Na VIP do mês passado, na sensacional matéria "Almanaque dos anos 00" (editada por Marcelo Orozco), o leitor encontra um box em que este blogueiro dá seus pitacos sobre quais foram os grandes fatos do cinema da primeira década do século 21.
Entre os destaques, citei o velho Clint Eastwood, que viveu seu auge depois dos 70 anos, em contraste com a revelação de um grande diretor: Jason Reitman, diretor que estreou em 2005 com Obrigado Por Fumar e que arrebentou no ano passado, com Juno.
Pois bem, o novo filme de Reitman, que acaba de ser lançado nos EUA, acaba de ganhar o primeiro prêmio de melhor filme da temporada que vai deste final de ano até o Oscar, em fevereiro. Amor Sem Escalas, um drama corporativo com muito humor, traz George Clooney em um papel que, dizem, pode ser o maior de sua carreira (um Oscar vem por aí?), e ganhou o prêmio de melhor filme do National Board of Review.
Veja o trailer:
Indicações para o Globo de Ouro são certas, e daí para o Oscar, é um pulo.
Com isso, Reitman se consolida como um dos três diretores surgidos nos anos 00 que fizeram história e deram cara ao cinema da década. Os outros dois são Sofia Coppola (Encontros e Desencontros, As Virgens Suicidas) e Judd Apatow (O Virgem de 40 Anos, Ligeiramente Grávidos).
Como é bom gostar de cinema. Sempre vem coisa nova.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009 - 5 Comentários
Moçada, o ano 2000 chegou, o mundo não acabou (reagendaram o evento para 2012) e filmes continuaram a ser feitos, e nós continuamos a ir ao cinema. Graças a Deus.
Já se vão quase dez anos e é chegada a hora de fazer um balanço. Como foi o cinema nestes anos 00?
Eu classifico esta primeira década do milênio como uma época difusa para o cinema. Não há um filme com "a cara" da década - como A Primeira Noite de um Homem foi para os anos 60 (contra-cultura), Taxi Driver para os 70 (realismo e autoria), E.T. para os 80 (fantasia) e Pulp Fiction para os 90 (cinema "independente"). Vejo um pouco de tudo, e nada muito dominante.
BLOGIE peneirou seus filmes preferidos, para ver no que dá... Veja, em ordem cronológica, a lista dos melhores filmes desta década:
- Quase Famosos, de Cameron Crowe
- Alta Fidelidade, de Stephen Frears (baseado no livro do Nick Hornby)
- Cidade dos Sonhos, do doido David Lynch
- Fale Com Ela, o melhor de uma série genial do Almodóvar
- Cidade de Deus (e sem unfanismo!)
- Encontros e Desencontros (já falo deste)
- Sobre Meninos e Lobos, do grande Clint Eastwood
- Match Point, da fase europeia de Woody Allen (Vicky Cristina Barcelona também merece lugar na lista)
- Closer - Perto Demais, teatro filmado pelo gênio Mike Nichols (o mesmo por trás de A Primeira Noite de um Homem e Uma Secretária de Futuro)
- Procurando Nemo, da Pixar
- Kill Bill, um grande exercício de estilo de Tarantino
- Os Infiltrados, porque um bom Scorsese vale ouro hoje em dia
- Juno, uma bela surpresa de um ótimo diretor novo, Jason Reitman
- Gran Torino, epitáfio dos personagens-machos de Eastwood
- Up! - Altas Aventuras, outra vez a Pixar
Como dá pra ver, tem um pouco de cinema pop e com pinta indie (Alta Fidelidade e Juno), que são praticamente um tributo aos anos 90; há grandes obras de gênios incansáveis (Woody Allen, Clint Eastwood, Martin Scorsese, Pedro Almodóvar); há pontos fora da curva (o representante brasileiro e os acertos de Tarantino e de David Lynch); há as animações da Pixar, que divide com a Dreamworks (Shrek, etc) as grandes bilheterias desta década...
... e há Encontros e Desencontros.
Se eu tivesse que escolher um filme como representante da década, seria este.
Encontros e Desencontros é o segundo filme de Sofia Coppola, filha do grande Francis Ford Coppola (O Poderoso Chefão, Apocalipse Now). A moça tentou de tudo na vida: quis ser atriz, quis ser fotógrafa, foi patricinha, ficou entediada. E atendeu ao óbvio chamado da natureza e realizou o talento que a genética lhe transmitiu: virou diretora.
Fez o ótimo e subestimado As Virgens Suicidas. E aí emendou esse filme incrível e sem paralelo que é Encontros e Desencontros. O nome original, Lost in Translation ("perdido na tradução"), explica mais sobre o filme. Ele é sobre aquilo que não se fala, mas que fica entalado. Frustração de viver em uma época em que se pode tudo, e isso simplesmente não é suficiente.
Veja o trailer - com legendas! - de Encontros e Desencontros..
Os protagonistas, você sabe, são Bob Harris (Bill Murray), um ator que já viveu dias melhores e que curte sua decadência fazendo comerciais de uísque no Japão, e Charlotte (Scarlett Johansson), uma moça que não sabe o que quer na vida e que está em Tóquio acompanhando seu namorado workaholic.
Bob e Charlotte, embora sejam de gerações diferentes e, aparentemente, nada tenham em comum (Bill Murray é feio a dar com pau, e Scarlett é uma deusa), acabam se entendendo, firmando uma rápida amizade baseada na auto-ironia e na cumplicidade e, eventualmente, se enroscam em um caso passageiro.
Sofia Coppola abre mão do cinismo e da vontade de ser esperta que caracterizaram o cinema dos anos 90, e é aí que Encontros e Desencontros vira símbolo desta década esquisita: você pode ficar conectado com o mundo, viajar até Tóquio, entrar nas baladas mais loucas, mas não precisa fingir que está mandando bem. Admitir a frustração é um passo nobre a ser dado, e Scarlett Johansson construiu uma carreira a partir dessa aparição inesquecível - foi, sem dúvida, a revelação da década. Bill Murray também ganha aqui o papel da sua vida, e foi uma pena Sean Penn ter vivido Sobre Meninos e Lobos no mesmo ano. Murray merecia seu Oscar, era sua grande chance (enquanto Penn já ganhou outro e, tudo indica, tem mais pela frente).
Encontros e Desencontros tem também uma trilha sonora com cara de anos 00 - rock independente, música eletrônica, lounge, essas coisas que eu não sei direito como rotular, tudo muito etéreo e desconexo, disperso como tudo neste mundo em que pessoas ficam se xingando em fóruns de discussão e blogs, que teoricamente têm a capacidade de unir e incluir.
Acredito que o futuro reservará um lugarzinho de destaque para essa singela e sincera realização de Sofia Coppola.
E espero que ela não se entregue aos maneirismos a que tentam reduzir seu trabalho (moças solitárias, música independente, potencial de ícone fashion). Se ela morder essa isca (e parece que mordeu em Maria Antonieta), poderá desperdiçar um grande talento para contar histórias. Que ela reencontre seu caminho.