comprometedoras correm pelos celulares em poucas horas - e a vida pode se tornar subitamente insuportável. De difamação em difamação, cada um vai aprendendo sua lição ou aproveitando sua oportunidade. Pode não ser o melhor caminho para crescer, mas é um caminho. A denúncia dessa cultura da humilhação (o tal do bullying) é também o que dá um tom meio indesejável de "moral da história", mas não chega a comprometer, tal a honestidade que transpira de cada cena.

Uma curiosidade interessante é a presença de arquétipos de figuras paternas para Mano em todo o filme. Além do pai distante, temos: o professor de violão (Paulo Vilhena), um camarada de trato fácil, tranquilo e capaz de entender o aluno profundamente (talvez por ter mantido o espírito jovem); o professor de física (Caio Blat) por quem a Carol se apaixona - um cara que, ao invés de ser um comedor de criancinhas, tem por baixo da superfície uma necessidade muito grande de se manter jovem; e o irmão mais velho (o tal do Fiuk - filho do Fábio Jr. -, o galã do momento), Pedro, mergulhado na mais profunda melancolia juvenil - é o herói trágico do filme, encarnando um Baudelaire ou Jim Morrison moderno, cheio de poesias simbolistas de um astral capaz de fazer o Robert Smith, do The Cure, cortar os pulsos. Em momentos diferentes, Mano busca o suporte de todos eles - e é o apoio deles também, pois é ele que injeta de volta nos caras a centelha de vida e adolescência que tanto buscam.

Por fim, há o protagonista, o estreante Francisco Migues, no papel de Mano, e outra novata, Gabriela Rocha, no papel do inevitável interesse romântico de Mano, Carol: dois jovens atores cheios de carisma, angústia e euforia evidentes e naturais, responsáveis por todo o frescor do filme. Gabriela, por sinal, não terá problemas para dar sequência à carreira que inicia - bonita e talentosa, encontrará seu espaço nas novelas da Globo logo, logo.

As Melhores Coisas do Mundo são, a rigor, a listinha de coisas que recheiam o caderninho que Carol carrega pra cima e pra baixo. O caderninho é o rascunho da própria história do filme. E esta é a história da cruzada pessoal de um rapaz contra o bullying na sua escola; ou de seu namorico inexorável com a melhor amiga; ou de sua longa jornada aprendendo a tocar Something, dos Beatles, no violão. Sua evolução é exibida sem pressa, e a canção vai ganhando contornos mais seguros, até ele ter pra quem tocar uma canção tão especial.

Para um velho beatlemaníaco como este blogueiro, é mesmo uma das melhores coisas do mundo.

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Lista: melhores continuações do cinema - ou não...

domingo, 11 de abril de 2010 - 2 Comentários

Nesta segunda-feira, 12 de abril, às 21:30, vai ao ar o programa ON TOP, na Fashion TV Brasil (canal 95 da NET). O tema de hoje: as melhores continuações do cinema. Este blogueiro é um dos entrevistados. Seja camarada e prestigie!
Bem, a história é a seguinte: recebi a lista dos dez filmes escolhidos previamente (não participei da eleição, como fica claro ao se perceber a presença de Star Wars Episódio 2 - O Ataque dos Clones (!). Fiz meus comentários - que são absolutamente sinceros - e, provavelmente, aparecerei comentando uns cinco ou seis filmes no programa de meia hora de duração. É bacana, rapidinho e informativo!

Abaixo, uma prévia do que vai rolar e as ideias que, mais ou menos, falei durante a gravação:

De Volta Para o Futuro II:



Havia uma coisa em De Volta Para o Futuro que era impossível de ser reproduzida: aquela sensação de "América pura", a formação da mitologia americana, com lanchonetes e Milk-shake, bailes de formatura, juventude transviada, a invenção do rock'n'roll... era nisso que residia grande parte do fascínio do primeiro filme.


E Robert Zemeckis conseguiu tirar um coelho da cartola para a sequência: ao mandar o Michael J. Fox para o futuro - que era muito mais sem graça do que a cidadezinha em 1955 -, o que se viu foi uma reprodução fiel das personalidades e dos conflitos vividos na geração anterior, e na sua antecessora... o atrativo acabou sendo o medo de envelhecer e de perder o seu ímpeto juvenil, o medo de acabar seguindo o mesmo caminho do seu pai, o medo de errar... e, em volta de tudo isso, o skate do J. Fox não tinha mais rodas, e a DeLorean não precisava mais de plutônio pra funcionar, e sim de lixo reciclado. Foi um filme divertido, mas não melhor do que o primeiro.

Missão Impossível II


Missão impossível é pegar a sequência de um filme dirigido pelo Brian DePalma. Foi a empreitada que o John Woo encarou e que se deu relativamente bem. O Tom Cruise vinha de uma série de seis ou sete filmes com bilheteria superior a 100 milhões de dólares - era um feito único. Ele vinha de Entrevista com o Vampiro, Jerry Maguire, Missão Impossível... e aí veio o segundo filme, explorando muito mais a canastrice latente do Tom Cruise - que é um bom ator nas mãos de diretores mais habilidosos - e, principalmente, as cenas de ação cheias de maneirismos, que são a marca registrada do John Woo.


O resultado faz aquela linha "tem gosto pra tudo", e certamente é capaz de entreter por duas horas, mas tem muito menos força e personalidade do que o filme de DePalma, que é daqueles realmente inesquecíveis.


Rocky II


O primeiro Rocky foi um caso único, um raio que caiu. O Stallone era um pobretão que tinha um roteiro na mão e que conseguiu ser escalado para o protagonista do filme que ele escreveu. O filme saiu, fez um sucesso enorme, ganhou um Oscar de melhor filme e deu uma carreira pro Stallone...


Rocky II, que trata da revanche entre Rocky Balboa e o Apollo Doutrinador, fez um grande sucesso e provavelmente é a sequência mais digna que poderia ser dada ao primeiro filme. Aliás, os outros Rocky - principalmente os constrangedores Rocky 4 e Rocky 5 - provaram isso.


No mais, é a melhor luta de toda a série.
O Exterminador do Futuro 2– O Julgamento Final


James Cameron, que depois seria diretor das duas maiores bilheterias da história (Titanic e Avatar), fez o seu primeiro ensaio de grande lançamento de um filme-evento com a sequência do ótimo O Exterminador do Futuro. Para o lançamento do Exterminador 2, que nos EUA é conhecido apenas como "T2", ele preparou uma mega-campanha, que incluía o lançamento de uma música nova do Guns'n'Roses na trilha (You Could Be Mine) e mil outros truques. Foi uma avalanche de marketing, e o filme fez por merecer.


É ainda melhor do que o primeiro e trouxe cenas de ação mais esmeradas, um monte de frases de efeito que entraram para o imaginário pop ("hasta la vista, baby!") e efeitos visuais que causaram grande impacto na época do lançamento, como o efeito do metal líquido de que era feito o androide do mal... aquilo foi o equivalente pra época do que foi o bullet-time de Matrix ou o 3D de Avatar...


Star Wars Episódio II - O Ataque dos Clones


Se o critério de comparação fosse o filme antecessor, O Ataque dos Clones seria a melhor sequência de todas, menos pelos seus méritos do que pelas deficiências do Episódio 1, que é um abacaxi tremendo.


Graças a isso, o filme foi lançado com um baita estardalhaço, segundo o qual a magia da primeira trilogia estaria de volta. De fato, temos no Christian Haydenssen um aspirante a Darth Vader bem convincente, e temos a Natalie Portman linda, linda, linda, já consciente de que era uma grande estrela. E temos o Mestre Yoda indo pra luta, o que acabou se tornando a grande atração do filme para os fãs...


Mas, fora isso, não dá pra comparar com a verdadeira grande sequência da série: O Império Contra Ataca, o filme que deu continuação ao primeiro Guerra nas Estrelas, e que posteriormente virou "episódio 5".

O Poderoso Chefão Parte II


A discussão sobre qual Chefão é melhor é assunto pra anos de conversa... o fato é que Francis Ford Coppola conseguiu dar uma sequência à altura do primeiro filme, que é simplesmente um dos melhores de todos os tempos. Pra isso, ele se valeu de duas tramas - a principal, que mostra Michael Corleone (Al Pacino) perdendo a mão das coisas no controle da "família" (e lidando com atentados, a traição do irmão, separação); e a segunda, que faz o contraponto romântico do filme, mostra Robert DeNiro vivendo os anos de formação de Don Vito Corleone (que no primeiro filme foi feito pelo Marlon Brando). A mistura das duas tramas - uma sinistra e pesada, e a outra leve, mágica, é que fez o sucesso do Chefão Parte 2, valendo-lhe o Oscar de melhor filme. E Robert DeNiro levou o Oscar de melhor ator coadjuvante.


O feito, histórico, é condizente com a qualidade do filme, que certamente é a melhor sequência da história da cinema.


Bom, falei de outros também, mas estes são os comentários de que mais gostei. Vejam meu desempenho na TV!
 
E depois deixem seu comentário aqui sobre qual sequência DEVERIA ter entrado na lista e não entrou. O meu primeiro lance é Indiana Jones e a Última Cruzada. Kill Bill Vol. 2 seria até covardia, não?
 
PS: o programa será reapresentado nos dias 13 (terça), às 23:30 e 14 (quarta), às 22:30.

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Ausência doída

sexta-feira, 9 de abril de 2010 - 1 Comentários

Aviso aos leitores amigos: este blogueiro está com pouco tempo para ir ao cinema e nenhum para escrever. É sofrido, mas é passageiro.

No momento, três matérias se arrastam no Word, os dead lines vão se aproximando, e mais uma noite de sono se foi.

Reestabelecerei a ordem a partir do meio da semana que vem, prometo.

Até lá, minha dica cinematográfica é a seguinte: faça o óbvio. Fuja das roubadas (comédia "infantil" com Robbin Williams e John Travolta?). E confira Chico Xavier. O filme é bom. Daniel Filho, definitivamente, é um cara muito talentoso e que sabe fazer cinema como pouquíssimos no Brasil. Tenho meus comentários e ressalvas a respeito, mas os botarei no papel - quer dizer, na tela - com mais calma. Só sei que vale a pena.

No mais, grande expectativa pelo Alice no País das Maravilhas do Tim Burton em 3D (estreia no dia 22/abril) e pela versão cinematográfica de A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água, com o Paulo José no papel do defunto beberrão. Acho esse conto (é um conto grande ou um romance pequeno?) do Jorge Amado um dos melhores textos da ficção brasileira. Vi o trailer e me parece sensacional.

Um abraço, e até breve,

Ricardo Garrido

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Filme VIP da semana: "Os Reis do Iê-Iê-Iê", com os Beatles

quinta-feira, 1 de abril de 2010 - 2 Comentários

A lista dos 10 melhores filmes de rock preparada por BLOGIE elegeu, claro, os Beatles como os campeões dessa conversa.

E não é exagero de fã: Os Reis do Iê-Iê-Iê, apesar do nome bisonho, é muito mais do que o primeiro filme dos Beatles e muito mais do que uma comédia musical bobinha. A bem da verdade, o filme de Richard Lester foi um dos mais inovadores de seu tempo e, de quebra, pode reivindicar o título de inventor da MTV.



















Ignorando o valor histórico e a qualidade das músicas, há, no filme, dois grandes méritos: 1) o de ter renovado o gênero comédia, incluindo uma dose de nonsense que se tornou padrão durante os trinta anos seguintes; e 2) o de ter incutido no mundo todo as personalidades que ficariam famosas dos quatro rapazes de Liverpool. É desse filme que saiu o John Lennon espertalhão, o Paul McCartney certinho, o George Harrison sarcástico, o Ringo Starr "cara normal". É certo que o decantado sarcasmo dos quatro rapazes de Liverpool era espontâneo, mas o filme de Lester ajudou-os a criar personagens muito bem definidos para seus fãs, e eles desempenharam esses papéis por alguns anos, até que a maturidade chegou e eles se meteram a fazer todas aquelas obras-primas psicodélicas.

A direção de Richard Lester, então um renomado diretor de TV, celebrizou um certo humor inglês, calcado na ironia e em tom assumidamente infame, que serviu de inspiração para a turma do Monty Pithon, para a literatura do Nick Hornby e para a persona repleta de auto-ironia do Hugh Grant nos filmes da Working Title.



Veja o trailer renovado de A Hard Day's Night!

Além disso, foi nas filmagens de A Hard Day's Night (melhor ficar com o título original) que George Harrison conheceu Pattie Boyd, sua futura esposa e musa inspiradora de Something - considerada por Frank Sinatra a melhor canção de amor do século 20 -, Layla e Wonderful Tonight (as duas últimas do Eric Clapton, melhor amigo e ladrão-de-mulher de George). Ela aparece como uma das colegiais (a mais bonitinha, diga-se) durante I've Should Have Known Better, tocada pelos Beatles durante uma viagem de trem.


A Hard Day's Night, Can't Buy Me Love, And I Love Her, a lista de canções perfeitas não acaba. E era só o começo.

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Ricardo Darín vê o cinema latino-americano

quarta-feira, 31 de março de 2010 - 1 Comentários

Bem bacana a entrevista do ator argentino Ricardo Darín (protagonista do vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, O Segredo dos Seus Olhos) na revista Serafina, que circulou junto com a edição de domingo da Folha de São Paulo.





















Ricardo Darín: um cara bacana.


Além de comprovar o que já dava pinta de ser - um boa praça que, se fosse brasileiro, provavelmente seria um leitor da VIP - e de oferecer um roteiro dos seus endereços preferidos em Buenos Aires (incluindo uma churrascaria toda decorada com motivos de futebol - tipo o São Cristóvão, aqui de São Paulo), Darín fez uma análise interessante sobre o cinema latino-americano de hoje. Disse ele:

Nós, latinos, de alguma forma, temos um pouco menos de pudor, sobretudo para contar algumas histórias. Não nos causa vergonha falar de nossas misérias, dores, incapacidades. É uma zona mais jovem do planeta civilizado e me parece que temos uma valentia quase que adolescente, enquanto em outros lugares do mundo, como na Europa, são mais conservadores nesse sentido. Estamos mais mesclados, todas as classes sociais estão mais misturadas. Então as histórias que surgem são muito reais. Central do Brasil, de Walter Salles, é um exemplo disso. É um dos melhores filmes que vi na vida.

Bem, este blogueiro já gastou uma boa quantidade de linhas reclamando da mania brasileira de fazer filmes sobre retirantes nordestinos, favelados, miséria, miséria, miséria... minha marcação é que parece haver uma "obrigação ética" do cineasta fazer crítica social. Quando essa missão é encarada pelo Walter Salles, OK, teremos bons filmes e, talvez, uma obra-prima. Mas o problema é que dezenas de cineastas medíocres embarcam na mesma noia, obviamente sem o mesmo sucesso.

De qualquer modo, gostei da visão do brother argentino.

Mas continuo preferindo os filmes que ele estrela e outros exemplares da safra recente portenha a praticamente toda a produção brasileira.

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No teatro: "Estranho Casal", de Neil Simon

terça-feira, 30 de março de 2010 - 0 Comentários

Uma pequena reflexão registrada na crítica que BLOGIE fez de Amor sem Escalas, de Jason Reitman: alguns autores tratam de questões universais, atemporais - grandes questões da humanidade, se você preferir. Gente como Stanley Kubrick e Woody Allen e Francis Ford Coppola, por exemplo. Já outros autores - sem julgamento de quem é melhor ou pior - têm mais habilidade em retratar o espírito de uma época: o inigualável Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse) e o grande Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem nos anos 60; Uma Secretária de Futuro nos anos 80; Closer nos anos 00) são desse time, que abrigaria, hoje, gente como Sofia Coppola e o próprio Jason Reitman.

Este raciocínio me voltou à cabeça enquanto assistia, durante o último final-de-semana, à peça Estranho Casal, em cartaz em São Paulo (a partir da semana que vem, no Teatro Renascence).















A montagem brasileira de Estranho Casal: legal, mas... vacila.


Estranho Casal é a adaptação brasileira (e abrasileirada) de uma peça da Broadway do final da década de 60, do genial Neil Simon (o mesmo de Descalços no Parque  e Metido em Encrencas). O texto foi adaptado para o cinema pelo próprio Simon, e, com a direção teatral e competente de Gene Saks, resultou na comédia homônima - um enorme sucesso.

O mundo todo conhece esse filme: Jack Lemmon e Walter Matthau fazem os amigos muito diferentes - o primeiro é um hipocondríaco, detalhista e chato inveterado; o segundo é um largado na vida, boa praça e não muito asseado - que, em razão de uma combinação de divórcios, acabam dividindo um apartamento. Lemmon e Mathau tinham uma química tão grande nas telas (já tinham feito um filme do Billy Wilder, e mais tarde fariam outro), que acabaram se tornando uma das grandes duplas do cinema. Ambos foram indicados para o Globo de Ouro de melhor ator de comédia de 1968. Trinta anos depois, voltaram aos papéis dos amigos em Dois Velhos Rabugentos (que, por decisão do tradutor, não poderia ter se chamado simplesmente Um Estranho Casal 2).


Veja o trailer do filme original, de 1968!

A questão é a seguinte: Neil Simon é da turma de Billy Wilder, de Mike Nichols, de Fitzgerald e de Flaubert; seu negócio é tratar de seus personagens com arte e humanidade, mas dentro de um contexto histórico específico. No caso, Estranho Casal é uma peça sobre o fim dos anos 60, sobre a falência da família americana, divórcios às pencas e novas organizações "familiares" - como amigos quarentões dividindo apartamentos. É um texto que trata de uma certa mitologia informal americana - por exemplo, jornalistas esportivos que bagunçam suas vidas, entre horários de trabalho malucos, noites de pôquer e falta de dinheiro.

Tirar a peça de Simon dos anos 60 e dos EUA, colocando-a no Brasil do Real, de Lula, do Rebolation e do PCC... é uma atrocidade artística. Que impacto tem mais dois caras se divorciando no mundo de hoje? E quem ficaria realmente dois meses com a geladeira quebrada? E o que há de excepcional nas duas irmãs meio dadas que se oferecem pros rapazes (na adaptação brazuca, duas gaúchas caricatas)? Matou toda a força do texto original, e é uma pena.

Fique claro que a peça, apesar disso, é um programa divertido: a montagem é muito engraçada, claro - as piadas e falas e brigas estão todas lá, preservadas -, é bem dirigida e os atores - Carmo Della Vecchia e Edson Fieschi - fazem um ótimo trabalho ao emular as caretas, gestos e tiques de Lemmon e Matthau. Mas o que o autor de novelas GIlberto Braga fez na adaptação do texto é coisa que não se faz. Mesmo.

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A volta do Grito de Wilhelm

domingo, 28 de março de 2010 - 0 Comentários

Dica do chefe, Ricardo Lombardi: diz que o Grito de Hilhelm será usado novamente em Homem de Ferro 2. 

Como dizia Didi Mocó: cuma?

Bem, a história é simples, mas vem de longa data e é recheada de grandes filmes. Se você se interessa pelos grandes sucessos de bilheteria dos últimos 30 anos, continue lendo.

O início: em 1951, quando produziam um filme trash chamado The Distant Drum, precisaram de um grito selvagem para representar um pobre soldado sendo atacado por um crocodilo. Um atorzinho qualquer (o mais provável é que tenha sido um tal de Sheb Wooley) berrou meia dúzia de vezes no microfone, um dos gritos entrou no filme e, posteriormente, foi incorporado no acervo de sons da Warner Brothers.

Dois anos depois, enquanto se filmava o western Investida de Bárbaros, alguém usou o tal grito na cena em que um certo soldado Wilhelm é atingido por uma flecha indígena.

Grande coisa, até aqui.

Acontece que um camarada chamado Ben Burtt, técnico de som preferido de George Lucas e Steven Spielberg, estava pesquisando sons em 1977 para um filminho do primeiro, e encontrou o tal grito, então registrado no acervo da Warner como "homem sendo comido por um crocodilo". Botou o grito na boca (?) de um Storm Trooper, do Império, naquela cena em que o Luke Skywalker está resgatando a Princesa Leia. Sim, estamos falando de Guerra nas Estrelas.

Dois fatos importantes merecem ser registrados: 1) havia muitos Storm Troopers a serem abatidos pelos Rebeldes liderados por Luke; 2) Lucas e Spielberg se tornariam diretores de enorme sucesso. Somando esses dois fatores, temos que o "Grito de Wilhelm" (como foi rebatizado por Burtt) se tornou um clássico do cinema. São, até a presente data, 149 filmes a usarem o recurso.

Veja um pequeno vídeo-clipe com uma compilação de usos do Grito, entre episódios de Star Wars, desenhos da Disney e até um Tarantino:



BLOGIE pesquisou mais um pouco e inclui aqui alguns do usos que não aparecem no vídeo: o Grito de Wilhelm foi usado em TODOS os episódios das séries Star Wars e Indiana Jones; em várias animações da Disney e da Pixar (A Bela e a Fera, Aladdin, Toy Story, Hercules); filmes de autores como Tim Burton (Batman - O Retorno), Tarantino (Cães de Aluguel e Kill Bill - na cena dos Crazy 88's) e Robert Rodriguez (Sin City). Também aparece em grandes produções do naipe de Senhor dos Anéis - As Duas Torres, Aeon Flux, Máquina Mortífera IV  e Jurassic Park.

E agora, com o devido estrondo de uma notícia relevante, sabemos que Homem de Ferro 2 dará sequência a esta linda tradição do cinema.

Toda esta conversa serviu pra alguma coisa: me lembrou o trabalho de Jack, o personagem de John Travolta em Um Tiro na Noite, obra-prima do Brian DePalma. Jack era um técnico de som do cinema que, sem querer, registrou um assassinato. É envolvido de gaiato numa trama muito perigosa e, lá pelas tantas, gravará um terrível grito para seu trabalho. Um grito muito mais assustador do que o de Wilhelm.

Leia aqui o post de BLOGIE sobre "Um Tiro na Noite", de Brian DePalma!

Mais uma incrível contribuição de BLOGIE para as conversas de boteco desta semana cheia de jogos da Libertadores.

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Filme VIP da semana: tudo sobre "Escola de Rock"

quarta-feira, 24 de março de 2010 - 6 Comentários

Quando da publicação do post com os dez melhores filmes de rock de todos os tempos, este blogueiro recebeu protestos pela não inclusão de Escola de Rock, comédia de sucesso com o Jack Black. Protestos aceitos - realmente o filme é um grande tributo ao rock'n'roll e merecia um lugar na lista. Para a retratação, BLOGIE preparou um verdadeiro dossiê devassando Escola de Rock, revelando cada uma (ou pelo menos boa parte) das toneladas de citações musicais no filme.

Pra começo de conversa, note que o letreiro do filme emula o logo da revista Rolling Stone, um ícone roqueiro.

1- Do Diretor:

Richard Linklater é um cineasta bem eclético. Ele é autor de comédias românticas que pagam tributo a Truffaut (Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol) e de filmes-cabeça como Fast Food Nation e O Homem Duplo. Mas também é um competente diretor profissional que bota de pé projetos "comerciais" como a comédia meio western The Newton Boys. O ponto em comum na sua trajetória é uma obsessão pela cultura pop e sua força junto aos jovens. Isso aparece em homenagens à nouvelle vague, em estudos sobre a influência do fast food nos EUA e, claro, na celebração do rock. Para isso, um filme chave em sua carreira é o ótimo Dazed and Confused, uma das melhores comédias de high school de todos os tempos, passada no meio da década de 70. Detentora de uma trilha sonora irretocável, a comédia mostra a moçada da década de 70 sofrendo massiva influência das bandas que vendiam milhões e milhões de LPs naquela década dourada para o rock. O próprio título do filme veio de uma canção clássica do primeiro disco do Led Zeppelin - que, em um episódio corriqueiro, não liberou Dazed and Confused para a trilha sonora.

Em Escola de Rock, Linklater voltou à carga. Mostrou tudo o que sabia do assunto e remeteu um vídeo, já no meio das filmagens, para o Led Zeppelin. O vídeo mostrava Jack Black, à frente de um auditório lotado de figurantes, berrando ao microfone: "Ei, Robert Plant, Jimmy Page, John Paul Jones: deuses do rock, maior banda de todos os tempos... nós precisamos da sua música, cara. Precisamos de Immigrant Song. Este é um filme sobre rock, e sem essa música... este filme vai desabar. Quer dizer, o filme detona, mas, cara, sua canção seria a cereja roqueira no topo da montanha! Por favor..." - e põe o público todo a repetir, "Senhores do Rock, Led Zeppelin: nos abençoe com seu poderoso amor!", e a galera se põe a acompanhar Black berrando o riff de guitarra de Immigrant Song.

Depois de tal apelação, desta vez os sobreviventes do Zep concordaram. Veja o episódio todo, desde o vídeo enviado para Page e Plant até a cena em que Immigrant Song foi usada - por, digamos, dez ou quinze segundos. Valeu a pena, não?



2- Jack Black:

Todos sabem que Black é mais do que um comediante engraçado - é um roqueiro que é comediante. Ele tem sua banda, ele abraça filmes que reciclam a cultura pop (Rebobine por Favor, Alta Fidelidade), ele não perde a chance de demonstrar suas habilidades musicais (duvidosas, para alguns).

Em Escola de Rock, ele carrega o filme nas costas, com um competente e carismático time de pré-adolescentes que obviamente curte o seu tutor roqueiro. Trouxe um guarda-roupas de Angus Young, do AC/DC, uma atitude de Pete Townsend, do The Who, e uma  entrega de banda punk.

3- A banda perfeita:

Jack Black, como o falso professor substituto Mr. Ass (o codinome pelo qual ele é respeitosamente chamado por seus pupilos), não aceita substitutos, diz o cartaz do filme - citando Substitute, do Who. Para ele, a coisa é séria. Sem saber nada de literatura, matemática ou história, ele se põe a treinar a molecada sob os preceitos mais fundamentalistas do rock e molda a banda dos seus sonhos. Notando alguma habilidade musical na molecada, traz instrumentos e vai ensinando riffs de guitarra, linhas de baixo - e também caras feias, poses e chutes e todo tipo de atitude roqueira. Lá pelas tantas, ele dá lição de casa para a molecada: distribui CDs para cada integrante da banda, escolhidos a dedo. Vejamos a banda perfeita de Mr. Ass:

- A baixista leva um exemplar do primeiro disco do Led Zeppelin;

- Para a loirinha que faz backing vocals afinados, Blondie;

- Para o tecladista, Fragile, do Yes (ele sugere atenção ao solo do Rick Wakeman em Roudabout);

- Para o baterista, claro, o clássico 2112, do Rush (que conta com Neil Peart, tido e havido como maior baterista do mundo);

- Para o guitarrista, Axis: Bold as Love, do Jimi Hendrix. É o disco que traz Little Wing, uma das músicas mais lindas que já foram feitas.

- A Tomika, a garota negra tímida com voz de Aretha Franklyn, ele empresta The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd. A intenção é que ela escute Great Gig in the Sky, aquele longo solo de piano com uma mulher gritando de maneira entre etérea e histérica.

Previsível, mas de eficiência inegável.

4- Stevie Nicks, deusa do rock:























Stevie Nicks à frente do Fleetwood Mac nos anos 70


À primeira vista, o vilão de Escola de Rock é a diretora da escola, vivida por Joan Cusack. Ela é durona, incorruptível, conservadora. Jamais dará a permissão para o professor de araque levar a sua turma para o festival de bandas de rock. Até que...

... Na sala dos professores, lhe contam que a diretora, quando toma umas e outras, dá vazão ao seu lado mais louco e se revela fã incondicional de Stevie Nicks, a cantora do Fleetwood Mac, um ícone de comportamento abusivo e maluquice - e também de beleza e talento.

Mr. Ass leva a tal diretora para um bar, vai até a Jukebox e põe Bella Donna, o primeiro disco solo de Nicks (de 1981), pra tocar. Entra o maior clássico da moça, Edge of Seventeen, com seu riff de guitarra seco. Joan Cusack dá show ao se soltar e, em coisa de um minuto, está cantando a letra e emulando os gestos característicos de "Stevie", como a cantora é intimamente chamada pelos seus devotos.
Stevie Nicks, que aqui no Brasil não é muito conhecida, é uma instituição americana - o disco Rumours, do Fleetwood Mac, ostentou por alguns anos a marca de "disco mais vendido de todos os tempos" (ele foi lançado em 1976). Quatro das suas faixas são assinadas por Stevie Nicks, inclusive o maior sucesso da banda, o hit Dreams, que já foi regravado pelo The Coors e em versões bate-estaca para baladas em geral. Na opinião deste blogueiro, maior artista feminina do rock, à frente de Janis Joplin e tudo. Justa homenagem.


5- AC/DC, a referência central:

A roupa, a guitarra e as palavras de Jack Black são totalmente tiradas da banda australiana, cuja barulhenta passagem recente pelo Brasil nos permite dispensar maiores explicações. Mas há muitas outras referências à banda de Angus Young.

Por exemplo, em determinada passagem, o mestre recorre a recursos áudio-visuais para ensinar um pouco de atitude com uma guitarra pendurada no pescoço. Vemos imagens de Pete Townsend girando o braço, em seu movimento característico, vemos Hendrix quase copulando com sua guitarra Fender Stratocaster, mas o ápice da aula é Angus Young rolando no chão com sua Gibson SG.

Já no finzinho do filme, no festival onde a banda de fedelhos debutará, a preleção de Mr. Ass termina com o refrão que dá fim aos shows do AC/DC: "we'll roll tonight to the guitar bite... and for those about to rock... we salute you!" Além disso, o bis da apresentação da Escola de Rock vai de uma esquecida canção do primeiro disco do AC/DC, It's a Long Way to the Top (If You Wanna Rock'n'Roll). A letra, que trata das agruras de ser um pobre integrante de uma banda batalhadora, à espera de fama e fortuna, foi um achado para terminar um grande filme. Enquanto sobem os créditos, vemos a criançada e Black se divertindo muito, como só poderia acontecer quando se juntam uns amigos, se plugam uns instrumentos e se toca um AC/DC.


Veja Jack Black e a meninada de Escola de Rock honrando o AC/DC!

6- As citações, em ordem de aparição no filme:

- Na cena de abertura, vemos Black com uma roupa que evoca Jimmy Page e barbatanas do Ozzy Osbourne. Após seus excessos no solo com uma Gibson Explorer, faz um strip-tease à Angus Young e arrisca um mosh, se estatelando no chão. Sabemos em dois minutos que ele é um roqueiro sonhador, uma compilação de clichês roqueiros - um cara que, na prática, irrita seus companheiros de banda, mais preocupados em ser cool.

- Logo depois, sabemos que Dwey Finn (é esse o nome do personagem de Black) mora de favor com seu amigo professor de primário - um nerd que, antigamente, fora companheiro de banda de Finn num troço chamado Maggot Death (trocadilho com a banda de speed metal  Megadeth, do Dave Mustaine; a imagem e o nome evocam a bizarrice do Marylin Manson). Meio por acidente, meio por necessidade de grana, Finn recebe a ligação de uma escola e, fingindo ser o amigo, topa entrar como professor substituto para uma turma de fedelhos de uma escola pra lá de conservadora.

- Para Zack, o menino que sola lindamente no violão clássico, Finn (já chamado simplesmente Mr. Ass) ensina riffs básicos: Iron Man, do Sabbath, Smoke on the Water, do Purple, e Highway to Hell, do AC/DC. Para o japinha pianista, apresenta uma partitura de Touch Me, do Doors, que o rapaz se põe prontamente a acompanhar, para a piração do professor. Já para Katie, a menina que se vira no baixo, e para o trombadinha que esmurra uns tambores, ele volta ao básico e põe a banda para funcionar pela primeira vez ao som de Smoke on the Water - como aconteceu com praticamente 100% de todas as bandas de garagem formadas durante os últimos 40 anos.

- Influências: a criançada está numas de Christina Aguilera, Puff Daddy, e nunca ouviu falar em Led Zeppelin, Black Sabbath etc. Mr. Ass resolve preparar uma agenda pesada de aulas de rock. Desfaz as noções "equivocadas" de que montar uma banda serve  pra pegar garotas ou ficar chapado de drogas, e então explica o conceito de "enfrentar o homem" (tipo, enfrentar o sistema ou algo assim). Raiva juvenil como combustível. Parece óbvio, mas apropriado para as gerações atuais, criadas com liberdade e excesso de consumo.

- Nome da banda: as groupies oficiais (duas loirinhas angelicais) da turma estão encarregadas de dar nome à banda. Sugerem As Abelhinhas (derivando de Beatles e Crickets) e Os Coalas, mas o professor explica que isso é coisa de veado. Então as meninas mandam, que tal Reto Suíno? Acredito que isso venha da lenda segunda a qual o Van Halen quase se chamou Rat Salad.

- O figurinista afetadinho encarregado do guarda-roupas da banda, por algum motivo, parece ter saído dos anos 70: aparece com um visual entre Marc Bolan (T. Rex) e David Bowie circa 1973.

- Há projeção de slides de uma aula punk. Em cinco segundos, vamos de Iggy Pop a Ramones a Sex Pistols a Kurt Kobain. Direto ao ponto, como só o punk pode ser.

- A aula de reforço fica pro baterista delinquente: vídeo-aulas de Herbie Hancock e imagens clássicas de Keith Moon, do Who.




7- Teoria roqueira:

Uma lousa repleta de ligações entre sub-gêneros roqueiros - cada um acompanhado de nomes de bandas - é um dos objetos de desejo deste blogueiro. O quadro aparece em um pequeno relance, e sua visão completa não é possível em cena. Mas uma observação quadro a quadro permite identificar o seguinte:

- Heavy Metal (Judas Priest, Iron Maiden, Metallica, Black Sabbath, Motorhead, Dio), apresenta ligações com Hard Rock (The Who, Led Zeppelin, Aerosmith, Deep Purple, Van Halen, AC/DC), com Grunge (Nirvana, Peral Jam, Mudhoney, Soundgarden e Alice in Chains) e com Punk (Sex Pistols, Ramones, The Clash, Patti Smith).

- O Rock Psicodélico (The Doors, Jefferson Airplane, Grateful Dead, Velvet Underground) abastece quase todos os gêneros musicais dos anos 70: através de Jimi Hendrix, abastece  Hard Rock; mas também influencia Prog Rock (Yes, Pink Floyd, Jethro Tull, Rush, ELO, Genesis), Glitter/Glam (David Bowie, Alice Cooper, T. Rex, Roxy Music) e Southern Rock (Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, Black Oak Arkansas).

- Outro "provedor geral" é o Brit Invasion (Beatles, Stones, Animals, Yardbirds, Cream), que cria o Pop Rock (um balaio de gatos que inclui Fleetwood Mac, Beach Boys, Go Gos, Kiss, Elton John e Neil Diamond!) e influencia tanto o Folk Rock (Jackson Browne, Simon and Garfunkel, Byrds, Neil Young) quanto o Soul (Gladys Night, Otis Redding, Sam Cooke, Marvin Gaye, Stevie Wonder, Diana Ross e James Brown). O Soul, por sua vez, abastece Rock Psicodélico, através da Janis Joplin.

- O Doo Wop (grupos vocais negros como The Platters), que dá cria tanto ao Soul quanto ao Funk (Prince, Parliament Funkadelic, Isley Brothers), acaba gerando a Disco (Bee Gees, Village People, Donna Summers) e, por consequência, o Hip Hop (Salt N Pepa, etc).

- Prog Rock chama uma caixa com um inusitado ponto de interrogação, sob o qual aparece o nome do maluco Frank Zappa.

- O início de tudo, ao final revelado no lado esquerdo da lousa, é o Country, o Blues e, indiretamente o Jazz. Deles, surgem o Folk (Woody Guthrie), que tem Bob Dylan como o conector com  Folk Rock, o Rockabilly (Elvis, Buddy Holly, Eddie Cochran), que influenciou as bandas inglesas, e o Rythim and Blues (Chuck Berry, Bo Didley, Little Richard), que abasteceu tanto o Rockabilly e o Doo Wop quanto o distante Hard Rock (o Zep foi beber direto na fonte).

Acho que há nomes suficientes para pesquisar por meses e meses o melhor da música dos últimos 60 anos, não? Mas melhor do que ler tudo isso é checar diretamente na fonte. Por graça de Elvis Presley, alguém no set tirou uma foto do quadro todo preenchido. Deleite-se:
















Acho que é isso. BLOGIE é o único veículo que dá tratamento de Cidadão Kane para Escola de Rock. Como canta Black na canção original, "rock não tem razão, rock não tem rima". Simplesmente existe.

Espero que tenha gostado.

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