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Comentário: "Chico Xavier", de Daniel Filho

segunda-feira, 26 de abril de 2010 - 9 Comentários

Blockbuster brasileiro é assim: o herói de ação é um mineirinho que usa peruca e de jeito de falar engraçado, cuja grande habilidade é se comunicar com espíritos. Supostamente. Dois milhões de pessoas já foram prestigiar Chico Xavier, o filme sobre o mais célebre médium do Brasil.


















Eu, que não sou adepto do espiritismo ou de qualquer outra religião, não fico muito tocado pelo tema. Também não me incluo na longa lista de brasileiros que têm uma baita admiração pela figura pública - caridosa, sábia - do médium (o único Chico a quem me refiro assim, pelo apelido, é o Buarque). Então posso afirmar que fui assistir ao filme com uma má vontade absoluta.

E o fato é que Daniel Filho é mesmo um baita diretor de cinema. O roteiro é muito hábil, intercalando a vida de Chico Xavier com uma longa participação do próprio em um programa de TV da década de 70. Imagens do programa vão chamando fatos da vida do personagem que ilustram seu discurso (mais ou menos como acontece em Quem Quer Ser um Milionário?, vencedor do Oscar do ano passado). Então, há duas tramas essenciais: a primeira trata da evolução da mediunidade de Chico Xavier, desde sua infância pobre e romântica (tipo Dois Filhos de Francisco) até sua consagração como amortecedor das dores do povo; a segunda trata do casal formado por Tony Ramos e Cristiane Torloni, que acaba de perder um filho que, lá pelas tantas, mandará seu recado do além para a mãe - via Chico Xavier.

Esta segunda trama tem a função de arbitrar pelo espectador quanto à veracidade dos poderes do médium. Ramos é um cético absoluto, um homem de classe média com uma boa grana e ótimo nível cultural (é, coincidentemente, o diretor de TV do programa que recebe o protagonista). O cara está desabando; sua esposa está um caco. Um sofrimento maior do que o mundo. A mulher vai até Uberaba para receber uma carta de seu filho psicografada por Chico (lá vou eu). Volta com a carta nas mãos, embotadas de lágrimas, e recebe indiferença e irritação do marido. Depois, outra carta: o cara balança, pois traz informações pessoais demais para terem sido forjadas por um charlatão. E o final é um filme de tribunal, baseado em um episódio real, em que uma carta psicografada por Chico Xavier foi usada como evidência chave na solução do caso. Pronto, Daniel Filho resolve por nós: Chico Xavier é mesmo um canal com o além.

Tudo isso é feito com truques espertos - como nos créditos que sobem ao final do filme, mostrando imagens reais de Chico Xavier na TV repetindo coisas que vimos no filme há pouco, o que reveste de verdade as imagens. Os atores são todos ótimos - especialmente os dois Chicos, jovem e velho: Ângelo Antônio, um grande ator que sempre consegue imprimir graça e leveza aos seus personagens; e Nelson Xavier, já vivendo a figura pública que conhecemos do médium, de peruca e óculos escuros (mas não caindo na caricatura).



Mas há um senão - aliás, um senão trash: o que é aquele espírito Emanuel (que é, sei lá, o espírito preferencial, ou guia de Chico com o mundo extra-sensorial)? Um cara vestido de branco, todo bonitão e canastrão, desfilando uma intimidade esquisita com seu médium preferido? Que solução mais esquisita! As conversas entre Xavier e Emanuel são, quase sempre, constrangedoras. Especialmente quando ambientadas em cenários meio bucólicos. Nesses momentos, parece novela da Record. Incompreensível.

Assisti a Chico Xavier há cerca de três semanas. E só agora consegui vencer minha vontade de escrever um texto inteiro ironizando a relação entre o médium e o tal espírito canastrão. Às vezes, é melhor esperar mesmo. A conclusão é que temos um ótimo filme, ao qual faltou uma solução melhor para um ponto chave: como se materializa a mediunidade de Chico Xavier? Como é o espirito que ele vê e com quem conversa? Usa roupas? Está pelado? Se está vestido, se veste como o Anjinho do Maurício de Souza ou como um anjo de presépio qualquer? Fala com sabedoria bíblica ou coloquialmente? Enfim, como os médiuns de verdade não entregam o ouro, é um trabalho difícil, sem dúvida.

De resto, quando no mundo terreno, o filme é perfeito. Daniel Filho é o cara em matéria de cinema comercial.

Se você ainda não viu, vale a pena. É o sucesso nacional do ano. (Mas o melhor filme brasileiro em cartaz é outro, de Laís Bodanski: As Melhores Coisas do Mundo. Leia a crítica postada há alguns dias!).

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