Estreia: "Paris", com Juliette Binoche
quarta-feira, 8 de julho de 2009 - 6 Comentários
Estreou, na última sexta-feira, Paris, o mais recente exemplar daquele que está se tornando um gênero à parte no mundo do cinema: os filmes com um monte de personagens desconexos que levam as suas vidinhas e enfrentam seus dramas e amores, até que todo mundo se cruza de alguma maneira no final.
É o jeito que inventaram para transformar a crônica (ou meia dúzia delas) em longa-metragem.
Juliette Binoche vai à feira: um dia normal em Paris.
Isso não é problema; o formato já gerou obras-primas (Short Cuts - Cenas da Vida, Amores Brutos), comédias românticas simpáticas (Simplesmente Amor, Ele Não Está Tão a Fim de Você), dramas poderosos (21 Gramas, Crash - No Limite) e algumas bombas pretensiosas (Babel, Magnólia).
Paris aproveita a vertente menos cansativa desse tipo de filme: a do clima agridoce, humanista, que aposta em personagens de bairro vivendo situações comuns - e extraindo uma certa beleza disso. Pra melhorar, usa a cidade onde a ação se ambienta como um dos personagens. E Paris é um personagem que dá um bom caldo...
As histórias
As histórias giram em torno de Pierre (Romain Duris), um cara que descobre que precisa se submeter a um transplante de coração. Vários personagens - que compõem Paris de maneira um tanto esquemática - cruzam seu caminho ou circulam pelas redondezas: uma bairrista esnobe e xenófoba, imigrantes, feirantes grosseirões e gente-fina, socialites hedonistas e metidas a besta, uma assistente social de mal com a vida... salpicando as vidas de toda essa gente, o medo da morte e da solidão. Este, talvez, seja não o tema central, mas o tema em comum das várias histórias.
Juliette Binoche é a irmã de Pierre, e, embora não tenha muito o que fazer no filme, é ela quem dá o foco para o espectador - é sob seu ponto de vista que vemos essa turma toda patinando na vida. É através dela que sentimos dó de quem sofre injustamente, e é através dela que sorrimos para as coisas bacanas que acontecem. Meio maniqueísta, mas tudo bem...
Os personagens mais interessantes e mais completos do filme são dois irmãos de meia idade: um é professor de história; o outro, engenheiro civil. Um vive na "velha Paris" - prédios com séculos de vida, um apartamento caindo aos pedaços cheio de livros, museus; o outro, na "nova Paris" - está tocando a obra de um arranha-céu modernoso, mora num apartamento novinho e bem decorado. O historiador está marcando passo na vida: é sozinho, falta grana, e passou a nutrir uma paixão à distância por uma jovem aluna que anda de bicicleta. O engenheiro, bombando: sua bela esposa está grávida e seus projetos profissionais o empolgam e o remuneram em igual e alta intensidade.
Parêntese necessário: é nessa parte que aparece Melanie Laurent, como a estudante que deixa o velho professor, por assim dizer, de quatro. Dá até pra entender:
Melanie Laurent: ela alimenta a velha fantasia da universitária que dorme com o professor.
O que acontece com cada um a partir da morte do seu pai é o xis da questão, e discussões, dúvidas, presentes e consultas ao analista se sucedem para entendermos o grande dilema dos irmãos e de cada parisiense: deixar o barco correr e abraçar a modernidade ou se prender àquilo que fez da cidade (ou da sua vida) algo tão especial?
O mais interessante é que o filme não decifra o enigma; ele é a pergunta, não a resposta. Interessante.
Bittersweet simphony
Então, pra saber como é este Paris, imagine Short Cuts no cenário e com o clima levemente melancólico, agradavelmente otimista de O Fabuloso Destino de Amelie Poulain.
Pra quem gosta de cinema francês: lembra bastante alguns episódios (os melhores) do recente Paris, Eu Te Amo (coletânea de curtas metragens sobre a Cidade Luz). Também dialoga com Medos Privados em Lugares Públicos, outro filme ambientado em Paris, e que também usa personagens aparentemente desconexos. Mas é mais otimista do que este último.
Mas, se for pra ir direto na fonte, o fato é que Cédric Klapisch (o diretor do filme) bebeu bastante da água de François Truffaut, que retratava como ninguém a beleza das pessoas comuns através das suas imperfeições. (Sugestão de filme do Truffaut que melhor exemplifica isso: Beijos Roubados).
Resumindo: o filme é bom. Tem lá seus defeitos (esse tipo de roteiro sempre acaba ficando meio esquemático), mas é honesto. É agradável, e foge daquele tipo de filme "feito pra pensar". Ele é mais "feito pra sentir". Isso o qualifica como bom programa para um sábado à noite, especialmente se sua paquera/namorada/esposa não topar os blockbusters do momento.
Marcadores: cinema, estreias, Juliette Binoche, Paris
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6 Comentários:
engraçado, tinha lido alhures :) algum comentário não elogioso. Mas gostei do que você resenhou, volto depois que assistir! E vou divulgar seu comentário pros amigos que amam a França.
8 de julho de 2009 às 14:54
Essa - os fanáticos por Paris - é a turma que "pira" em um filme desses...
8 de julho de 2009 às 15:03
Então vou ser a próxima a pirar. Adoro a Binoche! Adoro Paris! Amo filme francês! Já pirei faz tempo. kkkkkkkkkk
Abraços
9 de julho de 2009 às 21:34
Patrícia,
Então pire em dose dupla: a Binoche está em cartaz em outro filme francês, "Horas de Verão"... dizem que é muito bom (de um modo geral, foi melhor avaliado do que "Paris"). Verei hoje, escrevo amanhã aqui no BLOGIE...
Um abraço,
Ricardo
10 de julho de 2009 às 10:38
Amei o filme... to refletindo sobre e em breve terei postado sobre ele também!
E o outro filme, assistiu? Valeu?
16 de julho de 2009 às 18:11
Então... para "Horas de Verão", ganhei um ingresso para ver "de segunda a quinta", então estou tentando encaixar... vou acabar vendo só na semana que vem.
À caça das boas estreias desta semana!
Abs,
Ricardo
17 de julho de 2009 às 00:46
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