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Estreia: "Foi Apenas um Sonho", com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009 - 4 Comentários

O Oscar está fechando cada vez mais seu target: se, nos últimos trinta anos, a cultura dos blockbusters passou a espremer os filmes com temas adultos nos três meses que antecedem o prêmio da Academia, agora a novidade é que mesmo neste período não há vida fácil para aqueles de gosto amargo.

Isso fica claro ao vermos que Foi Apenas um Sonho, adaptação do romance de Richard Yates (o nome original, tanto do livro quanto do filme, é Revolutionary Road, bem mais irônico e instigante), recebeu apenas três indicações ao Oscar, todas por categorias secundárias (melhor ator coadjuvante, direção de arte e figurino). O que é uma pena, pois o filme é ótimo.

Frank e April são o casal que se conhece jovem e sonhador, apropriadamente encarnados pela dupla romântica mais vencedora da história do cinema - Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, de Titanic. Em dois minutos de filme, essa fase juvenil do relacionamento é apresentada e cortada direto para a vida que se segue: dois filhos pequenos, trabalho desinteressante para Frank, excesso de tempo livre para April, vidinha vazia para ambos. Estamos no território dos filmes que tratam da falência do sonho americano, do projeto débil que é viver na classe média assentada em ruas tranquilas e casas espaçosas.

















Um trago e colinho não são suficientes para trazer paz à cabeça desse cara...


Para tentar apimentar a vida, e sem saber direito o que estão fazendo, os "jovens Wheeler" (como a corretora de imóveis vivida por Kathy Bates costuma chamá-los) se metem em situações que só pioram a coisa: casos extraconjugais, planos para largar o trabalho e mudança para Paris, pequenas mentiras e grandes discussões.

O filme é dirigido por Sam Mendes, marido de Winslet e vencedor do Oscar por Beleza Americana, outra crônica amarga sobre a vida no subúrbio. A diferença entre Beleza Americana e Foi Apenas um Sonho é que este não abre espaço nem para uma pontinha de redenção (o primeiro oferecia isso, ainda que depois da morte, e com uma boa pontuação de humor ao longo do filme). A visão de Sam Mendes vai na linha "essa vida é tudo de ruim".

Ainda assim, há algo de muito interessante em Foi Apenas um Sonho, e isso é mérito do casal de protagonistas - quando eles sonham com suas mudanças, você acredita; quando dizem se odiar (mesmo se amando), você lamenta. Quando rumam para o fim, você fica olhando para o nada, pensando na vida em termos mais sérios do que gostaria. É impensável por que razão alguém acharia a atuação de Brad Pitt em Benjamin Button superior à de DiCaprio neste filme; é simplesmente uma escolha errada a indicação de Kate Winslet por O Leitor, ao invés desta atuação arrebatadora.


Veja o trailer de Foi Apenas um Sonho. E vá ao cinema!



Foi Apenas um Sonho faz parte da tradição de grandes filmes que estudam a incapacidade humana em manter um relacionamento adulto com um mínimo de estabilidade. Closer, de Mike Nichols, Domicílio Conjugal, de François Truffaut, e metade dos filmes do Woody Allen tratam desse tema com estilos diferentes e igual sucesso.

Mas o filme que mais conversa com Revolutionary Road é Two for the Road (aqui, Um Caminho para Dois), de 1967, dirigido por Stanley Donen. O filme traz Albert Finney e Audrey Hepburn como o casal que enfrenta a crise após dez anos de relacionamento. O cenário, ao invés do lar, é uma viagem pelo sul da França. Os problemas enfrentados, os mesmos (filhos que vieram antes do que se esperava, traições etc). A grande diferença, no entanto, está na maturidade para encarar os problemas e o desafio da vida a dois: enquanto o jovem Sam Mendes e seus personagens com sonhos ainda juvenis rumam para um fim trágico, os mais rodados Donen, Finney e Hepburn permitem-se rir um pouco da situação e buscam o melhor caminho para tocar a vida em frente.

Resumindo: acho que Sam Mendes, quando tiver cinquenta anos, pensará em fazer outro filme com o mesmo tema, mas com um pouco mais de sabedoria, coisa que ele hoje toma por "comodismo". Se fizer isso, ganharemos todos. Ele terá feito outro ótimo filme, valorizando ainda mais a sinceridade de Foi Apenas um Sonho.

E aí, talvez, o Oscar se lembre dele novamente.

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4 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Adorei o filme. Todo o elenco é ótimo (e a cena final, com a corretora e o seu marido, hein? excelente ...).

Não vi nenhuma referência ainda, mas a personagem de Kate me lembra demais Laura Brown, em As Horas, com o mesmo desespero e tédio. Você vê alguma semelhança?

5 de fevereiro de 2009 às 21:47

 
Anonymous Anônimo disse...

Vi agora o trailler no blog e não poderia deixar de fazer um comentariozinho (maldoso). Não sei se seria demais para o diretor filmar uma transa da esposa, mas tinha de colocar os personagens masculinos como ejaculadores precoces? Será que foi isto que motivou o tédio da personagem? Rs rs rs
Tremendo mau exemplo pra plateia...

6 de fevereiro de 2009 às 00:02

 
Blogger Redação VIP disse...

Thays, bem lembrado, é a própria! Eu estava escrevendo o comentário sobre "O Leitor", que é do mesmo diretor de "As Horas" e, por uns segundos, fiquei confuso, pensando: "a Kate Winslet estava em 'As Horas'?"

Essa angústia também está em "O Leitor", vale dar uma olhada. Só que acho que é mais complexo e mais bem construído... diga o que acha depois!

Abraços,
Ricardo

PS: verdade, não tinha pensado no lance da ejaculação precoce. Na cabeça do Sam Mendes, nenhum homem manda bem na cama (vide "Beleza Americana"). Deve rolar um complexo, haha...

6 de fevereiro de 2009 às 10:18

 
Anonymous Anônimo disse...

Quando estava escrevendo no meu blog sobre o filme, lembrei também da Mme Bovary, que tem muito de April Wheeler... E, curiosamente, Kate Winslet faz um elogio a Emma Bovary no filme "Pecados Íntimos". Não deve ser mera coincidência estas escolhas...

Bom, agora vou conferir O Leitor...

7 de fevereiro de 2009 às 20:47

 

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