Estreia: "O Segredo dos Seus Olhos", de Juan José Campanella
terça-feira, 2 de março de 2010 - 2 Comentários
Por mais que haja o Walter Salles e o Fernando Meirelles (e todos os outros), simplesmente não há comparação entre o cinema brasileiro e o cinema argentino. O último é muito mais vivo, tem personalidade, é consistente. Já o nosso é aquela coisa que já conhecemos: é só favela, retirante, estética da miséria, etc. Há alguns produtos (o nome é apropriado) voltados para a classe média - Se Eu Fosse Você é o exemplo mais claro -, mas o resultado é invariavelmente tosco.
É triste que esse seja o primeiro pensamento que me venha à cabeça enquanto sobem os créditos de O Segredo dos Seus Olhos, filme argentino indicado ao Oscar de melhor filme em língua estrangeira. Triste, porque este thriller/drama tem assunto de sobra para ocupar a cabeça por muito tempo.
Juan José Campanella, diretor de O Filho da Noiva, faz uso novamente de seu alter-ego, Ricardo Darín (que uma amiga de BLOGIE costuma chamar de "o único ator do cinema argentino", tal a onipresença do cara). Aqui, Darín é Benjamin Esposito, um burocrata do Judiciário argentino aposentado, que começa a revirar suas memórias. Por algum motivo, ele não consegue se esquecer de um caso que ficou mal resolvido lá nos anos 70.
Ricardo Darín: o "único ator do cinema argentino" - e ainda assim os vizinhos estão bem servidos.
O caso, que tratava de uma jovem que foi estuprada e morta em condições misteriosas, coincide com a admissão de Irene (Soledad Villamil), a nova chefe de Esposito. Irene é muita areia pro caminhãozinho do camarada - de família rica, formação em Harvard (ou outra top ten americana, whatever), linda e tudo mais. Obviamente, Esposito cai de amores pela mulher - e, em certa medida, é retribuído. A maneira como o caso de amor velado entre os dois não evolui, em paralelo à investigação do tal caso, é de um clima que remete aos romances e contos do Rubem Fonseca. Remetem também ao cinema do Truffaut (A Sereia do Mississipi) e do Martin Scorsese em seus momentos mais ternos (a falação - mas não a pancadaria - de Os Bons Companheiros). E, claro, há muito de Hitchcock no desenvolvimento enigmático e cheio de hesitações dos personagens.
Entre os muitos pontos altos desse filme excelente, está a tensão das cenas de investigação, culminando em uma perseguição inacreditável num estádio de futebol, durante um jogo do Racing ("nenhum homem consegue trocar sua paixão"). Mas também não dá pra deixar de destacar a acidez e o humor dos diálogos: é uma frase cortante atrás da outra, não sobre pedra sobre pedra. O linguajar é de filme policial, e a turma do Fórum se trata numa verve capaz de fazer o Capitão Nascimento corar - é um tal de boludo pra cá, pelotudo de mierda pra lá, é muito engraçado ver os portenhos se xingando com tal fluência.
E aí é que entra o ladrão de cenas do filme: Guillermo Francella, o contraponto cômico preferido de Campanella (ele também dá as caras em O Filho da Noiva). Francella faz Pablo Sandoval, o fiel escudeiro de Esposito na investigação - e no cortejo à jovem chefe. Sandoval é, a rigor, um bêbado, vive sendo rebocado dos botecos pelo seu amigo. Em troca, Esposito cobra de Sandoval ajuda na análise das evidências do caso do estupro.
Guillermo Francella: entre umas e outras, um trabalho antológico como ora atrapalhado, ora genial Sandoval.
Essa investigação rapidamente se transforma em obsessão para Esposito - e os desdobramentos da busca (em vão) pelo assassino sobre os personagens é algo entre o melancólico e o devastador. Passar a limpo esse episódio que deixou feridas eternamente abertas é um caminho para Esposito talvez retomar sua vida.
Aqui, deixo o tradicional trailer de lado e vamos direto para a cena do estádio de futebol, com legendas em português! É daqui direto para o cinema mais próximo...
O Segredo dos Seus Olhos é um filme afetuoso, humano, engraçado, tenso e, em certa medida, romântico. Não há ressalvas neste grande trabalho de Campanella, apoiado no seu elenco perfeito. É um filme sobre tudo aquilo que não é falado (e que vaza pelos olhos, como fica claro em diversas cenas), por pessoas que falam muito sobre tudo o que não importa - e que internalizam o mais importante.
Voltando à comparação inicial entre cinema argentino e brasileiro: talvez o grande problema brasileiro seja a noção de que classe média e urbana não é assunto sério para um filme. Daí temos nossos bons diretores tratando daquilo que consideram "sério" (e tome miséria), enquanto outros se ocupam de "entretenimento puro". Como se vê em O Segredo dos Seus Olhos (e em toda a obra de Campanella), essa bobagem não se sustenta. Dá pra divertir com texto inteligente, ótimas atuações e conteúdo sensível.
Dá até pra ganhar um Oscar por isso.
Resumindo: não deixe de ver O Segredo dos Seus Olhos. Mesmo.
Marcadores: cinema, cinema; Oscar, estreia
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2 Comentários:
Amei o filme, a cena do estádio certamente já entrou pra história do cinema...
Talvez até reveja, tem umas frases muito boas!
Estou na torcida por ele!
3 de março de 2010 às 10:45
De tanta coisa boa, o melhor de tudo são as frases! Principalmente as do Sandoval. Que figura...
Veja Crazy Heart tb, vale a pena!
Um abraço
Ricardo
3 de março de 2010 às 16:40
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