Crítica: "A Janela", de Carlos Sorín
quarta-feira, 20 de maio de 2009 - 0 Comentários
Em meio a tanto barulho (Star Trek, Wolverine, Anjos e Demônios), fui procurar um pouco de paz em uma das salinhas acanhadas e acarentas do Anexo do Espaço Unibanco. Lá, está em cartaz o argentino A Janela, de Carlos Sorín. Que é um achado.
Sem seguir regras ou convenções, e abusando do silêncio e do vazio, Sorín conta a história de um dia na vida de Antonio, um velho escritor cujo coração dá mostras de não querer mais funcionar. Prostrado na cama, ele se recupera de uma parada cardíaca, e depende da ajuda full time de duas empregadas. Mas há um grande evento para aquele dia: seu filho, um pianista famoso com quem não fala há anos, vai chegar à velha fazenda, e ele ensaia uma reconciliação.
O filme acompanha a preparação da casa e do velho para a chegada do filho. Uma champanhe guardada há décadas sai da adega. Um afinador de piano aparece para dar um trato no velho Quant alemão maltratado. A enfermeira apara os cabelos brancos de Don Antonio.
Mas a preparação mais importante é a do próprio Antonio. Ele se cansa de namorar o mundo da sua janela, e resolve dar uma última volta pela sua propriedade. Esse é o ponto de inflexão do filme, quando as expectativas fofinhas e o clima afetuoso dão lugar àquela angústia de as coisas nunca acontecerem como deveriam.
Trata-se de um filme para pensar no relacionamento entre pai e filho, e no próprio envelhecimento. E que faz a gente sair do cinema pensando em fazer tudo aquilo que deixamos de fazer, e de uma vez.
Porque, no fim das contas, é nas reminiscências da juventude, e não em um inatingível acerto de contas final, que vamos encontrar o conforto. Como Don Antonio e seu fetiche por babás. Ou seu filho e o soldadinho de chumbo descoberto no meio das cordas do piano. Cada um tem a sua ponta solta.
Não deixe de resolvê-la.
P.S.: é sempre bom conferir uns filmes diferentes para arejar. A Janela exige um tanto de paciência e investimento de fé por parte do espectador, porque ele não facilita as coisas (em outras palavras: é lento, arrastado, dá sono mesmo). Não sei se vai valer a pena pra você, mas pra mim valeu. Que tal arriscar?
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