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Filme VIP da Semana: "Butch Cassidy e Sundance Kid"

quarta-feira, 11 de março de 2009 - 0 Comentários

Quando você para pra pensar no cinema de quarenta anos atrás, deve imaginar um filme todo quadradinho, com começo, meio e fim, mocinhos e bandidos bem definidos e final feliz e previsível - certo?

Errado. Filmes lançados na virada da década de 60 para a de 70, como A Primeira Noite de um Homem, Bonnie & Clide e Midnight Cowboy, subverteram a fórmula do filme de sucesso. Protagonistas esquisitos, finais meio anti-clímax e temas mais pesados deram emprego a gente como Dustin Hoffman, Al Pacino e Francis Ford Coppola - tipos que não teriam vez no cinemão clássico.

Mas o mais bem acabado exemplar dessa época acaba de completar quarenta anos: Butch Cassidy e Sundance Kid, um misto esquisitão de comédia e faroeste, no qual os heróis são ladrões de banco que dividem a mesma namorada e morrem na última cena. Os ladrões são Paul Newman e Robert Redford, as grandes estrelas da época, firmando aqui uma das parcerias mais marcantes da história do cinema (repetida apenas uma outra vez, em Golpe de Mestre).

Mas não é só isso. O filme toca nas questões centrais da existência do macho: posso desejar a mulher do amigo? Devo arriscar meu rabo pelo brother em perigo? Pra que levar tudo tão a sério? E, em última análise, nunca se esquecer que há sempre a opção de apertar aquele famoso botão que começa com "F" e que salva a honra do cidadão.

Por todas essas razões, Butch Cassidy e Sundance Kid é o filme VIP da semana. Saiba por que este é um filme que você tem que assistir.


A Dupla: habilidades complementares e amizade a toda prova



















Redford e Newman: amigos na vida real, criaram o buddy movie definitivo.


Butch é um malandro bom de papo e cheio de ideias (mas não necessariamente brilhante). Sundance Kid é um cara curto das ideias - e de pavio mais curto ainda. De quebra, Sundance é o gatilho mais rápido do oeste. Juntos, eles tramam assaltos a bancos que, a despeito da fragilidade de seus planos, acabam dando certo. Um dia, numa das ideias "geniais" de Butch, resolvem mudar para trens pagadores. Um erro de cálculo na quantidade de dinamite põe tudo a perder e eles se veem no meio de uma terrível perseguição (que tomará dois terços do filme).

O segredo do sucesso da dupla: Butch dá as ideias, não por ser muito inteligente, mas por ser um sonhador. Sundance resolve a parada, pois é um homem de ação. De certa forma, as frias em que o primeiro mete a dupla são o combustível que move o segundo.

A cena clássica da brodagem: os dois amigos estão encurralados no alto de um penhasco. Lá embaixo (bem lá embaixo), um riozinho. É ser pego ou se jogar lá de cima. E aí eles negociam:

Butch: Você pula primeiro.
Sundance: Não!, eu disse.
Butch: Qual seu problema?!?
Sundance (encabulado): Não sei nadar.
Butch (rindo muito): Você está louco? Só a queda vai provavelmente nos matar!

E eles riem. E declaram sua amizade incondicional, sem dizer uma palavra. E pulam.


Uma mulher para dois: Katherine Ross

A professorinha Etta Place é a namorada de Sundance Kid. Ao contrário das professorinhas indefesas dos filmes de faroeste, Etta sabe se defender sozinha, como fica claro logo na sua primeira aparição, em que ela confronta seu namorado fora-da-lei.

Etta vai mais longe: ela alimenta o óbvio interesse que o parceiro do seu namorado nutre por ela. Na cena mais famosa do filme, ela topa um rolê na bicicleta de Butch. Confira:


Paul Newman mostra como se aplica uma cantada elegante na mulher do melhor amigo.


Etta é deliciosamente vivida por Katherine Ross, a mulher que foi para o final dos anos 60 o que Scarlett Johansson tem sido para estes anos 2000. A atriz, que viveu a Elaine Robinson de A Primeira Noite de um Homem, era a mulher ideal da geração da contracultura: olhos e cabelos castanhos e desafiadores, sexy e com um ar inquieto. Dividiu seus amores com Butch Cassidy e Sundance Kid e enfeitou a tela durante os vinte minutos em que apareceu no filme.


Tempos Modernos: o macho em extinção

Um dos pontos centrais de Butch Cassidy é a sobrevivência do macho em um mundo que muda rápido demais. A ação rola no fim dos tempos dos cowboys. Já no início do século 20, as instituições se fortaleciam, os roubos a bancos se tornaram crimes federais - e nossos heróis se viram numa situação nova e desconfortável.

Tentando se adaptar aos novos tempos, eles vão atrás de trens, aprendem a andar de bicicleta, se aventuram na América do Sul. A bem da verdade, Butch tenta encarar os novos tempos. Sundance fica meio deslocado e resignado, como um coroa dos dias de hoje que não consegue dominar seus controles remotos.

A frase clássica, de Butch: "o futuro é todo seu, sua bicicleta idiota!"

O mundo moderno, simbolizado pela trip deles a Nova Iorque, vai fechando o cerco até eles não verem outra alternativa que não seja apertar a tecla "F".

Butch Cassidy e Sundance Kid trata disso: do fim dos tempos para o macho em estado bruto. Do excesso de controles, autoridades, novidades que nos impedem de exercer nossa virilidade mais primária. Enfim, um troço bem anos 60, mas que incomoda até hoje.

Um filme essencial. Uma versão comemorativa (afinal, são 40 anos) acaba de ser lançada em DVD, com uma penca de extras. Não perca.

Em tempo: nossos heróis vieram para a América do Sul, mas não conheceram o que temos de melhor: o futebol. Uma pena. Pois é ele que nos garante um resquício de paz e satisfação dos nossos instintos de homem das cavernas. Além, é claro, da preservação da espécie.

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