Dossiê: Nick Hornby, o escritor VIP do cinema
terça-feira, 26 de maio de 2009 - 12 Comentários
Mulheres. Futebol. Música. Gadgets. Solteirice. O universo do escritor inglês Nick Hornby parece ter sido moldado ao do leitor da VIP. Cheios de citações pop e sem nenhuma afetação literária, seus livros fazem sucesso, são divertidos e, veja só, são bons mesmo.
Tanto que ele foi escalado para a "FLIP dos Sonhos", na matéria que você encontra na VIP deste mês, agrupando um monte de autores e livros que conversam com o espírito da nossa revista.
John Cusack e seus discos em Alta Fidelidade - filme de Stephen Frears, baseado em romance de Nick Hornby.
Não é só o pessoal da VIP que admira o trabalho de Hornby; o cinema - tanto o de Hollywood quanto o inglês - também não perde a chance de evocar sua presença, comprando os direitos e fazendo versões bacanas de cada um dos livros desse careca londrino, torcedor fanático do Arsenal e consumidor compulsivo de música pop. Conheça os filmes baseados em livros de Nick Hornby!
Febre de Bola (1997) / O Amor em Jogo (2005)
O primeiro livro de Hornby, Febre de Bola, é uma autobiografia de um homem que vive em torno do Arsenal: o próprio Hornby. Gunner doente, o autor mora na rua do estádio do Arsenal, tem sua casa decorada com flâmulas, programas e produtos licenciados do time e tem, obviamente, grande dificuldade em conciliar sua paixão pelo time com a vida que uma pessoa normal deveria levar - digamos, arrumar emprego e mulher.
O livro foi adaptado para o cinema na Inglaterra, de maneira até fiel ao texto. Mas Hollywood também gostou da história. Só que ficou bem diferente: em O Amor em Jogo, o jogo em questão é baseball, e não futebol. O time é o Boston Red Sox. A adaptação foi feliz: o Red Sox está para o baseball assim como o Arsenal está para o futebol inglês. E ambos são meio parecidos com o Corinthians, aqui por estas terras.
Explica-se: os três são times que tiveram um passado glorioso, mas que amargaram um longo período de seca, sendo motivo de chacota dos outros times. A situação melancólica, nos três casos, pareceu alimentar a obsessão das suas torcidas, que se mantiveram fieis e barulhentas, aguardando pela redenção. No livro de Hornby, o clímax chega com o título do Arsenal no inglês de 1989. Seria equivalente ao Corinthians de 1977.
A grande sorte (e foi sorte mesmo!) de O Amor em Jogo foi que a situação do Red Sox era bem pior: o time não era campeão do World Series (o campeonato americano de baseball) há 84 anos. Falava-se em uma maldição que datava de quando Babe Ruth (o Pelé do baseball) trocou o Red Sox pelo New York Yankees (nos anos 20!). Pois bem: justamente enquanto o filme era produzido (2004), com locações reais no Fenway Park, o Red Sox venceu a World Series, quebrando o tabu.
O dia, especialíssimo pra qualquer um que goste de esporte - e principalmente para os torcedores do Red Sox -, está devidamente registrado no filme. Veja o trailer:
É a adaptação mais fraca e mais solta dos livros de Hornby, mas esse momento final, aliado a cliques da mágica de torcer loucamente por um time (como o lance da galera do Red Sox cantar Sweet Caroline a plenos pulmões em todos os jogos), fazem o filme valer a pena. Com Jimmy Fallon e Drew Barrymore.
Um Grande Garoto (2002)
Hugh Grant encarna com talento e graça o jovem senhor que, solteiro convicto, se recusa a crescer e a assumir seus quase quarenta anos.
Em meio a montanhas de gadgets, um apartamento "pegador", carro bacana, revistas estilosas e nenhuma necessidade de trabalhar (pois vive de direitos autorais herdados do pai), Grant pensa que "se todo homem é uma ilha, eu sou Ibiza".
Até que ele conhece, meio por acaso, um moleque de 12 anos, avesso a qualquer tipo de modismo ou estilo. Sua mãe, uma riponga maluca, está enfrentando uma depressão brava, e o marmanjo não consegue mais fugir do pau.
Um filme escancaradamente engraçado e, ao mesmo tempo - e estranhamente -, delicado. E ainda tem a Rachel Weiz, que é linda e capaz de recuperar qualquer marmanjo da adolescência retardada.
A distorção: no livro, a história se passa em 1994, e a morte de Kurt Kobain tem um papel central na trama; já o filme se passa nos anos 2000, e o interesse musical da moda passa a ser hip-hop, e os produtores tiveram que arranjar outro clímax para o filme. OK, mas perdeu bastante do tempero pop.
Falando em tempero pop, vamos ao melhor filme baseado em livro do Nick Hornby.
Alta Fidelidade (2000)
Aliás, baseado no melhor livro do cara. Alta Fidelidade traz a história de Rob Gordon, um homem beirando a meia-idade que, ao ser abandonado pela namorada (com quem morava há alguns anos), entra em parafuso e se põe a tentar entender por que seus relacionamentos não dão certo.
A pista principal está na sua atividade profissional: ele é dono de uma loja de discos (em vinil!) para colecionadores. É cercado por obcecados como ele, e vive a vida em forma de listas, que ele e seus amigos produzem sem parar (as cinco melhores músicas para a segunda-feira, etc).
O filme muda o cenário de Londres para Chicago, mas não muda nada: a coisa toda é bem fiel ao romance, e John Cusack está perfeito no papel de Rob. Em pelo menos uma cena-chave, o filme foi ainda melhor do que o livro: neste, Rob reflete sobre o insucesso de seus relacionamentos (ele fez uma lista dos cinco "foras" mais memoráveis), e tem vontade de ligar para cada uma das ex-namoradas e saber o que se fez de suas vidas - e pensa, como seria bom se a vida fosse assim, como uma música do Bruce Springsteen. No filme, ele está deitado, fazendo a mesma reflexão, quando aparece Bruce em pessoa, afinando sua guitarra e aconselhando Rob a ligar para as ex-namoradas, perguntando como vai a vida, encerrando o assunto e desejando boa sorte. Um achado de roteiro, e um gostinho especial para o próprio Nick Hornby, que é fã de Bruce e teve o Boss em seu filme, retribuindo a tietagem.
No mais, Alta Fidelidade revelou Jack Black, como o mala-220-desencapado Barry. É impossível ler o livro sem imaginar Barry na pele de Black.
O que vem pela frente:
Ainda precisam ser adaptados para o cinema três romances de Hornby: Como Ser Legal, Uma Longa Queda e Slam!
Uma Longa Queda resultaria em um bom filme alternativo, tão cheio de diálogos bacanas que é. Slam! faria um bom par com Juno como filme adolescente sutil e inteligente. Como Ser Legal, por fim, é o livro mais adulto do autor, e também o mais capenga, mas tem ótimos insights e situações, e pode ficar melhor em vídeo do que em livro. A conferir.
Marcadores: cinema, literatura, Nick Hornby
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12 Comentários:
Nossa já vi tantas vezes Alta fidelidade que já sei de cor, e ainda acho legal.
Concordo sobre Uma longa queda. Li em algum lugar que o Johnny Depp comprou os direitos e vai produzir.
27 de maio de 2009 às 22:31
Mari,
Obrigado pelo comentário e pela notícia! Vou apurar... seria bem bacana esse filme com a cara do Johnny Depp. Inclusive ele seria o personagem principal perfeito!
E a Ellen Page para fazer a Jess...
Um abraço,
Ricardo
27 de maio de 2009 às 23:31
Não li os livros, só assisti a Alta Fidelidade e Um Grande Garoto - muito bons mesmo.
Adorei que tenha no trailler uma das cenas mais engraçadas: quando se recusa a ser padrinho da filha dos amigos! ;)
28 de maio de 2009 às 17:04
ah a Ellen Page é muito meiga pra ser aquela boca suja da Jess! mas ia ser curioso
28 de maio de 2009 às 23:32
Thays: vale ler um dos livros. O cara é bom demais. Vá de "Alta Fidelidade", estiver a fim de muitas citações pop, ou "Uma Longa Queda", se estiver a fim de literatura descompromissada, mas ainda assim literatura.
Mari: Elle Page é cool enough. Ela se sairia bem. Dá pra romper com a meiguice juvenil em grande estilo. Faria bem pra ela.
29 de maio de 2009 às 12:01
Bom, os livros ainda não li. Como fiquei de molho com uma gripe, que me impediu de ver "Paris", como tinha planejado, assisti finalmente "O amor em jogo". Eu acho ela uma santa, eu acho que eu não teria a paciência depois de vê-lo na TV...
Mas, gostei do filme!
E você viu os extras, com os produtores e o elenco comentando como decidiram filmar na última partida?
12 de julho de 2009 às 12:08
Bom, os livros ainda não li. Como fiquei de molho com uma gripe, que me impediu de ver "Paris", como tinha planejado, assisti finalmente "O amor em jogo". Eu acho ela uma santa, eu acho que eu não teria a paciência depois de vê-lo na TV...
Mas, gostei do filme! Você viu os extras, com os produtores e o elenco comentando como decidiram filmar na última partida?
12 de julho de 2009 às 12:08
O MELHOR foi ele aparecer na TV dando papelão! A coisa mais engraçada... e o pior é que muito cara normal vira um idiota nesse tipo de situação (ou eu estou racionalizando a minha situação no Pacaembu)...
13 de julho de 2009 às 12:21
Acabei de ler Alta Fidelidade e me identifiquei muito. Nick Hornby escreve muito bem e consegue escrever as coisas do jeito que elas realmente são. Vi o filme a muito tempo e não lembrava direito, mas Grande Garoto eu vi a pouco tempo e gostei bastante. E Mari: Ellen Page não é assim tão meiga não. É só assistir Menina má.com pra ver que ela pode ser muito diferente de Juno. A menina é boa e versátil.
1 de fevereiro de 2010 às 22:35
Leo, minha passagem preferida de "Alta Fidelidade" é aquela em que o Rob discute a questão de ter que satisfazer as mulheres no sexo - coisa que, para a geração do pai dele, era simplesmente uma não-questão... muito engraçado...
Agora, comprei o novo livro do Hornby, "Juliet, Naked"... ainda não traduziram para o português, daí não aguentei a espera e vou pro original mesmo...
Obrigado pelo comentário, dê sempre uma olhada por aqui, pois estamos na melhor época do ano pra falar de cinema!
Um abraço,
Ricardo
2 de fevereiro de 2010 às 09:26
Na verdade esse livro é repleto de partes engraçadas. É legal a meneira como ele escreve sobre coisas que a gente pensa normalmente, coisas que ficam só na nossa cabeça. Muito bom mesmo.
Não sei se o Nick Hornby segue esse mesmo estilo de escrita nos outros livros, mas com certeza vou atrás de outros assim que possível.
E quanto ao filme, procurei aqui na minha região em algumas locadoras e não encontrei. Tive que fazer um download. Acho que depois vou me obrigar a comprar o DVD, hehe.
2 de fevereiro de 2010 às 20:23
Leo, se você gostar de futebol, vá de "Febre de Bola"... é um livro absolutamente imperdível!
15 de março de 2010 às 20:32
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