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No teatro: "Estranho Casal", de Neil Simon

terça-feira, 30 de março de 2010 - 0 Comentários

Uma pequena reflexão registrada na crítica que BLOGIE fez de Amor sem Escalas, de Jason Reitman: alguns autores tratam de questões universais, atemporais - grandes questões da humanidade, se você preferir. Gente como Stanley Kubrick e Woody Allen e Francis Ford Coppola, por exemplo. Já outros autores - sem julgamento de quem é melhor ou pior - têm mais habilidade em retratar o espírito de uma época: o inigualável Billy Wilder (Se Meu Apartamento Falasse) e o grande Mike Nichols (A Primeira Noite de um Homem nos anos 60; Uma Secretária de Futuro nos anos 80; Closer nos anos 00) são desse time, que abrigaria, hoje, gente como Sofia Coppola e o próprio Jason Reitman.

Este raciocínio me voltou à cabeça enquanto assistia, durante o último final-de-semana, à peça Estranho Casal, em cartaz em São Paulo (a partir da semana que vem, no Teatro Renascence).















A montagem brasileira de Estranho Casal: legal, mas... vacila.


Estranho Casal é a adaptação brasileira (e abrasileirada) de uma peça da Broadway do final da década de 60, do genial Neil Simon (o mesmo de Descalços no Parque  e Metido em Encrencas). O texto foi adaptado para o cinema pelo próprio Simon, e, com a direção teatral e competente de Gene Saks, resultou na comédia homônima - um enorme sucesso.

O mundo todo conhece esse filme: Jack Lemmon e Walter Matthau fazem os amigos muito diferentes - o primeiro é um hipocondríaco, detalhista e chato inveterado; o segundo é um largado na vida, boa praça e não muito asseado - que, em razão de uma combinação de divórcios, acabam dividindo um apartamento. Lemmon e Mathau tinham uma química tão grande nas telas (já tinham feito um filme do Billy Wilder, e mais tarde fariam outro), que acabaram se tornando uma das grandes duplas do cinema. Ambos foram indicados para o Globo de Ouro de melhor ator de comédia de 1968. Trinta anos depois, voltaram aos papéis dos amigos em Dois Velhos Rabugentos (que, por decisão do tradutor, não poderia ter se chamado simplesmente Um Estranho Casal 2).


Veja o trailer do filme original, de 1968!

A questão é a seguinte: Neil Simon é da turma de Billy Wilder, de Mike Nichols, de Fitzgerald e de Flaubert; seu negócio é tratar de seus personagens com arte e humanidade, mas dentro de um contexto histórico específico. No caso, Estranho Casal é uma peça sobre o fim dos anos 60, sobre a falência da família americana, divórcios às pencas e novas organizações "familiares" - como amigos quarentões dividindo apartamentos. É um texto que trata de uma certa mitologia informal americana - por exemplo, jornalistas esportivos que bagunçam suas vidas, entre horários de trabalho malucos, noites de pôquer e falta de dinheiro.

Tirar a peça de Simon dos anos 60 e dos EUA, colocando-a no Brasil do Real, de Lula, do Rebolation e do PCC... é uma atrocidade artística. Que impacto tem mais dois caras se divorciando no mundo de hoje? E quem ficaria realmente dois meses com a geladeira quebrada? E o que há de excepcional nas duas irmãs meio dadas que se oferecem pros rapazes (na adaptação brazuca, duas gaúchas caricatas)? Matou toda a força do texto original, e é uma pena.

Fique claro que a peça, apesar disso, é um programa divertido: a montagem é muito engraçada, claro - as piadas e falas e brigas estão todas lá, preservadas -, é bem dirigida e os atores - Carmo Della Vecchia e Edson Fieschi - fazem um ótimo trabalho ao emular as caretas, gestos e tiques de Lemmon e Matthau. Mas o que o autor de novelas GIlberto Braga fez na adaptação do texto é coisa que não se faz. Mesmo.

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