Blogie - Cinema na VIP

Tudo sobre John Hugues, o "bardo da juventude"

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010 - 0 Comentários

Se você gostar muito mesmo de cinema - e se encarar um texto em inglês -, não hesite em procurar a atual edição da revista americana Vanity Fair. A edição de fevereiro, como sempre, é a "Hollywood edition", aproveitando o gancho do Oscar. Neste ano, uma capa tripla traz toda a nova geração de estrelas do cinema (Kristen Stewart, Carry Mulligan, Anna Kendrick...). No recheio, um making of com fotos sensacionais da produção de Touro Indomável. Outra matéria trata das ilustradoras e pintoras (todas mulheres, coisa de tarado) que empregavam toda sua delicadeza na preparação das animações clássicas da Disney, nos anos 30 e 40. Um ensaio com os principais indicados ao Oscar, clicados pela lendária fotógrafa Annie Leibovitz.

Mas a maior atração de todas é uma matéria sensacional tratando de um enigma contemporâneo: o que fez John Hugues, cineasta falecido em agosto de 2009, se afastar do cinema no início dos anos 90?

























John Hugues e o elenco da obra-prima O Clube dos Cinco, de 1985.


John Hugues, como bem sabem os leitores assíduos deste blog - e um grupo muito mais numeroso, formado por todo mundo que cresceu durante os anos 80 -, é o escritor que chegou em Hollywood em 1983 com um cartão de visitas poderoso - Férias Frustradas - e que se tornou o Woody Allen dos filmes adolescentes - Gatinhas e Gatões, Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco (como diretor) e A Garota de Rosa Shocking, Alguém Muito Especial e Mulher Nota Mil (como roteirista). Depois, inventou a comédia familiar padrão, com Antes Só do que Mal Acompanhado, Quem Vê Cara não Vê Coração e, finalmente, Esqueceram de Mim, já em 1990.

Depois dessa fulminante carreira construída em 7 anos, ele se enfiou numa fazenda com sua família e nunca mais deu as caras. 

Clique aqui para ler o post sobre os grandes filmes de John Hugues!

Pois a Vanity Fair empreendeu uma baita reportagem, intitulada "O Doce Bardo da Juventude". Um texto sensacional, para o qual foram entrevistados os dois filhos de Hugues e os atores que se tornaram ícones de uma década pelas suas mãos - Molly Ringwald (a primeira musa indie), Anthony Hall (o nerd original) e Mathew Broderick (Bueller, Ferris Bueller). Esse grupo consegue pintar um perfil intrigante do cara meio infantilizado, centralizador, genial e genioso que era Hugues.

Deliciosas histórias de como Molly Ringwald foi hostilizada pelo seu mentor quando resolveu fazer filmes com outros diretores. Ou como os próprios pupilos sofriam com a possessividade do chefe.

Descrições minuciosas do estilo Peter Pan oitentista do diretor já quarentão, sempre com o tênis Nike de cano alto da moda, cabelos com mullets horrorosos e sua obsessão por gravar fitas cassete para seus atores preferidos.

E uma evolução meio assustadora de uma certa loucura (ainda que tratada com distância e eufemismos): o cara tinha centenas e centenas de cadernos, enchendo-os com descrições sobre tudo e todos. Escrevia incessantemente, contos, roteiros, livros, piadas, descrições soltas. Desenhos se misturavam. Dia e noite, noite e dia. Quando recebia visitas, conversava por horas e horas, testando a resistência do amigo.

A melhor notícia de todas é que a matéria está inteirinha aberta no site da Vanity Fair. E com conteúdo adicional, como uma entrevista conjunta com Broderick, Ringwald e Hall.

http://www.vanityfair.com/hollywood/features/2010/03/john-hughes-201003

Boa diversão!

Aliás, uma boa pergunta: por que ainda não tiveram a ideia de reunir os filmes do cara em um box bacana?

Enquanto isso, aproveitem, pois Antes Só do que Mal Acompanhado acaba de ser lançado em DVD.

P.S.: aguardo homenagem póstuma séria a John Hugues no Oscar.

Marcadores: , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

Sobre Ferris Bueller, Zooey Deschanel e Smiths

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010 - 3 Comentários

O Carnaval será usado por este blogueiro avesso a bailes, micaretas e folias em geral para zerar a leva de filmes do Oscar. É uma longa tradição, e a ansiedade é comparável à de uma colegial às vésperas de ir pra Salvador no trio do Chiclete ou algo que o valha.

Mas o momento é de respirar fundo e pensar no que realmente deu alegria em 2009. E, apesar de coisas ótimas como Bastardos Inglórios e Amor Sem Escalas e À Deriva, o que guardarei pra sempre na memória é mesmo 500 Dias com Ela.

Uma das cenas que me ficou na memória (entre tantas) é uma em que o rapaz aumenta o som da sua estação de trabalho, pra ver se a Summer (Zooey Deschanel) nota que ele está ouvindo Smiths - na verdade, pra ver se ela nota que ele existe.

A cena não tem nada de mais - mas a música, ah, a música... Please, Please, Please (Let Me Get What I Want), clássico singelo da banda inglesa mais amada depois dos Beatles, é daquelas que grudam na sua cabeça com apenas dez segundos de exposição - e nunca mais vão embora.

Ouça uma versão ao vivo da banda de Morrisey e Johnny Marr, com direito a um solinho de guitarra melódico e cortante no final. É curtinho, vale a pena:



Meses se passaram desde que vi o filme, a música ficou lá, martelando: "please, please, please... let me, let me, let me..." - e algo me remetia a outra cena memorável de outro filme que nunca mais saiu da minha memória RAM:  Curtindo a Vida Adoidado.

A comédia juvenil de John Hugues, lançada em 1986, é hoje um filme mitológico, com seu protagonista Ferris Bueller tendo sido promovido a ícone pop. A cena a que fui remetido é aquela em que Ferris, sua namorada e seu amigo passeiam pelo Museu de Chicago, no meio do seu "dia de folga". Eles andam entre Picassos e Matisses, ao lado de crianças de excursões escolares, namoram na frente de vitrais e Cameron, o amigo solitário, pira na frente da obra-prima do pontilhismo, Domingo no Parque (de George Seurat).



Coisa linda, não? E a música, percebeu?

É a mesma Please, Please, Please (Let Me Get I Want), aqui em uma versão instrumental do Dream Academy.

Que é a coisa mais distante que consigo pensar de qualquer tipo de sentimento carnavalesco.

OK, vai, uma pontinha de melancolia antes da esbórnia não vai atrapalhar nada o pé na jaca dos amigos de BLOGIE. Mandem ver, moçada!

Marcadores: , , , , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

John Hugues, o dono dos anos 80

sexta-feira, 7 de agosto de 2009 - 2 Comentários

Morreu John Hugues.

Quem?




















Conto uma história: um jovem publicitário/escritor de Chicago chega a Hollywood em 1982 e consegue vender um de seus contos para o cinema. Escreve o roteiro e imagina ter um grande sucesso nas mãos: a história da viagem de uma família cruzando o território dos EUA, de costa-a-costa, com coisas bizarras acontecendo ao longo do caminho. O ponto-de-vista adotado era o do filho adolescente. Mas o estúdio havia escolhido Chevy Chase, um dos maiores comediantes da época, para estrelar o filme, e o roteiro foi todo mudado, transferindo o foco para o pai da família.


O filme era Férias Frustradas, que abriu oficialmente a década de 80 como a era da "comédia família". Era o programa perfeito para noites de sábado no sofá, pai, mãe, filhos e cachorro se entupindo de pipoca, assistindo a filmes "para toda a família", naquela incrível invenção que era o vídeo-cassete.



















Chevy Chase e família: programão nos anos 80 era ver Férias Frustradas - e suas continuações - em vídeo...

O jovem roteirista não parou de acreditar no potencial de suas histórias baseadas em adolescentes. Aproveitou o sucesso de Férias Frustradas e se tornou diretor. Escreveu e dirigiu, durante os três anos seguintes, Gatinhas e Gatões, O Clube dos Cinco, Mulher Nota Mil e Curtindo a Vida Adoidado. De quebra, escreveu e produziu A Garota de Rosa-Shocking e Alguém Muito Especial.

Esse foi John Hugues.

Sim, é isso mesmo: todos esses filmes que cansamos de ver na Sessão da Tarde - e que são parte essencial do imaginário pop dos anos 80 - são obra de um único cara, que produziu tudo isso de uma vez!


Veja o trailer de O Clube dos Cinco!

Desnecessário dizer que o homem era um gênio.

Depois de satisfeita sua fase teen, Hugues voltou à comédia familiar e perpetrou outra obra-prima: Antes Só do que Mal Acompanhado, com Steve Martin e John Candy (1987). Arrancou do gordão Candy a melhor atuação da sua vida e fez dele um astro. A parceria entre Hugues e Candy voltou um ano depois, em Quem Vê Cara Não Vê Coração: outro sucesso.
















Steve Martin e John Candy: símbolo de uma geração de comediantes brilhantes que chegava ao auge.

E, em 1990, Hugues fechou a década de 80 escrevendo e produzindo o maior sucesso daquele ano e de sua carreira: Esqueceram de Mim.

Depois disso, ele se isolou em uma fazenda e a última foto que se viu do diretor foi em uma visita ao seu filho, em 2001.

John Hugues morreu ontem, aos 59 anos, de ataque cardíaco. Mas isso é papo chato. Vamos lembrar do que ele nos ensinou, através do herói de uma geração, Ferris Bueller:


Esta é parte da primeira e da segunda cena de Curitndo a Vida Adoidado, de 1986.

Como epitáfio, sugiro a frase abaixo, escrita por Hugues e proferida por Bueller, no início e no final de Curtindo a Vida Adoidado:

A vida passa rápido demais. Se você não parar para dar uma olhada de vez em quando, pode perdê-la.

Marcadores: , , , ,

Assinar
Postagens [Atom]

Publicidade