Crítica: "Um Olhar do Paraíso", de Peter Jackson
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários
(Indicado ao Oscar de ator coadjuvante)
Tinha tudo pra dar certo: um diretor de mega-produções (série O Senhor dos Anéis, King Kong), um livro de muito sucesso e um elenco de primeira linha (Mark Whalbergh, Rachel Weiz, Stanley Tucci e Saoirse Ronan, a menininha de Desejo e Reparação). A história, estrelada pela talentosa Saoirse, trata de Susie Salmon, uma menina de 14 anos que é assassinada por um maníaco e que, do limbo particular em que ela aguarda pelo ingresso para o Paraíso, tenta intervir nas vidas de seus pais, daquele que seria seu primeiro namorado e do seu assassino. Eventuais toques de Ghost aqui e ali. Mas não deu certo.
A verdade é que Um Olhar do Paraíso, empreitada muito pessoal de Peter Jackson (que ficou muito impressionado ao ler o livro logo após a perda dos seus pais), é uma pequena bomba embrulhada em uma linda caixa de presentes, com lacinho e tudo. De tão fofinho e sutil, o filme cansa.
Saoirse Ronan como Susan: pra quem teve um fim de vida tão infernal, um limbo fofinho e surrealista.
Pra começar, tratemos da parte mais difícil: as cenas mundanas são intercaladas com cenas fantasiosas da garotinha no purgatório. São cenários tão surreais quanto artificiais - embora muita gente vá dizer que são imagens lindas e etc e tal -, similares aos campos onde correm os Teletubbies ou, vá lá, aqueles papéis de parede com paisagens do Windows. A trilha sonora de Susie correndo pelos campos e praias do além é um troço que lembra aquele rock progressivo à Guilherme Arantes em início de carreira. Dureza.
Já no Planeta Terra, os pais de Susie sofrem pra caramba e têm enorme dificuldade em superar a perda. Peter Jackson, no entanto, tem enorme dificuldade em conferir profundidade a esses personagens, colando-os numa cartolina. Com isso, é desperdiçado o talento de Whalbergh e de Weiz.
Há um lado positivo: o sempre ótimo Stanley Tucci - indicado ao Oscar de ator coadjuvante - é o vizinho aparentemente inofensivo (mas com toda a pinta de psicopata) que molesta e mata Susie. Seu trabalho é perturbador, pra dizer o mínimo. Ele protagoniza as melhores cenas do filme, num jogo de gato e rato com Lindsey Salmon (Rose McIver, estreante no cinema), a irmã mais nova de Susie. Lindsey vai crescendo, se tornando mais atrativa aos olhos do doido e, unindo uma inteligência acima da média com uma intuição que talvez esteja sendo soprada pela irmã mais velha, passa a ter calafrios ao passar em frente à casa do cara.
A grande cena do filme - dentro da casa impecável do assassino - é de uma tensão digna de um David Fincher ou de um Hitchcock. Não é o suficiente, no entanto, para compensar a xaropada que vem antes e depois.
Veja o trailer e cheque se Um Olhar do Paraíso é pra você...
Os bem intencionados dirão que o filme traz uma linda mensagem - é necessário se desapegar, perdoar, tocar a vida pra frente e deixar o acaso ou o destino dar conta dos pilantras que estragam nossos planos -, mas, sinceramente, escrever este parágrafo cansou este blogueiro.
O filme estreia sexta-feira nos cinemas brasileiros, e deve encontrar seu público. Mas, se o amigo leitor aceitar uma sugestão de BLOGIE, dará preferência ao tratamento mais cético e ácido que os irmãos Coen dão às tragédias da vida. Até sexta publicarei meu comentário sobre Um Homem Sério, que estreia no mesmo dia.
P.S.: a crítica Isabela Boscov, da VEJA, atribuiu o fracasso do filme à opção de Jackson de não mostrar a violência sofrida por Susie. Assim, não conseguimos entender a pureza de sua alma ao se manter inocente após tal atrocidade. É uma boa análise. Mas, no fundo, acho que seria só mais uma cena desagradável em um filme totalmente equivocado.
Marcadores: cinema, Oscar, Peter Jackson, Rachel Weiz
Assinar
Postagens [Atom]

0 Comentários:
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial