Blogie - Cinema na VIP

Filme VIP da semana: "... E Justiça Para Todos"

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010 - 2 Comentários

Uma das coisas que mais me agradam no cinema dos anos 70 é o apetite com que se caía de pau em instituições. A geração de cineastas jovens, barbudos e rebeldes atacava geral. Subversão. Sobrava pra todo mundo nos três poderes.

No executivo, por exemplo, era alvo todo mundo desde a polícia (Serpico) até o presidente dos EUA (Todos os Homens do Presidente). Bureaus de informação não tinham nada de heroicos ao perseguir gente bacana como o personagem de Robert Redford em Três Dias do Côndor. Já o exército começou a década sendo ridicularizado por Robert Altman em MASH e terminou retratado como o horror nos olhos de Marlon Brando em Apocalipse Now.

O legislativo ganhou, num exercício de fantasia - e ao mesmo tempo numa crítica feroz -, um candidato a senador que tentava se colocar à margem da corrupção e das sacanagens de campanha, em O Candidato.

Não por acaso, três dos filmes citados acima - Todos os Homens do Presidente, Três Dias do Côndor e  O Candidato - foram estrelados por Robert Reford. Além de engajado e comprometido com valores liberais, o cara era o grande galã de Hollywood, o maior astro da década.

Mas o grande ator da década foi outro cara - uma rapaz franzino, que veio do teatro, meio feioso e com um nome nada atrativo - Alfredo.

Al Pacino (nunca se perguntou de onde vinha esse "Al"?) ganhou a chance de sua vida ao pegar o papel de Michael Corleone em O Poderoso Chefão (os executivos do estúdio, adivinhem só, queriam Robert Redford para o papel), e enfileirou uma série de trabalhos antológicos, que o colocam à frente de colegas que também viveram o auge nos anos 70 (Jack Nicholson em Estranho no Ninho e Chinatown; Robert DeNiro em Taxi Driver e Touro Indomável). Pacino partiu do primeiro Chefão para o segundo, e dali para Serpico, e então para Um Dia de Cão...

... e finalmente chegou a 1979, como o advogado íntegro até a medula, Arthur Kirkland, em ...E Justiça Para Todos, um dos melhores filmes de tribunal de todos os tempos (só lhe fazem frente Doze Homens e Uma Sentença e O Sol é para Todos). Aqui, o alvo é o poder judiciário, e a artilharia é elegante e de alta precisão.

















Al Pacino como Arthur Kirkland: um advogado honesto sozinho num mundo corrupto.

Kirkland é um advogado de ética inabalável, mergulhado no seu trabalho, dotado de uma energia inesgotável e uma devoção absoluta. Sua atuação em tribunal e sua dedicação aos seus clientes é vibrante. No entanto, dentro do pequeno universo que se encerra nos tribunais de sua cidade, ele é obrigado e enfrentar "o sistema". "O sistema", você sabe, é tudo aquilo que impedia que pessoas do bem - presumivelmente, aquelas identificadas com os democratas, ou com simpatia por valores socialistas, ou simplesmente jovens... o mundo era fácil de entender antes da queda do muro de Berlim - se dessem bem. No caso de Kirkland, "o sistema" era um juiz durão que lhe pegava no pé com seu legalismo intransigente.

Este é um ponto central do cinema dos anos 70: nenhuma instituição é boa. Nem a bandeira americana, cujo juramento promete "uma nação vigiada por Deus, indivisível, com liberdade e justiça para todos". No caso, a aplicação a ferro e fogo de uma minúcia da lei acabou mandando um inocente para a cadeia. O juiz era o cara durão. O advogado de defesa, Al Pacino. E aí, você já imagina, o bicho vai pegar.

E pega mesmo. Pacino, fazendo o cara sedutor e boa praça mais improvável da história do cinema, traça a advogada mais interessante da casa, descola dela informações quentes, troca favores com seus advogados brothers e se vê no meio de uma confusão (o tal juiz durão foi acusado de estupro e  ele, Pacino, é obrigado a defendê-lo).


Veja o trailer de ...E Justiça Para Todos!

A luta do advogado para tirar seu cliente inocente da cadeira - e para se livrar do cliente culpado, que é o juiz safado - se mostrará complexa, pesada, inglória. Ele acabará enxergando a possibilidade de usar o sistema contra o próprio sistema. Defenderá o juiz, com a condição de que este tire o tal rapaz do xilindró.

Após muitas negociações e demonstrações de que o judiciário americano é capaz de deixar qualquer um louco, o filme culmina numa sensacional cena de julgamento. Ao gosto subversivo do seu tempo, vemos o juiz caxias e arrogante no banco dos réus. Vemos um juiz de tendências suicidas comandando o espetáculo. E vemos Al Pacino, descabelado e desalinhado, com a pinta de maluco que lhe é peculiar, tomando o centro do palco e dando seu show.

O resultado é de lavar a alma.

O filme foi indicado a dois Oscars, melhor roteiro e melhor ator. Foi a quinta indicação de Al Pacino à estatueta durante aquela década, e a quinta esnobada da Academia. Quatro anos depois, ele ainda entregaria seu melhor trabalho, o antológico Tonny Montana de Scarface, para então rarear suas aparições no cinema por alguns anos - e voltar para finalmente buscar seu Oscar por Perfume de Mulher, já na década de 90.

É um tanto difícil encontrar ... E Justiça para Todos em DVD, mas é possível. Pelo menos o filme foi lançado. Serpico não teve a mesma sorte. Para vê-lo, só pescando nas madrugadas da TV a cabo.

... E Justiça Para Todos é daqueles filmes que nos restituem um pouco da pureza de intenções original, que nos lembram de como pensávamos em enfrentar o mundo e transformá-lo. E convida a mudar um pouquinho, ao dar um gostinho da satisfação de enfrentar e derrubar "o sistema".

Ou pelo menos arranhá-lo.

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Filme VIP da semana: "Descalços no Parque"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 - 2 Comentários

Como hoje é aniversário de casamento deste blogueiro, elejo como filme VIP da semana um filme que, ao mesmo tempo, é caro ao casal que ora comemora e que, de quebra, serve como referência para todo homem que resolve juntar os trapos com uma mulher. O filme é Descalços no Parque, de 1967, baseado numa peça da Broadway de grande sucesso, escrita pelo grande Neil Simon.

O filme trata de um jovem casal que inicia a vida em comum. A primeira coisa que sabemos sobre eles é que sua lua-de-mel foi uma maratona sexual, pois seis dias se passam sem que eles saiam da sua suíte. Findada a inauguração do casamento, o casal deixa o quarto e vemos os jovens Robert Redford - no caminho para se tornar o maior astro de Hollywood - e Jane Fonda - de beleza dourada e graça estonteantes. Um casal incomparavelmente atraente, esperto e promissor. Era o final da década de 60 e nada poderia detê-los.























Jane Fonda nem precisaria se esforçar muito para dar graça ao casamento, mas ela não se acomoda...


E então o filme ganha seu cenário definitivo: o pequeno apartamento no sexto andar de um prédio sem elevador. O apartamento, em sua precariedade de lar de recém-casados, será o detonador dos conflitos internos do casal.

Paul (Redford) é um advogado certinho, pé no chão, conservador, e vê o apartamento como ele é: um cubículo com um buraco no teto, sem aquecimento e com um quarto que mal abriga uma cama. Vê problemas em tudo e desconfia do vizinho fanfarrão e de prestadores de serviço.

Corie (Fonda) é uma moça espontânea, atrapalhada, que faz amigos com grande facilidade, preocupada com lances intangíveis como a "energia" que cerca o seu novo lar. Insiste em enxergar o potencial do apartamento, tendo uma visão otimista sobre todas as suas limitações, e se preocupa em levantar o astral do difícil começo dessa história.

As brigas começarão cedo e, ao final, veremos Redford enchendo a cara e trocando ideias com um mendigo no parque mais próximo. A moça vai buscá-lo, dando forma a uma inversão de papéis que os reaproximará. Aprender a conviver com as diferenças é, para este casalzinho, dar uma volta descalço no parque em pleno inverno.


Veja o trailer original de Descalços no Parque!


Descalços no Parque é uma bela crônica de como é viver com alguém sob o mesmo teto. Isoladas as variáveis da atração e da "liga" que se obtém no sexo, e afastadas as questões relativas a grana e família, a grande questão é suportar, mas mais do que suportar, se acostumar, se divertir e absorver as manias do outro. No fundo, Paul e Corie formam um ser único e diferente - e ainda mais interessante - do que eram separados. A beleza e a certa semelhança física de Redford e Jane ajudam a constituir essa nova unidade, que é garantida pela personalidade forte dos dois atores.

Quando me casei, não pude deixar de pensar nesse filme, ciente de que questões bestas como a louça escolhida para o lavabo ou o papel de parede poderiam se tornar ameaças sérias ao casamento. E esperançoso de que, assim como o casal-modelo do cinema americano (considero Redford e Fonda os astros com a melhor combinação de talento, beleza, carisma e caráter), atingíssemos rapidamente o clima de convivência feliz e orgulhoso que dá fim a Descalços no Parque.
























Robert Redford e Jane Fonda em 1967: que modelo pode ser melhor?


Três anos depois, tudo ótimo em casa. Acertar na primeira é sorte? Acho que não. Aprendemos bastante no cinema. Quem começa como Descalços no Parque não termina como A Guerra dos Roses.

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Todos Querem Ser Bob Dylan

sexta-feira, 22 de maio de 2009 - 5 Comentários

Na VIP deste mês, que chega hoje às bancas (com uma inacreditável Luli Miller, da novela Paraíso, na capa), o colunista Thales de Menezes aproveita o revival do vinil (discos no formato LP) e fala da sua capa preferida: The Freewheelin' Bob Dylan, segundo disco do grande poeta do rock, gravado quando ele tinha apenas 21 anos. Olha ela aí:





Depois de anos contemplando a imagem de Dylan novinho, a vida toda pela frente, cheio de talento ainda a ser descoberto, andando com uma gata numa quebrada de New York, Thales conclui: como ele queria ser o cara clicado naquela capa.

Thales não está sozinho: nos EUA, Dylan é tratado simplesmente como Deus (algo que não encontra paralelo no Brasil, onde adoramos achacar nossos heróis - Pelé, Chico Buarque, Roberto Carlos, não sobra um). Entre os paga-paus mais notórios, encontramos o sempre pop Cameron Crowe, diretor de Quase Famosos e Jerry Maguire, e Tom Cruise. Quando os dois se juntaram para filmar Vanilla Sky, deu nisso:






Nessa cena, o personagem de Cruise vive o auge de seu relacionamento/alucinação com a dançarina Sofia (Penélope Cruz). Tudo é perfeito, ele vive a vida que sempre sonhou, e nada melhor para emoldurar esse sonho do que inseri-lo na capa do Freewheelin' Bob Dylan...

A coisa é tão forte que o clima pegou entre Cruise e Penélope e, a partir de Vanilla Sky, eles namoraram por alguns anos.

A propósito: Vanilla Sky é bacana. Foi tratado como lixo quando do seu lançamento (em boa parte devido à alta expectativa gerada pelo filme anterior de Crowe, Quase Famosos, que lhe rendeu um Oscar de roteiro e um Globo de Ouro de melhor filme). Mas é um baita filme. É o maior arsenal de citações pop por minuto do cinema, batendo Alta Fidelidade e qualquer filme do Kevin Smith. Vale passar na locadora e relembrar.

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Porrada! - Filmes violentos para pensar

sexta-feira, 24 de abril de 2009 - 0 Comentários

Veja aqui três filmes violentos que marcaram gerações, fizeram pensar e que contam com cenas de luta animais.

(Para ler sobre as outras 17 melhores cenas de luta no cinema, vá à banca e leia a VIP deste mês!)

A Laranja Mecânica - Alex e seus Droogs x Gangue do Billy Boy

Tirando a noite para praticar um pouco da velha ultra-violência, Alex e seus Droogs encontram a gangue rival, comandada por Billy Boy. A porrada come solta (ainda que segundo a coreografia milimétrica de Stanley Kubrick). De trilha, uma ópera de Rossini. Arte em estado bruto. Brutal.




Clube da Luta - Narrador x Angel Face

É a Laranja Mecânica da Geração Y. Executivos, contínuos, garçons, gente de todo tipo entra no clube fundado por Durden e seu sócio, o Narrador (Edward Norton), para exorcisar as vidinhas urbanas sem graça. Muitas cenas bacanas: a primeira briga entre os amigos fundadores; o Narrador se socando na frente do chefe embasbacado; e o Baby Face (puxa-saco juvenil do Durden) apanhando feio do Narrador no Clube.















Veja as regras do Clube da Luta na revista!


Touro Indomável - Jake LaMotta x Sugar Ray Robinson

Robert DeNiro ganhou um Oscar por viver o ex-campeão Jake LaMotta. Dirigido por Martin Scorsese, Touro Indomável é não só o melhor filme de boxe; é um dos melhores filmes de todos os tempos. Veja por que na cena abaixo: ela traz a luta de LaMotta contra Sugar Ray Robinson. Scorsese usa câmera lenta, flashes, perspectiva e muito sangue espirrado para criar uma verdadeira alucinação. Aguarde o final, quando um DeNiro deformado - e derrotado - caminha até o vencedor e ri dele: "você não me derrubou!"





Na semana que vem: cenas de luta clássicas de filmes pop. De Volta Para o Futuro, Karate Kid, Os Caçadores da Arca Perdida. Porque os anos 80 chutavam rabos!

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Porrada! - Cenas de Luta Animais no Cinema

quinta-feira, 23 de abril de 2009 - 0 Comentários

É verão no hemisfério norte - e Hollywood lança toneladas de filmes de ação para coincidir com as férias escolares. Como aperitivo para a pancadaria de Transformers, G.I. Joes, Inimigos Públicos e heróis de HQ, preparamos um aperitivo com as 20 melhores cenas de luta do cinema.

A matéria completa você confere na revista VIP deste mês, que acaba de ser lançada (e que traz a Priscila, do Big Brother, na capa)!

BLOGIE publicará os vídeos com as cenas selecionadas para a matéria. Tem muita coisa boa e ruim, de Borat a Laranja Mecânica, de Os Três Patetas a Touro Indomável. Com direito a Chucky Norris, Karate Kid, Bruce Lee e até De Volta para o Futuro!

Pra começar, vamos do herói da semana, Quentin Tarantino:


Kill Bill Vol. 2 - Beatrix Kiddo x Elle Driver (a briga das loiras no trailer)

Dos dois filmes que contam a saga da "Noiva" Beatrix Kiddo, é até difícil escolher a melhor cena de luta. Há desde a briga caseira que abre o primeiro filme até o coreografado embate entre a Noiva e 88 capangas da máfia japonesa. Mas a melhor é a que bota as duas loiras preferidas de Bill frente a frente. Em um trailer no meio do deserto - e devidamente equipadas com espadas Hatori Hanzo -, Beatrix (Uma Thurman, durona) e Elle Driver (Daryl Hannah, caolha) se pegam pra valer. O trailer é destruído, Elle quer ver Beatrix morta, mas esta é mais malvada: arranca o único olho da adversária, pisa nele com seu pé descalço e abandona a coitada em um trailer com uma cobra venenosa à solta. Quentin Tarantino concebeu uma das brigas mais violentas do cinema, e protagonizada por duas loiras!


Fetiche é duas loiras se matando no trem.


Leitor: fique de olho, vou publicar três vídeos por dia!

E confira a matéria na revista!!!

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Filme VIP da Semana: "O Verão de Sam", de Spike Lee

quarta-feira, 1 de abril de 2009 - 0 Comentários

Pra começo de conversa: Spike Lee é um um diretor que pode ser qualificado daquilo que os americanos chamam de badass - quando seus filmes começam a rondar o politicamente incorreto, os sentimentos sujos, é bem nessa hora que ele afunda o pé no acelerador.

Foi assim em Faça a Coisa Certa, quando Mookie, o negro mais pacato do verdadeiro barril de pólvora em que se transformou o Brooklyn, resolve iniciar a depredação da pizzaria do Sal (o italiano razoavelmente boa praça que lhe dá emprego).

Foi assim em A Última Noite, quando o traficante vivido por Edward Norton, indo para a prisão, resolve soltar o verbo mentalmente contra todas as etnias, minorias e maiorias que possam ser ofendidas. Uma inundação de preconceito e ódio, liberada numa catarse pra lá de incômoda.

Mas a obra mais selvagem do cara é o pouco conhecido O Verão de Sam, um filmaço lançado há dez anos, e que merece uma lembrança (e uma ida à locadora).

A história principal é a seguinte: no verão de 1978, um dos mais quentes da história de Nova Iorque, um serial killer autointitulado "O Filho de Sam" aterroriza a cidade. Essa parte é verdadeira, realmente aconteceu. A partir daí, Spike Lee cria uma teia de personagens fictícios, baseados num bairro italiano no Bronx. A moçada, mais do que amedrontada, se vê tentada a, ainda que involuntariamente, usar o caso para dar vazão a tudo que eles têm de ruim.

Gente como a Gente















Rapaziada a fim de briga no Bronx.


O núcleo principal inclui John Leguizamo como Vinny, o cabelereiro descolado que, por ser um dançarino habilidoso (estamos em 1978, era da disco), descola uma namorada gostosona (Mira Sorvino, em grande atuação). O cara não passa de um John Travolta wannabe, mas pelo menos é menos delinquente do que seus amigos do bairro.

O melhor amigo do cabelereiro é Richie, um jovem que resolveu aderir ao movimento punk. Cabelo moicano, muito couro e tachinhas, camisetas com a bandeira do Reino Unido, etc. À noite, faz uns bicos como michê pra conseguir comprar uma guitarra Fender.

Richie (Adrien Brody, em sua melhor atuação, um arraso) é visto pelos vizinhos ítalo-americanos machões como uma aberração, e isso é agravado pelo fato de que ele acaba pegando Ruby (Jennifer Esposito), a maior gata do pedaço. Daí para virar um dos suspeitos de ser o serial killer, é um pulo...

O Verão de Sam é um prodígio de texto, de atuação, de direção e de montagem. Sua primeira meia hora incomoda, ao mostrar o preconceito dos seus protagonistas. A hora seguinte dá um nó no estômago, ao vermos como uma ideia fixa e pessoas em grupo acabam sendo uma mistura que vai acabar em algo muito errado. E a última meia hora arrebata, com o show de barbárie que gente a princípio normal consegue promover.

Amizade que resiste a quase tudo












Richie e Vinny: amizade improvável.


O ponto mais tocante do filme é a amizade entre Vinny e Richie: Vinny tenta entender a conversão de Richie nessa coisa estranha e nova que era um punk por aqueles lados - mas não consegue. Quando instado pelos outros caras a explicar que catzo é aquilo, se se vestir daquele jeito é coisa de homem, se aquilo não é a cara de um serial killer, Vinny não consegue defender o amigo. Tanto que acaba envolvido no inevitável linchamento do rapaz.

Já Richie, por seu lado, entende a cabeça de Vinny. E deixa quieto. O que é muito, mas muito triste.

A imagem que fica do filme é a de Richie tocando Baba O' Rilley, do The Who, no seu quarto, enquanto o mundo fica de cabeça pra baixo do lado de fora. Uma cena absolutamente mágica, coisa de gênio, que você pode checar logo abaixo:



E isso não é trailer, é um PEDAÇO DO FILME!!!

Mais que isso, amigo, não dá pra falar. Pode alugar O Verão de Sam e descobrir um baita filme escondido.

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Cuidado com o que você pede à sua namorada!

domingo, 29 de março de 2009 - 2 Comentários

A cena abaixo mostra o risco que o camarada está correndo quando pede algo "mais apimentado" para a sua namorada. Ela é retirada de O Verão de Sam, filmaço do Spike Lee (falarei sobre ele em outro post, ao longo da semana).

Um breve contexto: estamos na década de 70, era do disco e do Studio 54. O John Leguizamo é um cabelereiro ítalo-americano descolado que, por dançar bem, tem uma namorada gostosa (Mira Sorvino). No fundo, não passa de um John Travolta wannabe. Entupidos de pó, eles acabam indo - por sugestão dele e sob resistência dela - a uma pós-balada pesada: um bacanal sem regras, suingueira total, todo mundo transando com todo mundo. A conversa que se segue é a volta pra casa depois da loucura toda.


Lição nº 1 para cabelereiros baixinhos e feios: se você descolou uma Mira Sorvino, agradeça aos céus - e não vá inventar bobagem que possa estragar o encanto.


Dois detalhes sobre essa cena:

1) Ela virou um tipo de símbolo do girl power (o que isso significa, não sei muito bem - afinal, até as Spice Girls eram símbolo do girl power);

2) Ela contribuiu bastante para outra marca importante do filme de Spike Lee: é o sexto colocado no Top Fuck List do Wikipedia. Ou seja, é o sexto filme em que mais se falou a palavra fuck ou seu derivado qualitativo, fucking.

Ainda nesta semana, uma análise sobre O Verão de Sam.


PS: o primeiro colocado do Top Fuck List é Cassino, do Martin Scorsese. Só podia ser dele.

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Homens VIP do Cinema: Marlon Brando / Don Corleone

segunda-feira, 23 de março de 2009 - 0 Comentários

Marlon Brando em O Poderoso Chefão. Provavelmente, o papel mais lendário da história do cinema, tanto pela importância - afinal, o filme foi um enorme sucesso, sustentando a marca de maior bilheteria de todos os tempos até o lançamento de Star Wars - quanto pelas curiosidades que o cercam - entre elas, o Oscar que Brando ganhou e não buscou, tendo mandado uma índia falsa em seu lugar para recusá-lo.

Mas o surgimento em si do Vito Corleone de Brando é a melhor história de todas.

O autor do livro O Poderoso Chefão, o ítalo-americano Mario Puzo, viu sua obra se tornando um best seller, e conseguiu vender os direitos de filmagem para um grande estúdio de cinema - a Paramount. Certo dia, mandou uma carta para Marlon Brando, dizendo: "Sr. Brando, eu escrevi um livro chamado The Godfather, e acho que você é o único ator vivo que pode fazer o protagonista, Don Vito Corleone".



Marlon Brando, o Chefão: o melhor ator no melhor melhor papel do melhor filme. Coisa única.


Convencer Brando a aceitar o papel era o menor dos obstáculos - difícil era convencer os estúdios a aceitarem Brando. À época, o ator já era uma lenda, tido como o maior de todos os tempos e tudo mais, mas estava em franca decadência. Tinha fama de encrenqueiro e vinha de uma série de filmes fracassados. Os executivos da Paramount condicionavam a grana para produzir o filme à não-escalação de Brando.

Mas estávamos nos anos 70 e, por algum motivo, o diretor escalado para o filme era o iniciante e talentoso Francis Ford Coppola, um sujeito que, aprenderiam os estúdios, gosta das coisas do seu jeito e não liga muito para estouros de orçamento. Coppola comprou a visão do autor do livro e queria emplacar Brando como protagonista. Encheu tanto o saco dos chefes que conseguiu um "teste de câmera" para Brando.

Só que, entenda, estamos falando de Marlon Brando, e Marlon Brando não faz "teste de câmera". Para disfarçar, lá foi Coppola com uma câmera na mão na casa do ator, para um "teste de maquiagem". E então aconteceu, bem em frente à câmera ligada do diretor, a transformação histórica.

Brando falou "andei pensando em algumas coisas", e começou a se transformar em Don Corleone. Passou as mãos cheias de graxa no cabelo, deixando-os pretos e esticados para trás. Encheu a boca com lenços Kleenex, para ficar com as bochechas gordas, pois acreditava que o seu personagem deveria ter o aspecto de um buldogue, "com aparência feroz mas, no fundo, de natureza pacata e carinhosa". E começou a falar em uma rouquidão sofrida, pois, na sua cabeça, o personagem tinha levado um tiro na garganta em seu passado. Nascia, ali, Don Vito Corleone.

A cena está gravada e disponível, escondida no meio do monte de extras contidos na caixa de DVDs da trilogia O Poderoso Chefão. Oportunidade rara de ver um gênio fazendo seu trabalho.

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Filme VIP da Semana: "Butch Cassidy e Sundance Kid"

quarta-feira, 11 de março de 2009 - 0 Comentários

Quando você para pra pensar no cinema de quarenta anos atrás, deve imaginar um filme todo quadradinho, com começo, meio e fim, mocinhos e bandidos bem definidos e final feliz e previsível - certo?

Errado. Filmes lançados na virada da década de 60 para a de 70, como A Primeira Noite de um Homem, Bonnie & Clide e Midnight Cowboy, subverteram a fórmula do filme de sucesso. Protagonistas esquisitos, finais meio anti-clímax e temas mais pesados deram emprego a gente como Dustin Hoffman, Al Pacino e Francis Ford Coppola - tipos que não teriam vez no cinemão clássico.

Mas o mais bem acabado exemplar dessa época acaba de completar quarenta anos: Butch Cassidy e Sundance Kid, um misto esquisitão de comédia e faroeste, no qual os heróis são ladrões de banco que dividem a mesma namorada e morrem na última cena. Os ladrões são Paul Newman e Robert Redford, as grandes estrelas da época, firmando aqui uma das parcerias mais marcantes da história do cinema (repetida apenas uma outra vez, em Golpe de Mestre).

Mas não é só isso. O filme toca nas questões centrais da existência do macho: posso desejar a mulher do amigo? Devo arriscar meu rabo pelo brother em perigo? Pra que levar tudo tão a sério? E, em última análise, nunca se esquecer que há sempre a opção de apertar aquele famoso botão que começa com "F" e que salva a honra do cidadão.

Por todas essas razões, Butch Cassidy e Sundance Kid é o filme VIP da semana. Saiba por que este é um filme que você tem que assistir.


A Dupla: habilidades complementares e amizade a toda prova



















Redford e Newman: amigos na vida real, criaram o buddy movie definitivo.


Butch é um malandro bom de papo e cheio de ideias (mas não necessariamente brilhante). Sundance Kid é um cara curto das ideias - e de pavio mais curto ainda. De quebra, Sundance é o gatilho mais rápido do oeste. Juntos, eles tramam assaltos a bancos que, a despeito da fragilidade de seus planos, acabam dando certo. Um dia, numa das ideias "geniais" de Butch, resolvem mudar para trens pagadores. Um erro de cálculo na quantidade de dinamite põe tudo a perder e eles se veem no meio de uma terrível perseguição (que tomará dois terços do filme).

O segredo do sucesso da dupla: Butch dá as ideias, não por ser muito inteligente, mas por ser um sonhador. Sundance resolve a parada, pois é um homem de ação. De certa forma, as frias em que o primeiro mete a dupla são o combustível que move o segundo.

A cena clássica da brodagem: os dois amigos estão encurralados no alto de um penhasco. Lá embaixo (bem lá embaixo), um riozinho. É ser pego ou se jogar lá de cima. E aí eles negociam:

Butch: Você pula primeiro.
Sundance: Não!, eu disse.
Butch: Qual seu problema?!?
Sundance (encabulado): Não sei nadar.
Butch (rindo muito): Você está louco? Só a queda vai provavelmente nos matar!

E eles riem. E declaram sua amizade incondicional, sem dizer uma palavra. E pulam.


Uma mulher para dois: Katherine Ross

A professorinha Etta Place é a namorada de Sundance Kid. Ao contrário das professorinhas indefesas dos filmes de faroeste, Etta sabe se defender sozinha, como fica claro logo na sua primeira aparição, em que ela confronta seu namorado fora-da-lei.

Etta vai mais longe: ela alimenta o óbvio interesse que o parceiro do seu namorado nutre por ela. Na cena mais famosa do filme, ela topa um rolê na bicicleta de Butch. Confira:


Paul Newman mostra como se aplica uma cantada elegante na mulher do melhor amigo.


Etta é deliciosamente vivida por Katherine Ross, a mulher que foi para o final dos anos 60 o que Scarlett Johansson tem sido para estes anos 2000. A atriz, que viveu a Elaine Robinson de A Primeira Noite de um Homem, era a mulher ideal da geração da contracultura: olhos e cabelos castanhos e desafiadores, sexy e com um ar inquieto. Dividiu seus amores com Butch Cassidy e Sundance Kid e enfeitou a tela durante os vinte minutos em que apareceu no filme.


Tempos Modernos: o macho em extinção

Um dos pontos centrais de Butch Cassidy é a sobrevivência do macho em um mundo que muda rápido demais. A ação rola no fim dos tempos dos cowboys. Já no início do século 20, as instituições se fortaleciam, os roubos a bancos se tornaram crimes federais - e nossos heróis se viram numa situação nova e desconfortável.

Tentando se adaptar aos novos tempos, eles vão atrás de trens, aprendem a andar de bicicleta, se aventuram na América do Sul. A bem da verdade, Butch tenta encarar os novos tempos. Sundance fica meio deslocado e resignado, como um coroa dos dias de hoje que não consegue dominar seus controles remotos.

A frase clássica, de Butch: "o futuro é todo seu, sua bicicleta idiota!"

O mundo moderno, simbolizado pela trip deles a Nova Iorque, vai fechando o cerco até eles não verem outra alternativa que não seja apertar a tecla "F".

Butch Cassidy e Sundance Kid trata disso: do fim dos tempos para o macho em estado bruto. Do excesso de controles, autoridades, novidades que nos impedem de exercer nossa virilidade mais primária. Enfim, um troço bem anos 60, mas que incomoda até hoje.

Um filme essencial. Uma versão comemorativa (afinal, são 40 anos) acaba de ser lançada em DVD, com uma penca de extras. Não perca.

Em tempo: nossos heróis vieram para a América do Sul, mas não conheceram o que temos de melhor: o futebol. Uma pena. Pois é ele que nos garante um resquício de paz e satisfação dos nossos instintos de homem das cavernas. Além, é claro, da preservação da espécie.

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Filme VIP da Semana: "Trainspotting"

segunda-feira, 2 de março de 2009 - 2 Comentários

O grande vencedor do Oscar deste ano, você sabe, foi Quem Que Ser um Milionário?. É um tal de nêgo falar em um certo "estilo Bollywood" do filme, é um papo-aranha sem fim... Mas quem é mais chegado na sétima arte sabe que o estilo rápido, o tratamento pop e os diálogos cortantes (sem incorrerem no exibicionismo de um Tarantino) são marca registrada não do cinema indiano, mas sim do diretor do longa premiado: Danny Boyle.

Danny Boyle, que, há uns quinze anos, apareceu com Cova Rasa, e que atingiu grande sucesso com um dos filmes que mais marcaram os anos 90: Trainspotting, a saga de um bando de drogados escoceses rumo ao nada. O filme que, de quebra, fez de Ewan McGregor uma estrela.

Trainspotting é o primeiro Filme VIP da Semana, uma sessão que estreia agora no BLOGIE. É o filme eleito porque toca em questões centrais do universo macho do leitor de VIP. Se você sobreviver nos pubs de Edimburgo, você se dará bem em qualquer lugar!


Alta brodagem nas Highlands

McGregor é Renton, um cara que, vinte anos antes, bem poderia ter sido o Alex de Laranja Mecânica. Mas estamos nos anos 90, e ele e sua turma evitam a todo custo as decisões que a vida adulta impõe. Para ajudá-los, muita heroína, muitas horas de bar, muitos erros coletivos.

Da moçada, o icônico Sick Boy e o bobalhão Spud são parceiros de vício de Renton. Logo na primeira cena, vemos os dois últimos fugindo de seguranças após um roubo para comprar heroína.

Tommy, um esportista que não usa drogas, e Begbie, o típico sociopata do pub (que tira o seu barato a partir de brigas), aconselham os amigos a saírem fora da heroína. Renton topa, e sua luta para ficar limpo é o fio condutor do filme.

















Mui amigos: Spud, Renton e Begbie seguem juntos até o fim - cada um à sua maneira...


Mais à frente, a amizade será posta à prova: prisão, um bebê morto por negligência, AIDS e morte pintam no caminho dos brothers. E, no fim das contas, Renton amadurece com a pior das constatações sobre seus amigos.

E mostra que identificar quem é seu amigo de verdade pode ser a chave para sair do buraco.


Ele é o cara: não se meta com Begbie

Robert Carlyle é Begbie, o rei do pub, o homem mais perigoso de Edimburgo. Um taco de sinuca, uma pint de cerveja e uma palavra qualquer de um interlocutor é tudo de que ele precisa para começar a pancadaria.

Com seu bigodão, Begbie encarnou o hooligan padrão dos anos 90. Sua falta de escrúpulos era absoluta, e não poupava os amigos: uma mão cortada aqui, uma traição por grana ali, e tudo que lhe restou foi seu inseparável canivete.


A grande cena: um supositório de ópio, uma privada imunda e Renton

Tão famoso quanto a cena em que John Travolta e Samuel L. Jackson conversam sobre hamburger em Pulp Fiction, o momento em que Renton, tentando se livrar da heroína, resolve encarar um supositório de ópio, é uma obra-prima. O artigo, Renton consegue em um boteco dos mais derrubados.

E então, no banheiro mais nojento da Grã-Bretanha, ele deixa cair a droga na privada. Alucinado, ele mergulha de cabeça até sumir total e absurdamente dentro do vaso. Consegue resgatar o tal supositório, mas volta ao bar devidamente coberto de merda da cabeça aos pés. Veja a cena:




E isso nos remete novamente a Quem Quer Ser um Milionário?, filme que dá sequência à tradição de heróis cobertos de merda na obra de Danny Boyle.


Perto da turminha de Renton em Edimburgo, a vida na favela de Mumbai até que é mole.


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